Celebrado em 10 de junho, idioma ultrapassa 265 milhões de falantes e se mantém em expansão
Se você está lendo esta reportagem, é porque compartilha o conhecimento de uma língua falada por milhões de pessoas em diferentes partes do mundo. Nesta terça-feira, 10 de junho, é celebrado o Dia da Língua Portuguesa, uma das três datas dedicadas ao idioma ao longo do ano. Presente entre as línguas mais faladas do planeta, o português tem origem em Portugal e, ao longo dos séculos, passou a integrar a história, a cultura e a identidade de países que o adotaram como língua oficial.
Presente entre os idiomas mais falados do planeta, o português ultrapassa a marca de 265 milhões de falantes e ocupa posição de destaque no Hemisfério Sul. Herdada de Portugal durante o período colonial, a língua passou por transformações ao longo dos séculos e consolidou características próprias nos países onde se tornou idioma oficial, mantendo ao mesmo tempo laços que conectam diferentes povos por meio da comunicação e da cultura.
Além do Brasil, o português faz parte do cotidiano de diversas nações espalhadas pela África e Europa. Países como Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe compartilham o idioma, que também está presente em territórios portugueses como os Açores e a Madeira. Essa abrangência demonstra a dimensão global de uma língua que atravessa fronteiras e continua em expansão.
Em Mato Grosso do Sul, a força da Língua Portuguesa encontra uma de suas expressões mais marcantes na obra de Manoel de Barros. Reconhecido como um dos maiores nomes da poesia brasileira contemporânea, o escritor transformou elementos simples do cotidiano pantaneiro em matéria-prima para sua literatura.
Com criatividade singular, reinventou palavras, valorizou o aparentemente insignificante e construiu uma linguagem própria, deixando um legado que reforça a riqueza e a capacidade de renovação do idioma português.
Meu quintal é maior que o mundo
A relação de Manoel de Barros com a língua portuguesa começou ainda na infância, vivida em uma fazenda próxima a Corumbá, no Pantanal. Nascido em Cuiabá, o poeta passou os primeiros anos cercado pela paisagem pantaneira, ambiente que mais tarde se tornaria uma das principais referências de sua obra. Após estudar em Campo Grande e cursar Direito no Rio de Janeiro, onde entrou em contato com escritores modernistas, publicou seu primeiro livro em 1937 e deu início a uma trajetória literária que atravessou décadas.
Em Campo Grande, a memória do escritor é preservada pela Casa Quintal Manoel de Barros, espaço inaugurado em 2022 dedicado à sua vida e obra. Segundo Rayla Grigório, responsável pela gestão e mediação do local, as visitas buscam apresentar não apenas o poeta, mas também aspectos de sua convivência familiar e cotidiana. Além de funcionar como casa de memória, o espaço passou a abrigar uma biblioteca voltada aos estudos sobre o autor e mantém uma galeria de exposições com artistas convidados. A instituição recebe cerca de mil visitantes por ano e se mantém por meio da contribuição do público, já que não conta com apoio governamental permanente.
“O Manuel tinha muita intimidade com as palavras. Todas as manhãs, ele passava fielmente pelo seu escritório estudando os textos que produzia e que mais tarde viriam a se transformar em suas poesias. Essa relação tão próxima com a linguagem foi o que lhe deu a liberdade de criar seus próprios termos e expressões. Ele tinha um hábito curioso: quando consultava uma palavra no dicionário, nunca se limitava apenas a ela; estudava também três palavras antes e três depois, ampliando seu repertório e construindo um leque maior de possibilidade”, conta Rayla.
Para quem deseja iniciar a leitura da obra de Manoel de Barros, a antologia “Meu Quintal é Maior do que o Mundo” aparece como uma das principais portas de entrada. A publicação reúne textos de diferentes fases da trajetória do poeta, permitindo ao leitor percorrer obras marcantes e conhecer temas que atravessam sua produção, como a infância, a natureza e a imaginação.
“O livro reúne poemas de várias publicações e oferece um primeiro contato com a escrita dele. A contribuição do poeta para a língua portuguesa é muito importante porque ele ampliou as possibilidades da linguagem. Como ele mesmo dizia, a poesia não é para ser compreendida, mas incorporada, e é isso que continua tocando leitores de diferentes lugares”, conta Rayla.
Aprendendo português
O aprendizado da Língua Portuguesa continua sendo um dos principais desafios da alfabetização nos primeiros anos escolares. A pedagoga e psicopedagoga Rutenia Zanoni observa que muitas crianças apresentam dificuldades na leitura, na escrita e na concentração, fatores que interferem diretamente no desenvolvimento das habilidades necessárias para a compreensão do idioma.
“Para desenvolver a leitura e a escrita, é preciso despertar o interesse das crianças pela língua portuguesa. Eu utilizo atividades fonéticas, contação de histórias, jogos, musicalização e brincadeiras que estimulam a atenção e a participação. Quando a criança se envolve com o processo de aprendizagem, ela consegue avançar com mais facilidade na compreensão das palavras, dos sons e da leitura”, explica.
Intercâmbio social
No debate sobre a Língua Portuguesa, especialistas destacam a importância de compreender o idioma como um instrumento de comunicação em constante transformação. Para a professora mestra do curso de Letras da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Cleovia de Andrade, a língua falada pela população brasileira demonstra vitalidade e capacidade de adaptação, refletindo diferentes contextos culturais e sociais.
“A ideia de que a língua portuguesa está enfraquecida precisa ser revista. As pessoas utilizam a linguagem de forma eficiente no dia a dia e constroem sua identidade por meio dela. O desafio está em ampliar o acesso aos diferentes registros da língua, mostrando aos estudantes que a palavra também é uma ferramenta de participação social, capaz de abrir caminhos nos espaços acadêmicos, profissionais e políticos”, afirma.
A Língua Portuguesa no Brasil é compreendida por especialistas como um sistema em permanente transformação, diretamente ligado às mudanças sociais, tecnológicas e culturais do país. Para a professora, o idioma acompanha o ritmo da sociedade brasileira e registra, em seu uso cotidiano, marcas da diversidade e da digitalização contemporânea.
“A língua portuguesa no Brasil acompanha a própria construção do país. Ela reflete nossas transformações sociais, culturais e tecnológicas. Por isso, o ensino não deve se limitar à norma gramatical, mas ampliar a compreensão do estudante sobre as diferentes formas de uso da língua, para que ele possa reconhecer e utilizar esse instrumento em diversos contextos sociais”, finaliza.
Amanda Ferreira