E se Manoel de Barros virasse música?

Foto: Divulgação
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Poemas do escritor ganham vozes e instrumentos em concerto no quintal onde viveu

E se a poesia de Manoel de Barros pudesse ser ouvida além das páginas dos livros? É essa a experiência que o concerto Quintal de Palavras leva nesta quinta-feira (17) para a Casa-Quintal Manoel de Barros, em Campo Grande. A partir das 19h30, oito coralistas e uma pequena orquestra de câmara transformam versos e fragmentos da obra do poeta em música, no próprio espaço onde ele viveu.

O repertório tem uma história que começou há dez anos. Em 2016, durante as comemorações do centenário de Manoel, o maestro e compositor Eduardo Martinelli recebeu uma encomenda da Fundação de Cultura do Estado para criar músicas a partir da obra do escritor. O músico trabalhou em parte do projeto com Geraldo Ribeiro e montou uma versão para grande orquestra e coro infantil.

Agora, as mesmas composições voltam em outra roupagem. A ideia surgiu quando Ricardo Câmara contou a Martinelli que faria uma ação relacionada a Manoel na Casa-Quintal. A resposta veio em forma de proposta: por que não recuperar aquelas músicas e adaptá-las para o espaço?

A mudança exigiu mais do que simplesmente diminuir a quantidade de instrumentos.

Releitura

“ A gente tem que fazer uma releitura, um pensamento sonoro diferente”, explica Martinelli. A versão original tinha muitas percussões, além de metais e madeiras. Na formação atual, esses elementos foram reduzidos e o compositor precisou repensar o chamado colorido sonoro das peças.

O resultado é uma apresentação mais enxuta e intimista, que combina com a proposta da Casa-Quintal. Há também uma diferença importante na relação com o público. Se há dez anos as músicas foram apresentadas em espaços maiores, agora elas estarão em um ambiente ligado diretamente à história do poeta.

“É uma sensação bem prazerosa, bem bacana mesmo”, diz Martinelli. Para ele, apresentar as composições naquele endereço cria uma experiência diferente, já que o público estará cercado por um espaço que fez parte da vida de Manoel.

Mas colocar Manoel de Barros para cantar não é simplesmente escolher um poema e colocar uma melodia por cima. A própria construção dos versos criou um dos principais desafios para o compositor. No trabalho coral, explica Martinelli, textos muito longos não funcionam da mesma maneira que em uma canção tradicional, em que um cantor pode percorrer estrofes e refrões.

Por isso, a solução foi buscar pequenos pedaços dos poemas, imagens e ideias que pudessem ganhar vida na música. “Foi pincelar pequenas ideias de dentro das poesias escolhidas”, conta. O desafio era fazer essa adaptação sem perder a identidade da escrita de Manoel.

Vivaldi

O concerto ainda tem uma participação especial que, na verdade, já estava prevista na própria poesia do escritor. Depois das composições inspiradas em Manoel, a orquestra apresenta músicas de Antonio Vivaldi, compositor citado diretamente em Menino do Mato.

No poema, Manoel lembra da mãe, Alice, que, à noite, ainda encontrava tempo para tocar violino. “Ela tocava para nós Vivaldi”, escreve o poeta. A referência acabou entrando no programa como uma homenagem direta, conectando a memória familiar de Manoel à música que será apresentada no mesmo lugar onde essa história aconteceu.

Para Martinelli, a intenção é que o público saia do concerto com uma percepção diferente da obra do escritor. As músicas não reproduzem simplesmente os poemas: elas procuram descobrir o que acontece quando aquela linguagem passa para o canto coral e para os instrumentos.

“A gente espera provocar no público uma visão nova, um desdobramento daquilo que uma obra tão genial pode dar”, afirma.

O projeto também pode ganhar vida além da apresentação desta quinta. Martinelli pretende reunir pelo menos dez músicas e transformar o repertório em um álbum gravado profissionalmente. Até agora, são cinco peças, criadas originalmente há uma década e que ainda aguardam uma gravação definitiva.

Por enquanto, o encontro acontece no quintal. O Quintal de Palavras será apresentado nesta quinta-feira (17), às 19h30, na Casa-Quintal Manoel de Barros, com entrada gratuita. Como a capacidade é limitada, a recomendação é chegar cedo. Para quem conhece Manoel pelos livros — ou para quem nunca ouviu sua poesia dessa maneira —, a proposta é descobrir como algumas de suas palavras soam quando deixam o papel e passam a ser cantadas.

 

Gabriela Porto

 

 

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