Iniciativa que conecta a produção cultural de Mato Grosso do Sul à cena artística de Berlim reúne dança, teatro, literatura e improvisação em uma programação composta por cinco atividades. O projeto foi selecionado por meio de edital da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul e conta com a participação do PlaygroundberliM Crew, coletivo formado por artistas e improvisadores que vivem na Capital alemã.
Entre as ações previstas estão três apresentações de trabalhos autorais e duas edições do “PRACINHA”, encontro dedicado à criação cênica por meio da improvisação. A programação inclui um solo de dança de Marcus Perez, que marcará sua estreia internacional, uma apresentação teatral solo de André Tristão e a leitura integral do novo livro de Febraro de Oliveira, ainda sem publicação. As atividades também aproximam diferentes linguagens e experiências de artistas vinculados a Mato Grosso do Sul e à Alemanha.
A parceria tem entre seus articuladores Geraldo Si, artista sul-mato-grossense que construiu parte de sua trajetória profissional na Alemanha. No fim de 2025, ele voltou a Campo Grande para iniciar um processo de criação em dança com Marcus Perez, assumindo a direção e a coreografia do trabalho.
A investigação, inicialmente apresentada como “estudos para não fazer a mesma coisa”, passou a contar também com a colaboração de Febraro de Oliveira e André Tristão, ampliando o processo para diferentes perspectivas e práticas de criação.Natural de Aquidauana, Geraldo Si iniciou sua formação artística em Mato Grosso do Sul na década de 1980 e participou da criação do Pantanáliadança, considerado o primeiro grupo independente de dança do Estado.

Foto: Manu Komiyama
Intercâmbio cultural
O projeto “MS na Alemanha” nasceu do encontro entre os artistas sul-mato-grossenses Marcus Perez, André Tristão e Febraro de Oliveira e Gera Si, bailarino e coreógrafo que vive na Alemanha. A iniciativa foi viabilizada por políticas de incentivo à cultura, por meio da Lei Aldir Blanc e de edital da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, e aproxima os trabalhos dos artistas da cena de improvisação e performance do PlayGroundBerliM.
“Esse intercâmbio só foi possível com as políticas públicas de cultura. A partir dos encontros com Gera Si e dos nossos processos de criação, surgiu a ideia de levar os trabalhos para Berlim. A proposta reúne nossas diferentes linguagens e experiências e cria uma oportunidade de troca com artistas de outros países”, relatam.
Trabalhos apresentados
A programação na Alemanha será distribuída em cinco ações, reunindo três trabalhos autorais e duas experiências de improvisação. A proposta apresenta ao público diferentes formas de criação, passando pela literatura, dança e teatro, além de promover encontros entre os artistas sul-mato-grossenses e integrantes do PlayGroundBerliM.
“Vou fazer a leitura integral do meu próximo livro, ‘Longa noite a ferir o céu de seu nome’. A obra acompanha uma família paraguaia que tenta escapar de uma situação que se aproxima de um cenário de guerra”, explica Febraro de Oliveira.
“‘Estudos para não fazer a mesma coisa’ é um solo de 30 minutos construído em tempo real. A cada apresentação, improviso a partir dos objetos, sons, palavras e do espaço, criando uma experiência que não se repete”, conta Marcus Perez.
“Meu solo, ‘EPQVME – Eu Preciso Que Vocês Me Escutem’, trabalha as relações entre corpo, espaço, presença e memória. Também participaremos da ‘Pracinha’, encontro de improvisação do PlayGroundBerliM, que coloca diferentes artistas e linguagens em contato”, afirma André Tristão.
Memória e território

Foto: Manu Komiyama
Dança e literatura partem de diferentes linguagens para abordar memória, território e identidade, aproximando experiências vividas em Mato Grosso do Sul do público alemão. As obras também propõem uma reflexão sobre histórias individuais e coletivas, criando pontos de contato entre os dois contextos culturais.
“Falamos a partir de um mesmo chão rachado, de um tecido que temos em comum. A proposta também é tensionar uma ideia de Centro-Oeste e mostrar outras perspectivas sobre esse território”, afirma Febraro.
“O trabalho parte de objetos cotidianos e das histórias que eles carregam. Durante a apresentação, essas memórias são reorganizadas pelo corpo e pelo espaço, criando uma relação entre presença, ausência e passagem do tempo. A dança surge como uma forma de preservar aquilo que poderia ser esquecido”, explica Marcus.
Linguagens
A parceria com o PlayGroundBerliM amplia o intercâmbio ao colocar os artistas sul-mato-grossenses em contato direto com criadores de diferentes nacionalidades e linguagens. As apresentações de improvisação partem justamente desse encontro, sem depender de uma estrutura cênica fixa, permitindo que corpo, memória, espaço e experiências pessoais orientem a criação em tempo real.
“O PlayGroundBerliM reúne artistas de diferentes áreas que constroem juntos a partir do que têm: corpo, memória e experiências. Existe uma aproximação com o nosso trabalho porque não estamos tão interessados em formatos tradicionais, mas nas relações que surgem durante a criação e nas novas formas de comunicação que podem aparecer”, detalha Marcus.
“Para mim, estar em outro país também significa aceitar o desafio de criar em um novo contexto. O português continua sendo parte importante do trabalho, enquanto a tradução e o contato com outras línguas ampliam as possibilidades de diálogo”, acrescenta Febraro.
André completa: “A adaptação passa pela disponibilidade para encontrar esse novo público. Tenho trabalhado com trechos em inglês e algumas passagens em alemão, sem abandonar o português e preservando a força do espetáculo”.
Representação
Para os artistas, a experiência em Berlim representa mais do que a circulação de trabalhos fora do país: é também uma oportunidade de ampliar o olhar sobre a produção cultural feita a partir de MS.A expectativa é que a iniciativa ajude a romper a ideia de que manifestações artísticas produzidas fora dos grandes centros têm menor alcance, abrindo espaço para novas conexões e para a presença de outros artistas do Estado em circuitos internacionais.
“Só podemos torcer de coração aberto para que sim. O local não é uma versão menor do global, mas deve ser compreendido a partir de suas próprias perspectivas e complexidades. Nossa localidade, muitas vezes vista como distante dos grandes eixos, também produz diferentes formas de criar e existir. O que esperamos é que essa visão seja ampliada e que os caminhos permaneçam abertos para que outras produções e artistas de Mato Grosso do Sul possam ocupar os espaços que desejarem”, finalizam.
Amanda Ferreira