Redes sociais influenciam o consumo, movimentam a economia local e ajudam campo-grandenses a descobrir novos negócios pela cidade
Comidas, restaurantes, bares, viagens e até as mais diversas lojas… Influenciadores de Campo Grande utilizam das redes sociais para compartilhar indicações dos melhores locais da cidade, tanto para comprar quanto para comer. Mas, como funciona esse trabalho?
Para Tales Kerezi e Gabriela Almeida, donos do perfil ‘O Melhor em CG’, o comportamento do consumo mudou, e as pessoas, antes de sair de casa, procuram por vídeos para entender melhor como é um ambiente, quais são os pratos, faixa de preço e se a experiência vale a pena.
“Já tivemos relatos de restaurantes que, após a publicação de um vídeo, tiveram um movimento muito acima do normal. Alguns precisaram até reforçar a produção ou aumentar a equipe naquele dia. Também é muito comum vermos clientes comentando no próprio estabelecimento que conheceram o lugar pelo nosso Instagram. Acho que esse é um dos maiores retornos que podemos receber, porque mostra que o conteúdo realmente gera impacto na economia local”, explica Tales em entrevista ao Jornal O Estado.
A influencer Maria Alice, conhecida como ‘Maria em CG’, antes de entrar neste ramo, comenta que ela mesma procurava reviews e vídeos nas redes sobre os lugares que gostaria de conhecer. Com esse background, ela viu locais dos quais indicou prosperarem.
“Tem um local que me marcou muito, que foi um caldo de cana, em uma feira no bairro Guanandi. Eu tinha gostado muito; era um caldo de cana com espuma de gengibre. Soltei o vídeo no mesmo dia da feira, sem planejamento mesmo, do meu jeito. Depois, os donos me mandaram mensagem de que, em questão de horas, já não tinha mais cana. Fiquei muito feliz por eles e por saber do nosso alcance nas redes”.
Com indicações diversas, a influencer Drika Pinheiro comenta que as pessoas confiam muito na experiência dos perfis que acompanham. “Recebo diariamente mensagens de seguidores dizendo que conheceram determinado lugar porque viram o meu vídeo. Além disso, uma coisa que chama atenção é quando eu encontro as pessoas pessoalmente e elas comentam que foram a uma cafeteria ou compraram algum produto porque eu indiquei”, relembra.
“E o mais curioso é que muitas delas nunca interagiram comigo em algum conteúdo, nunca comentaram. Ou seja, isso mostra que, independentemente das métricas, o conteúdo está chegando às pessoas e que realmente influencia na decisão delas”, complementa.
Campo Grande no crescimento da gastronomia
Tales acredita no potencial gastronômico de Campo Grande e vê que a cidade possui um polo forte para isso. “As pessoas gostam de sair para comer, conhecer lugares novos e viver experiências diferentes. Ao mesmo tempo, as redes sociais passaram a fazer parte da rotina de decisão das pessoas. Hoje é muito comum alguém pesquisar um restaurante no Instagram antes mesmo de decidir onde vai almoçar ou jantar”, diz.
Para ele, também houve uma mudança no mercado da Capital, em que os empresários entenderam que o trabalho de divulgação nas redes é essencial para a divulgação, o que abriu oportunidades para quem produz conteúdo com responsabilidade.
“Esses dois movimentos caminharam juntos. As pessoas passaram a querer conhecer mais a cidade e os empresários passaram a enxergar as redes sociais como uma ferramenta essencial para serem encontrados”.
Maria Alice percebeu que, ao longo do tempo, o número de perfis de indicação em Campo Grande cresceu, o que possibilita um amplo leque de conteúdo e a oportunidade de renda para quem trabalha com as redes sociais.
“Quando a gente vai a um lugar que a gente já tem uma indicação, já sabe como é, isso facilita muito. Se eu, como consumidora, não iria, ou não faz sentido para mim ir, eu já não divulgo, não publico. E os restaurantes, eu tenho um critério também bem seletivo, porque eu também só publico o que eu realmente gostei. Eu não faço nada de algum lugar que eu não gostei, ou que esteja minimamente apresentável para alguém ir levar família. Tem vários critérios que precisam ser preenchidos, tanto na qualidade do lugar quanto no atendimento. Então, tudo isso entra em questão”.
“As pessoas estão percebendo que não precisa viajar para ter boas experiências, porque Campo Grande tem uma gastronomia muito boa. Cafeterias, restaurantes, ou seja, muita gente boa fazendo um bom trabalho. E as redes sociais estão aí para isso, para a gente mostrar tudo isso de uma forma acessível e despertar curiosidade e interesse do público para explorar a própria cidade”, complementa Drika.
Processos
Para Drika, o que vale na hora da indicação são estabelecimentos que realmente oferecem uma boa experiência. “Gosto de mostrar lugares já conhecidos e também pequenos negócios, porque acredito que tem espaço para todo mundo. Muitas vezes um pequeno negócio oferece um produto incrível, mas não tem a visibilidade que realmente merece para poder vender”, explica.
Outro ponto que também cresce em Campo Grande são as feiras livres. “Gosto muito de indicar as feiras livres e culturais que acontecem nos bairros, e eu vejo tanto que elas cresceram nos últimos anos graças às redes sociais, aos influenciadores que vão lá, gostam da experiência e acabam divulgando. E o pessoal acaba frequentando, né? Compram ideia e ajuda, o empreendedor local, o artesanato em si. Gosto muito desse tipo de experiência que mostra a realidade da galera”.
Já Tales e Gabriela começaram o perfil para mostrar lugares que frequentavam e gostavam de conhecer. Com o crescimento da página e propostas de publicidade, foi preciso desenvolver um ‘filtro’ para entender os critérios necessários e que fazem sentido com o público que pretendem atingir.
“Em relação aos pequenos empreendedores, acreditamos muito em retribuir todas as bênçãos que Deus colocou nas nossas vidas. Por isso, também temos séries no perfil voltadas para divulgar lugares de qualidade que ainda têm pouca visibilidade. Nesses casos, fazemos exatamente como fazíamos no começo da página. Vamos até o estabelecimento por conta própria, consumimos normalmente e pagamos a conta. É uma forma de ajudar negócios que muitas vezes oferecem um excelente produto, mas ainda não têm espaço para investir em divulgação”, diz Tales.
“No final, o nosso objetivo sempre foi mostrar lugares que realmente acreditamos que valem a pena conhecer, independentemente do tamanho da empresa”.
“Eu não vou só em lugares que são muito conhecidos, não. Gosto de ir a lugares diferentes, sempre trazer lugares novos, principalmente nos stories, quando eu estou passando por algum lugar, eu vejo alguma coisa nova ou algo que realmente me chama a atenção, independentemente de ser uma empresa grande ou pequena. Se o produto for bom, ele merece ser divulgado. Dica boa é dica compartilhada”, afirma Maria.
Indicar, mas com consciência.
Com tanta influência sobre o público, é preciso produzir um conteúdo responsável, mantendo a credibilidade na hora de recomendar um lugar, principalmente se envolver parcerias comerciais.
“A confiança é o nosso maior aliado. No fim, querendo ou não, fazemos parte do processo de decisão das pessoas, então, eu só compartilho o que realmente faz sentido com o meu público e para mim mesma; quando há parceria, a minha responsabilidade não muda, procuro sempre mostrar a experiência com transparência”, diz Drika.
“É uma grande responsabilidade. Afinal, muitas pessoas usam o nosso conteúdo para decidir onde vão gastar o tempo e o dinheiro delas. Por isso, tentamos sempre transmitir a nossa opinião da forma mais autêntica possível e mostrar exatamente como foi a experiência. Precisamos acreditar naquele lugar”, destaca Tales.
“A partir do momento em que você dá uma indicação ruim ou que você fala algo que não gostou, não tem nem como você defender aquilo depois e a sua credibilidade toda vai para o alto. Então são anos construindo audiência para, por conta de dinheiro, ganância, enfim, indicar algo ruim, algo que não vai agregar no seu público e você vai sair queimado, sabe?”, comenta Maria Alice.
Das redes para a vida
Com o crescimento dos perfis de indicação, é notório que Campo Grande tem sim um mercado amplo de entretenimento, principalmente na gastronomia, o que auxilia a movimentar a economia local e valorizar bairros e negócios que antes passavam despercebidos.
“Acredito que a maior mudança foi mostrar para as próprias pessoas tudo o que Campo Grande tem a oferecer. Muitas vezes existe um restaurante excelente ou uma cafeteria incrível em um bairro que a maioria das pessoas nem sabia que existia. As redes sociais diminuíram essa distância. No final, todos ganham: quem empreende, quem produz conteúdo e principalmente, quem descobre lugares que talvez nunca conheceria de outra forma”, diz Gabriela.
“Eu acredito que a produção de conteúdo de indicação em Campo Grande com certeza traz olhares positivos tanto para bairros mais afastados da cidade quanto para ver o quanto a cidade está crescendo”, finaliza Maria Alice.
Por Carolina Rampi