A iniciativa, que já passou por sete comunidades negras de Mato Grosso do Sul
Um espelho para o mundo, ali quase no quintal de casa, de forma gratuita, com histórias que precisam ser contadas e reconhecidas. Hoje às 19h, a Comunidade Quilombola São João Batista, no bairro Santa Branca, em Campo Grande, será palco de mais uma exibição do Projeto Olubayo. Com entrada gratuita e classificação livre, a sessão acontece na associação da comunidade, localizada na Rua Barão de Limeira, n.º 1580, região sul de Campo Grande.
A iniciativa, que já passou por sete comunidades negras de Mato Grosso do Sul, chega ao seu oitavo território quilombola com o mesmo propósito: democratizar o acesso ao cinema e promover reflexões sobre cultura, resistência e ancestralidade.
O nome do projeto não poderia ser mais simbólico. “Olubayo” é uma palavra Iorubá que significa “maior alegria”, como explica a Professora Bartô, idealizadora do projeto.
“E é exatamente isso que o projeto representa: a alegria de estar nas comunidades, levando arte, promovendo o acesso ao cinema e, ao final de tudo, abrindo espaço para a reflexão sobre a história e a cultura do povo negro. O cinema é uma ferramenta potente na luta contra o racismo e na valorização das nossas raízes e de uma sociedade mais justa”.
Com financiamento da LPG (Lei Paulo Gustavo), o projeto integra as comemorações pelos 40 anos do Grupo TEZ (Trabalho Estudos Zumbi), coletivo que há quatro décadas atua no fortalecimento da cultura afro-brasileira.
Para quem já recebeu o Olubayo, a importância de ver protagonistas negros na tela é imensurável. Nilson Jerônimo da Silva, presidente da Comunidade Quilombola Rural dos Pretos, em Terenos, que no último fim de semana, no dia 29 de março, viu os moradores chegarem à sede da associação abertos ao projeto e aprovou a iniciativa.
“Quando vemos pessoas como nós protagonizando suas próprias histórias, nos enxergamos na tela com toda a nossa força e trajetória. Filmes como ‘Luzes De Baixo’ nos fazem pensar sobre o racismo. Minha netinha, por exemplo, com apenas 5 anos, já passou por uma situação de preconceito na escola. Felizmente, a escola soube agir, mas ter projetos como o Olubayo é essencial, porque fortalece os laços entre os moradores e nos dá mais ferramentas para nos defendermos e combatermos o racismo”.
O repertório das exibições reforça esse compromisso, trazendo filmes que dialogam diretamente com as vivências das comunidades negras. Entre as cinco obras estão: Fábula da Vó Ita, de Joyce Prado; Bonita, de Mariana França; Luzes Debaixo, de Tero Queiroz; Águas, de Raylson Chaves e Jardim de Pedra – Vida e Morte de Glauce Rocha, de Daphyne Schiffer.
Sinopses
Fábula de Vó Ita (Joyce Prado e Thallita Oshiro
Gisa tem um cabelo diferente, cheio de vida e personalidade, mas seus colegas de escola vivem debochando dela por conta disso. Triste e sem estima ela irá buscar a ajuda da Bruxa Leleira, mas fugindo da sua identidade a menina pode perder a chance de ser feliz.
Bonita (Mariana França)
O documentário apresenta as vivências de três mulheres pretas de gerações distintas e que são ou já foram atravessadas pelo mesmo sentimento: a solidão e a solitude da mulher negra.
Jardim – vida e morte de Glauce Rocha (Daphyne Schiffer)
O filme, que estreou conquistando os prêmios de Melhor Documentário e Melhor Direção na Mostra Audiovisual de Dourados de 2024, convida o público a revisitar a trajetória de Glauce, uma artista que transcendeu o palco e a tela para se tornar um ícone cultural.
Águas (Raylson Chaves)
Em meio a tarefas cotidianas, uma empregada doméstica desafia a linearidade de seu mundo.
Luzes de Baixo (Tero Queiroz)
‘Luzes de Baixo’ acompanha uma associação que distribui feijoada para uma comunidade que, durante a pandemia de covid-19, se abrigou sob o pontilhão na região central de Campo Grande-MS.
Até o momento, o Olubayo já reuniu mais de 400 pessoas em sessões realizadas em sete comunidades quilombolas, e a jornada continua. O projeto encerra sua itinerância no dia 12 de abril, na Associação da Comunidade Negra Quilombola Urbana Eva Maria de Jesus – Tia Eva, em Campo Grande.
História e legado do grupo TEZ
Fundado em 1985, o Grupo TEZ (Trabalho Estudos Zumbi) foi a primeira entidade do movimento negro no Mato Grosso do Sul. Desde o início, o grupo desempenhou um papel fundamental no combate à opressão e às desigualdades sociais, promovendo um espaço de luta e resistência. Entre suas principais ações, destacam-se organizações políticas para debater as desigualdades que afetam a população negra e iniciativas voltadas à diversidade etnico-racial na educação infantil.
Ao longo de quatro décadas, o TEZ contou com a participação de professores, estudantes universitários e representantes de outros segmentos sociais, tornando-se uma referência na luta por ações afirmativas e políticas públicas. O legado do grupo também inspirou a criação de outros movimentos negros, consolidando uma rede de resistência e protagonismo negro no estado e no Brasil.
Este ano, o grupo TEZ celebra quatro décadas de atuação em prol da política, educação e cultura em Mato Grosso do Sul. Desde sua fundação, a organização promove iniciativas de valorização da história e identidade afro-brasileira. O projeto Olubayo se torna um marco significativo dentro dessa trajetória, fortalecendo os laços entre a ancestralidade e as novas gerações por meio da magia do cinema.
Com investimentos do MinC (Ministério da Cultura), do Governo Federal, com apoio da FCMS (Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul), Setesc e do Governo do Estado, o projeto reafirma o papel da arte como instrumento de fortalecimento cultural e social. Para acompanhar o projeto, siga o Instagram (@olubayo_cinemanegro).
Serviço: Projeto Olubayo – sessão de cinema na Comunidade São João Batista será realizado neste sábado (5), às 19h.
Por Carolina Rampi
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