Artista troca comoção por homenagem ao cão Orelha

A artista sul-matogrossense Norma Daris decidiu transformar comoção em memória - Foto: Norma Daris/Arquivo pessoal
A artista sul-matogrossense Norma Daris decidiu transformar comoção em memória - Foto: Norma Daris/Arquivo pessoal

Retrato usa o afeto para trazer reflexão sobre maus-tratos aos animais

Um episódio de violência ocorrido no litoral catarinense ultrapassou os limites da notícia policial e se transformou em símbolo de comoção nacional. A morte do cão conhecido como Orelha reacendeu debates sobre maus-tratos a animais e mobilizou uma ampla rede de solidariedade nas redes sociais.

O animal, que vivia de forma comunitária e era cuidado por moradores da Praia Brava, em Florianópolis, não resistiu às agressões sofridas no início de janeiro, tornando-se um marco doloroso na discussão sobre a proteção de animais em espaços urbanos.

Orelha foi encontrado gravemente ferido no dia 4 de janeiro e morreu no dia seguinte, após ser socorrido por pessoas que conviviam com ele no bairro. Exames da Polícia Científica apontaram que a causa da morte foi um impacto violento na região da cabeça, compatível com golpes provocados por objeto rígido ou força física. O caso segue sob investigação.

A história do animal sensibilizou artistas e ativistas em diferentes regiões do país. Entre eles, a artista sul-mato-grossense Norma Daris, conhecida por seus retratos realistas feitos à mão, decidiu transformar a comoção em gesto de memória. Em sua obra, mais do que representar a figura do cão, ela busca preservar aquilo que marcou o público: a delicadeza, a expressão serena e o olhar que permaneceu como símbolo de afeto, mesmo diante da violência.

Homenagem

O retrato do cão Orelha nasceu de um impulso imediato diante da repercussão do caso e da força simbólica de sua imagem. Sensibilizada pela história, Norma interrompeu outros trabalhos para dedicar-se à homenagem, buscando uma fotografia que permitisse captar com precisão a expressão do animal.

“Quando comecei a trabalhar nos olhos dele, foi impossível não me emocionar. Era um olhar muito calmo, dócil, quase sublime, e ao mesmo tempo vinha à mente tudo o que ele passou. Parecia que aquele olhar atravessava a gente. Foi isso que eu quis preservar e eternizar”, conta para a reportagem.

Ao longo do processo, a artista relata que o envolvimento emocional se intensificou, especialmente na construção do olhar, que passou a orientar toda a obra e redefinir o ritmo do trabalho.

“Trabalhei com muita intensidade, com a vontade de homenagear enquanto a história ainda estava viva, para que o Orelha fosse lembrado pelo que ele transmitia, e não apenas pela violência que sofreu”, complementa a artista.

Ao optar por não representar a violência sofrida pelo cão Orelha, Norma direciona seu trabalho para a construção de memória e afeto. Para a artista, a arte atua como espaço de acolhimento e reflexão, capaz de sensibilizar o público sem recorrer a imagens de dor explícita. A homenagem surge como forma de preservar a presença do animal e, ao mesmo tempo, provocar uma reflexão sobre respeito, empatia e cuidado com vidas frequentemente invisibilizadas.

“Eu quis tocar as pessoas pelo amor que os animais oferecem, que é um amor puro e verdadeiro. Fiz esse retrato com muito carinho e convicção, pensando em eternizar o Orelha e a história dele. A ideia é que ele seja lembrado não pela violência, mas como um símbolo de conscientização sobre o que muitos animais ainda sofrem”, destaca Norma.

Método artístico

Norma desenvolve seu trabalho a partir de histórias afetivas ligadas a animais de estimação, transformando retratos em registros de memória e emoção. Especializada em arte realista feita à mão, a artista retrata cães, gatos e outros animais, sempre buscando traduzir no desenho a singularidade de cada história.

“Cada retrato carrega uma história diferente. Muitas vezes são animais que já partiram e as pessoas querem eternizar aquela presença em um lugar especial, algo que vá além da foto no celular. Eu procuro colocar no desenho a emoção que o tutor me conta, aquilo que torna aquele pet único”, explica.

Seu processo envolve a escolha cuidadosa de imagens, atenção aos detalhes do olhar e o uso de materiais profissionais de alta durabilidade, que garantem não apenas fidelidade visual, mas também permanência ao longo do tempo.

“Trabalho com materiais profissionais, como filmes translúcidos, papéis de alta gramatura e lápis específicos, porque quero que esse registro dure muitos anos. Minhas referências vêm das próprias imagens que recebo e dos detalhes que as pessoas fazem questão de preservar, como uma marca, um olhar ou uma característica especial”, complementa.

Cuidado em camadas

No retrato de Orelha, Norma Daris recorre ao seu método técnico já consolidado, baseado na sobreposição de camadas de lápis de cor para construir profundidade, textura e sensação de volume. Embora o processo técnico não tenha representado um desafio inédito, o aspecto emocional atravessou toda a execução da obra.

“O trabalho realista é feito de muitas camadas, justamente para criar essa profundidade na pelagem, quase como se desse vontade de tocar. Tecnicamente, isso já faz parte do meu processo, mas o desafio maior foi emocional. Quando cheguei nos olhos, precisei parar várias vezes”, explica.

A construção do olhar, elemento central do retrato, exigiu pausas e silêncio, transformando o tempo de produção em um espaço de enfrentamento sensível da história do animal.
“Eu ficava olhando para aquele olhar dócil, calmo, e ao mesmo tempo lembrava de tudo o que ele sofreu. Foi isso que mais me atravessou durante o retrato”.

Repercussão

A repercussão do retrato ultrapassou a expectativa inicial da artista e revelou a capacidade da arte de gerar identificação e empatia coletiva. O trabalho, concebido inicialmente como uma homenagem pessoal, passou a provocar reações diversas nas redes sociais, reunindo relatos de indignação, tristeza e reflexão.

“Eu não imaginava que teria essa repercussão toda. Fiz o retrato como uma forma de homenagear e de eternizar o Orelha. As pessoas comentaram muito sobre o olhar, sobre a tristeza, sobre a injustiça do que aconteceu.

Até quem não tem uma ligação tão forte com animais acabou se sensibilizando. Acho que o objetivo foi alcançado: além da homenagem, o retrato provocou reflexão, comoção e um olhar mais atento para o que tantos animais ainda vivem”, finaliza.

Sobre a artista

Norma Daris é uma artista especializada em arte realista, com foco em retratos feitos à mão de animais de estimação. Seu trabalho é reconhecido pelo cuidado extremo com os detalhes e pela capacidade de transmitir a essência e a expressão de cada pet através do olhar. Para mais informações, confira o perfil do instagram da artista @normadaris_arterealista.

 

Amanda Ferreira

 

 

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