História de pintora modernista ‘esquecida’ é relembrada em novo livro de autora de MS

A autora Mazé Torquato Chotil e sua obra que será na Biblioteca Pública Estadual Dr. Isaias Paim - Foto: reprodução
A autora Mazé Torquato Chotil e sua obra que será na Biblioteca Pública Estadual Dr. Isaias Paim - Foto: reprodução

Obra joga luz a vida e obra de pintora nas décadas de 1930 e 1940

 

Uma artista que, como tantas outras mulheres, acabou sendo esquecida dentro de rol de nomes nacionais, agora ganha destaque no livro ‘Lucy Citti Ferreira: A pintora esquecida do modernismo’, da autora sul-mato-grossense Mazé Torquato Chotil, com debate especial sobre a obra no dia 14 de abril, na Biblioteca Isaias Paim, na Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul.

A obra é uma biografia que aborda a vida e a trajetória da pintora modernista — também desenhista, gravadora e professora — Lucy Citti Ferreira (São Paulo, SP, 1911 – Paris, França, 2008), que marcou a história da pintura brasileira nas décadas de 1930 e 1940 e que, como tantas outras artistas mulheres, acabou esquecida. Esta biografia busca ajudar a “desenterrá-la”.

Foto: divulgação

Para o jornal O Estado, a autora revelou que foi um encontro com a própria pintora que a inspirou a escrever sobre sua história. “Uma amiga jornalista brasileira, especializada em artes, propôs-me escrever um artigo a quatro mãos. Ela pediu que eu fosse vê-la em Paris, onde morava, para entender o que estava doando — e por quê — ao Museu de Arte e História do Judaísmo. Ela doava tudo o que possuía do pintor com quem trabalhou, Lasar Segall: telas, esculturas, desenhos… Não teve filhos nem herdeiros”, relatou.

Nascida em São Paulo, Lucy passou a infância em Gênova, na Itália e em Le Havre, na França, onde iniciou seus estudos artísticos na Escola de Belas Artes, continuando-os depois em Paris. Já formada e premiada como pintora, retornou ao Brasil em 1934, nos seus 23 anos, quando conheceu Mário de Andrade, que a colocou em contato com o pintor Lasar Segall — com quem trabalhou, foi musa e viveu uma história marcante.

Seu patrimônio pictórico, incluindo seus arquivos, foi doado à APAC – Associação Pinacoteca Arte e Cultura, com o apoio de Marcelo Araújo, amigo da pintora, que, à época, depois de ter dirigido o Museu Lasar Segall, estava à frente da Pinacoteca de São Paulo.

“Foi uma bênção ter à disposição, na Pinacoteca, os arquivos de Lucy. Foram dias e dias de pesquisa, de leitura, combinados com entrevistas na França e no Brasil com pessoas que a conheceram e que puderam compartilhar seus depoimentos sobre a artista”, disse Mazé.

Lucy viveu uma história artística relevante, assim como no plano afetivo: teve três homens importantes em sua vida e enfrentou numerosos desafios, tanto no plano pessoal quanto no profissional. Lutou contra dificuldades financeiras e contra as barreiras impostas às mulheres artistas. Sua relação com Segall foi, ao mesmo tempo, fonte de inspiração e obstáculo ao reconhecimento de sua própria obra. Uma Camille Claudel dos trópicos?

“Ela foi esquecida, mesmo fazendo parte da história da pintura brasileira daquelas duas décadas, como outras mulheres artistas brasileiras. Uma das descobertas foi a correspondência entre os dois artistas, após o retorno dela a Paris, em 1947, até a morte dele. Trata-se de uma correspondência em francês que, além de trocar ideias sobre pintura e sobre o que acontecia em Paris e no Brasil nessa área, me fez imaginar a existência de uma história de amor importante entre os dois. Não tenho documentos para afirmar isso, mas li nas entrelinhas algo que me leva a pensar em uma relação semelhante à de Auguste Rodin e Camille Claudel”, disse Mazé.

Apagamento

De volta a Paris em 1947, trabalhou intensamente, sempre em busca de novos caminhos para sua arte, sem se preocupar com a divulgação de sua obra. Assim, apesar de seus méritos e conquistas, foi esquecida pela história da arte.

Para a autora, a história de Lucy dialóga com o silenciamento de outras figuras femininas ao longo da história da arte como Anita Malfatti e Tarsila do Amaral. “O apagamento de mulheres artistas foi significativo. Até Anita Malfatti e Tarsila do Amaral foram esquecidas até relativamente pouco tempo. Pesquisadores, com seus trabalhos, ajudaram a retirá-las do esquecimento”, revela.

“Esta biografia tem a mesma intenção: tirar Lucy do lugar em que permaneceu por tanto tempo. Outros pesquisadores também estão resgatando diferentes artistas. Nós merecemos — e devemos —, enquanto mulheres, ocupar o lugar que é nosso pela qualidade do trabalho de cada uma”, complenta.

O debate na Biblioteca Pública Estadual Dr. Isaias Paim, será mediado Alan Silus, Doutor em Letras (Estudos Literários), Docente e Pesquisador da UEMS/ Campo Grande, escritor e ensaísta, membro do PEN Clube do Brasil – Região Centro-Oeste.

Ele comenta que a biografia mostra além da história da pintora, como também uma visão social do período.

“A biografia também expõe a sociedade da época, seus tabus, preconceitos e estruturas de silenciamento. Por trás de cada pincelada de Lucy havia tensões sociais profundas: machismo, elitismo e moral conservadora. Mazé costura essas dimensões com sensibilidade, situando Lucy num contexto amplo. A artista torna-se janela para compreender um tempo”.

Com a obra, Mazé quer resgatar a memória de Lucy e dar uma compreensão mais ampla do modernismo brasileiro e do papel das mulheres no movimento mais importante da história da arte brasileira.

“O principal é justamente “desenterrar” essa artista, revelando o belo trabalho que produziu e deixou para as gerações futuras. Ela foi incansável na busca de caminhos para sua pintura. Espero que escolas de arte, artistas, curiosos e o público em geral possam conhecer, por meio de sua trajetória, a contribuição que ela trouxe para a pintura”, finaliza.

Sobre a autora

Mazé Torquato Chotil é jornalista e autora. Doutora pela Universidade Paris VIII e pós-doutora pela EHESS, nasceu em Glória de Dourados (MS), morou em Osasco (SP) e mudou-se para a França em 1985. Nos últimos anos, divide seu tempo entre Paris, São Paulo e Mato Grosso do Sul.

É autora de 15 livros publicados — entre romances, biografias e ensaios —, dos quais cinco em francês. Entre eles, destacam-se Lucy Citti Ferreira: a pintora esquecida do modernismo, Maria d’Apparecida: negroluminosa voz e Lembranças do sítio.

Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono), é fundadora e foi a primeira presidente da UEELP – União Europeia de Escritores de Língua Portuguesa. Escreveu — e continua escrevendo — para a imprensa brasileira e para sites europeus.

Recebeu o Prêmio da AILB, categoria Romance, em 2025, com Mares agitados: na periferia dos anos 1970, e o de Biografia, em 2022, pela obra Maria d’Apparecida: negroluminosa voz.

Serviço: O lançamento do livro Lucy Citti Ferreira: A pintora esquecida do modernismo”, de Mazé Torquato Chotil será no dia 14 de abril de 2026, às 19h, na Biblioteca Pública Estadual Dr. Isaias Paim, localizada na Avenida Fernando Corrêa da Costa, 559, Centro, Térreo. Mais informações pelo telefone: (67) 3316-9161.

 

Por Carolina Rampi

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