Exposição “O Grito que Ecoa” reúne 14 artistas mulheres e aborda temas como feminicídio e violência

Foto: Leiliane-Assis
Foto: Leiliane-Assis

Misoginia, feminicídio, abuso, violência, invisibilização e ódio. Essas são situações que a maioria esmagadora das mulheres já vivenciaram ou ainda irão viver, estando em uma sociedade patriarcal, onde o que rege as relações sociais são a hostilidade ao corpo feminino, silenciamento e violências estruturais. São essas as temáticas trabalhadas na exposição coletiva ‘O Grito que Ecoa’, que estreia no dia 13 de fevereiro, no MIS (Museu da Imagem e do Som), em Campo Grande.

A mostra reúne trabalhos de 14 artistas mulheres e faz parte da primeira etapa do projeto ‘Nós Dissemos: Circuito de Arte Dorcelina Folador’, que prevê a realização de três exposições em diferentes espaços culturais de Campo Grande, articulados entre pintura, artes visuais, obras têxteis, objetos, instalações e ações performáticas, construindo um percurso que tenciona delicadeza e violência, intimidade e política.

A vernissage realizada na próxima semana, contará com declamação poética de Pretisa, apresentações musicais de Vitória Queiroz e Bruna Valente, além de performances, ampliando o diálogo entre artes visuais, música, palavra e corpo.

Participam da exposição as artistas Bejona, Marcia Lobo Crochê, Vitória Lorrayne, SYUNOI (Sara Welter), Veryruim, Letícia Maidana, Terrorzinho, Kami, Sabrina Lima, Thalya Veron e Maíra Espíndola, reunindo produções que transitam entre pintura, artes visuais, têxteis, performance, música e poesia, com curadoria de Sara Welter.

Em entrevista ao jornal O Estado, Maíra Espíndola relatou que foi o estudo sobre o feminismo que a fez descobrir que os sentimentos de peso que perpassavam suas vivências diárias tinha nome: patriarcado. “Durante muito tempo, acreditei que esse sufocamento era algo individual, quase íntimo. A partir desse peso (o peso de patriarcado e o sufocamento que ele ocasiona) meu processo na obra se constrói muito pela deriva e pelo encontro com objetos, materiais e narrativas de violência que fui trazendo de matéria para a peça também. Não é um processo de ilustração direta da violência, mas de elaboração onírica dessas narrativas reais do que esses corpos de tantas mulheres carregam e do que esses corpos são submetidos para existir”, revela.

Com uma trajetória que atravessa as artes visuais, audiovisual, performance, música e design, a artista acredita que sua participação na exposição potencializa ainda mais o discurso coletivo proposto pelo projeto.

“A obra que apresento nessa exposição contempla várias linguagens de expressão: tem som, tem movimento, narrativa… chamei de NO CENTRO DA DOR. No processo quase obsessivo em que desde novembro do ano passado eu construo coisas para essa peça, posso afirmar que muito dos centros de minhas próprias dores foi trazido para chorar o choro e gritar o grito… que é coletivo!”

O projeto

O Nós Dissemos: Circuito de Arte Dorcelina Folador surge da articulação coletiva de artistas mulheres LGBTQIAPN+ sul-mato-grossenses e da necessidade de ampliar espaços de visibilidade, circulação e diálogo para suas produções. A proposta é ocupar museus, centros culturais e galerias independentes com narrativas que abordam feminismo, regionalismo, diversidade e direitos humanos, promovendo encontros entre diferentes linguagens artísticas e o público.
Inserida nesse contexto, “O Grito que Ecoa” parte da ideia de que a arte pode operar como gesto de denúncia, memória e resistência. As obras transformam vivências de violência, apagamento e silenciamento em presença, matéria e linguagem artística, criando um espaço de escuta, questionamento e reflexão coletiva.

Em suas obras, Maíra quer provocar o desconforto, o incômodo, que espelha a permanecia da violência e a forma com que ela atravessa a vida cotidiana das mulheres.

“E a exposição como um todo penso que pode pairar entre esse desconforto, um incômodo, surpresa, reflexão… O reconhecimento e conexão de outras mulheres também. A intenção da Coletiva Dorcelina Folador é sempre provocar esse debate e garantir nossa resistência e articulação coletiva”, destaca.

“O silêncio que mata, o grito que ecoa”

Em um dos estados que mais registram assassinatos de mulheres no país, a exposição assume um posicionamento direto e necessário. O silêncio imposto historicamente às mulheres é confrontado por obras que insistem em falar, aparecer e ocupar o espaço público. Cada trabalho apresentado atua como um grito — individual e coletivo — que denuncia, resiste e ecoa para além do espaço expositivo.

“Os números de feminicídio no Brasil atingiram níveis recordes em 2025, e isso deixa evidente que não basta apenas denunciar: é urgente construir caminhos, parcerias e pontos de articulação capazes de sustentar essa pauta no tempo. Para mim, ocupar um espaço institucional como o MIS faz parte dessa estratégia”, disse Maíra.
Sobre as artistas

SYUNOI (Sara Welter) é artista visual, produtora cultural e curadora. Graduada em Artes Visuais (Bacharelado) pela UFMS, atua com desenho, tatuagem, muralismo, design e fotografia. Sua pesquisa investiga tempo, memória, existência e o vazio na contemporaneidade.

Pretisa é multiartista, compositora, poetisa, cantora e produtora cultural. Atua desde 2017 na cultura Hip-Hop em Mato Grosso do Sul, articulando música e poesia a partir das vivências de mulheres negras da periferia.

Sabrina Lima é atriz e performer, formada pelo Teatro Escola Macunaíma (SP) e graduanda em Artes Cênicas pela UFMS. Integra o grupo de pesquisa Corpo Sendo e o Coletivo Enegrecer, com investigações em performance, educação somática e corpo político.

Bejona (Laís Rocha) é artista visual, produtora, agente cultural e curadora, formada pela UFMS. Atua com graffiti, muralismo, lambe-lambe, gravura, escultura, pintura e arte digital, explorando afetos, metáforas e a exposição sensível do corpo.

Kami (Kamilla Macena) é artista visual da etnia Terena, formada em Artes Visuais (Licenciatura) pela UFMS. Atua com graffiti, muralismo, pintura e ilustração digital, investigando identidade, ancestralidade e a presença dos povos indígenas.

Terrorzinho das Artes é multiartista sul-mato-grossense, com produção entre pintura, escultura, moda e arte digital. Atua entre o físico e o virtual, com obras em NFTs e exposições nacionais e internacionais.

Vitória Lorrayne é cantora, compositora, poeta e arte-educadora. Com trajetória ligada à música, ao teatro e à poesia falada, atuou em coletivos e batalhas de slam e é graduanda em Música (Licenciatura) pela UFMS.

Veryruim (Beatriz Santana Souza) é artista visual e ilustradora, arquiteta e urbanista formada pela UFMS. Desde 2018 desenvolve ilustrações autorais com humor ácido e crítica social, valorizando a figura feminina, os corpos reais e a representatividade.

Marcia Lobo Crochê é artista visual, estilista e artesã contemporânea, formada em Artes Visuais pela UFMS. Atua com o crochê como linguagem artística, política e poética, articulando identidade, corpo, ancestralidade e acessibilidade cultural.

Maíra Espíndola é artista visual e produtora cultural, graduada em Rádio e TV e pós-graduada em Imagem e Som pela UFMS. Atua desde 2000 atravessando artes visuais, audiovisual, performance, música e design com pesquisas sobre narrativas, poesia e tecnologia.

Thalya Veron é artista visual de Campo Grande (MS). Atua com pintura desde a infância e desenvolve ações artísticas em comunidades desde 2015. Sua produção, marcada por cores vibrantes, dialoga com questões políticas, ambientais, territórios indígenas e a força feminina, utilizando tintas acrílicas e materiais recicláveis.

O projeto é contemplado pela Política Nacional Aldir Blanc, juntamente com a Fundação Municipal de Cultura de Campo Grande.

O projeto Nós Dissemos: Circuito de Arte Dorcelina Folador inaugura sua primeira etapa com a exposição “O Grito que Ecoa”, em Campo Grande (MS). A mostra acontece no MIS – Museu da Imagem e do Som, com abertura (vernissage) marcada para o dia 13 de fevereiro de 2026, às 19h, e permanece em cartaz por um mês, com entrada gratuita.

Programação de abertura:
* Recitação de poesia de Pretisa
* Apresentações musicais: Vitória Queiroz e Bruna Valente
* Performances artísticas: Sabrina Lima

Por Carolina Rampi

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