Um disparo durante um assalto dentro de um ônibus, em 2018, mudou radicalmente o rumo da vida de Sarah Bueno. Aos 29 anos, a jovem que dividia sua rotina entre a carreira na saúde e as passarelas precisou reaprender a viver após ficar cadeirante. O que poderia ser o ponto final de muitos sonhos tornou-se o início de uma trajetória marcada por superação e propósito.
Foram cerca de dois meses e meio de internação, tempo suficiente para que, em meio à dor e à incerteza, ela descobrisse uma força interior até então desconhecida. A fé, os estudos e a determinação se transformaram em pilares para reconstruir não apenas o corpo, mas também a própria identidade.
Biomédica e neuropsicoterapeuta, Sarah já construía sua carreira na área da saúde quando teve a vida atravessada pela violência. O episódio a deixou com sequelas permanentes, mas não limitou seus horizontes. Durante o período no hospital, decidiu que sua história não seria resumida ao crime que sofreu. Intensificou sua dedicação acadêmica, aprofundou seus conhecimentos e passou a enxergar na própria experiência uma missão maior.
Além da atuação profissional na saúde, ampliou sua presença como modelo, palestrante e escritora. É autora do livro Delicadamente Forte, obra em que compartilha reflexões sobre vulnerabilidade, coragem e reconstrução emocional. Em entrevista ao jornal O Estado, Sarah relata como transformou a dor em combustível para impactar vidas, levando sua mensagem a pessoas e empresários que enfrentam desafios e buscam recomeçar.
Hoje, sua trajetória é marcada não pelo episódio de violência que a vitimou, mas pela capacidade de ressignificar a própria história e inspirar outros a fazerem o mesmo.
De volta às passarelas
Para o Jornal O Estado, Sarah conta que vinda das passarelas, ela se afastou do setor por um período, tomada pela sensação de que aquele espaço já não lhe pertencia. O retorno, no entanto, aconteceu de forma gradual e impulsionado por uma nova perspectiva sobre representatividade.
Com incentivo de pessoas próximas e o apoio do empresário André Sanseverino, passou a integrar ensaios e projetos que valorizam diversidade, ampliando o debate sobre inclusão no universo fashion.
“Depois do acidente, achei que a moda não era mais para mim. Eu vinha da passarela e isso abalou muito a minha confiança. Mas precisei de um empurrão para enxergar que ainda havia espaço. Quando conheci o André, mudei meu olhar. Hoje participo de trabalhos que falam sobre diversidade e representatividade, mostrando que a beleza também está na autenticidade e na superação”.
A retomada da confiança foi um dos maiores desafios de Sarah ao voltar para a moda. Entre dúvidas e receios, ela precisou reconstruir a própria imagem e entender que sua trajetória também ampliava o conceito de beleza e presença nas passarelas.
“Foi difícil no começo. Precisei reaprender a me olhar com amor. Quando percebi que as pessoas me viam com admiração, não com pena, ganhei força. Hoje, a moda é minha forma de expressão e liberdade”, detalha.
A participação de Sarah na campanha da Atrevida marcou um novo capítulo em sua trajetória na moda inclusiva. Identificada com a proposta da marca de valorizar diversidade e representatividade, ela enfrentou o próprio receio ao posar de biquíni.Com o incentivo de André, encontrou segurança para transformar a experiência em um ato de afirmação.
“Foi algo muito especial. No começo, tive insegurança por serem fotos de biquíni, porque ainda existe tabu sobre o corpo da pessoa com deficiência. Mas me senti acolhida e confiante. Essa campanha provou que nós também pertencemos à moda, à autoestima e ao amor-próprio. Foi libertador”, revela.
A arte de ser Resiliente
Além dos trabalhos como modelo, Sarah realiza a palestra “A Arte de Ser Resiliente”que surgiu a partir de uma experiência pessoal que, segundo Sarah, teve origem em um sonho. A partir desse chamado, ela estruturou o conteúdo para dialogar com diferentes públicos, levando a mensagem a empresas, igrejas e escolas.
Nesse percurso, aprofundou seus estudos em neuropsicoterapia, buscando compreender de forma mais ampla os processos emocionais e comportamentais que envolvem superação e transformação.
“A palestra nasceu depois de um sonho em que senti Deus me direcionando a compartilhar essa mensagem. Desde então, adaptei o conteúdo para vários espaços e fui estudar ainda mais sobre a mente humana. Acredito na força da oração e do pensamento. Sempre digo que é possível se transformar sem se limitar pelas circunstâncias”, afirma.
Para Sarah, a própria trajetória tem potencial para ampliar o debate sobre inclusão e acessibilidade. Em cada palestra, ela relata perceber mudanças reais na forma como o público enxerga diversidade e pertencimento. A proposta, segundo ela, vai além do relato pessoal: busca provocar reflexão e incentivar a construção de ambientes mais humanos, conscientes e acessíveis.
“Eu não apenas acredito, eu tenho certeza de que minha história transforma percepções. Em cada encontro vejo vidas sendo tocadas. Sinto que essa é minha missão: levar inclusão e esperança. Quero seguir por várias cidades, inclusive Campo Grande, alcançando cada vez mais pessoas”.
Delicadamente Forte
O livro Delicadamente Forte é um dos projetos mais simbólicos da trajetória de Sarah. A obra nasceu da vontade de mostrar que a dor não segue um roteiro único e que cada pessoa encontra seu próprio caminho de reconstrução. Escrito em coautoria, o livro apresenta não apenas a vivência da modelo, mas também a história de Lorraine, que se tornou cadeirante ainda jovem e trilhou um percurso distinto de superação.
Embora tenham enfrentado situações semelhantes, as duas autoras revelam processos emocionais diferentes. Enquanto Lorraine passou por períodos de depressão e precisou se reinventar até retomar a autonomia e conquistar reconhecimento profissional em um hospital, Sarah vivenciou a adaptação de outra maneira. A narrativa destaca justamente essa pluralidade de respostas diante das adversidades, reforçando que não existe uma fórmula única para se reerguer.
A publicação também reflete a preparação que Sarah decidiu assumir após o trauma: investimento em estudos, desenvolvimento pessoal e fortalecimento de conexões profissionais. Ao aprender a se posicionar com segurança e valorizar o próprio talento, ela transformou a experiência em ferramenta de impacto social.
“Delicadamente Forte mostra que ninguém está sozinho. Cada pessoa enfrenta a dor do seu jeito, mas todos nós carregamos uma força interior capaz de mudar nossa história quando escolhemos nos conhecer e acreditar em quem somos”, finaliza.
Serviço: O livro Delicadamente Forte não está disponível em livrarias ou sites, pois é um projeto independente.Os interessados podem adquiri-lo diretamente com a autora, em eventos e palestras ou pelo Instagram @sahbuenno_, via direct.
Amanda Ferreira
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