Redução na oferta de animais terminados impulsiona a arroba, enquanto setor acompanha os impactos da cota chinesa e das restrições ao comércio internacional
O mercado do boi gordo voltou a registrar alta em julho, mesmo diante dos sinais de desaceleração das exportações brasileiras de carne bovina. O movimento, considerado atípico para a segunda quinzena do mês, é atribuído principalmente à redução da oferta de animais prontos para o abate, segundo análise da Scot Consultoria.
De acordo com o engenheiro agrônomo Alcides Torres Jr., diretor-proprietário da consultoria, a recuperação da arroba ocorre em um momento de incertezas no mercado externo, especialmente em relação às exportações para a China, principal destino da carne bovina brasileira.
A expectativa é que a cota anual de importação estabelecida pelo governo chinês seja atingida entre o fim de julho e o início de agosto. Caso o limite seja ultrapassado, passa a incidir uma tarifa adicional de 55% sobre os embarques excedentes. Ainda assim, Alcides Torres afirma que a medida não deve interromper completamente as compras chinesas.
“Isso não significa que a China vai parar de importar. A Austrália já preencheu a cota e continua exportando, não no mesmo volume, mas ainda continua tendo uma saída da carne deles para os chineses”, explicou.
Segundo o especialista, a carne bovina brasileira continua competitiva no mercado internacional por fatores como qualidade, capacidade de fornecimento e regularidade das entregas, embora a sobretaxa possa reduzir o ritmo das exportações.
Além da China, o setor também acompanha as novas exigências da União Europeia para a importação de produtos agropecuários. Para Alcides Torres, o prazo para atender às regras previstas para entrar em vigor nos próximos meses é curto, o que pode dificultar as negociações com o bloco europeu.
Apesar desse cenário, a avaliação é de que o Brasil continuará ocupando posição de destaque no comércio global de carne bovina, ainda que os embarques possam apresentar um ritmo menor entre agosto e setembro.
No mercado interno, a alta da arroba surpreendeu analistas. Após um período de queda nos preços, a oferta de animais terminados diminuiu, reduzindo a disponibilidade para os frigoríficos.
Segundo Alcides Torres, a retração pode estar relacionada tanto ao menor volume de bovinos prontos para o abate quanto às chuvas registradas fora de época em algumas regiões do país, que permitiram aos pecuaristas manter os animais por mais tempo nas pastagens e adiar a venda.
Com menos oferta disponível, frigoríficos voltaram a intensificar as compras para recompor estoques e atender à demanda do mercado interno e das exportações, movimento que contribuiu para a valorização da arroba do boi gordo.