Possível El Niño de alta intensidade pode alterar o regime de chuvas, reduzir a janela de plantio e aumentar o risco de estresse hídrico nas culturas de verão e safrinha
O aquecimento do Oceano Pacífico equatorial aumenta o risco de impactos sobre as lavouras do Cerrado, região onde a produção de grãos depende diretamente do regime de chuvas. Dados recentes indicam o avanço de uma fase quente do El Niño-Oscilação Sul (ENOS), com possibilidade de um evento de alta intensidade.
Segundo o pesquisador Fernando Macena, da Embrapa Cerrados, o Índice Oceânico Niño (ION) chegou a +1,4°C em junho de 2026, mantendo-se acima do limite de +0,5°C que caracteriza o El Niño pelo segundo mês consecutivo. As temperaturas do Pacífico vêm apresentando tendência de alta desde o início do ano.
Projeções indicam ainda a possibilidade de anomalias superiores a +2,5°C no Pacífico tropical, cenário que poderia configurar um fenômeno de magnitude histórica.
Para a agricultura do Cerrado, um El Niño forte pode provocar irregularidade no início do período chuvoso, dificultando o planejamento da semeadura da safra de verão. O fenômeno também pode favorecer períodos prolongados de estiagem, conhecidos como veranicos, durante fases importantes do desenvolvimento das plantas e do enchimento dos grãos.
Outro ponto de preocupação é a segunda safra. Eventuais atrasos no plantio da primeira cultura podem reduzir a janela disponível para o cultivo de milho, sorgo ou algodão, aumentando a exposição das lavouras à falta de chuva durante o outono e o inverno.
De acordo com Macena, esses riscos podem resultar em perdas de produtividade e do capital investido pelos produtores. Por isso, o pesquisador destaca a importância de planejamento e de ferramentas que permitam adaptar o calendário agrícola às condições climáticas.
Nesse cenário, o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) ganha importância. Desenvolvido pela Embrapa e instituições parceiras, sob coordenação do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o sistema utiliza dados meteorológicos, características do solo e parâmetros das culturas para indicar períodos e condições mais adequados ao plantio.
Além de orientar o produtor, o Zarc é utilizado como referência para acesso ao crédito agrícola e ao seguro rural. A ferramenta considera diferentes níveis de risco de perda de produtividade e transforma informações climáticas em orientações práticas para o planejamento das lavouras.
Para Macena, diante da maior volatilidade climática, a estratégia não deve depender apenas da tentativa de prever com precisão a intensidade dos fenômenos. O planejamento e a adoção de práticas de manejo e conservação do solo podem aumentar a capacidade de resposta das propriedades diante de períodos de chuva irregular e estiagem.
No Cerrado, onde a agricultura ocupa papel central na produção brasileira de grãos, a combinação entre monitoramento climático, planejamento da semeadura e manejo adequado do solo pode ser decisiva para reduzir os efeitos de um eventual El Niño de forte intensidade.

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