Multicampeão paralímpico, Yeltsin trilha legado para além das pistas com alvo em crianças e instituto
Em uma manhã cotidiana na pista do Parque Ayrton Senna, em Campo Grande, Yeltsin Jacques respira fundo entre uma sessão de treinamento e outra. O coração ainda acelera após séries intensas de 1.500m, mas o sorriso não diminui. Aos 34 anos, o homem que carregou o peso da centésima medalha de ouro paralímpica do Brasil nas costas não para. A entrevista foi intercalada, durante as pausas de descanso. Ele corre, fala para multidões, constrói marcas e idealiza um instituto que multiplique oportunidades. Sua vida é a prova de, independente da distância a percorrer e do espaço dado, o sonho quando abraçado com disciplina feroz transcende o esporte e se torna legado.
Yeltsin Francisco Ortega Jacques nasceu em 21 de setembro de 1991, na capital sul-mato-grossense, com Amaurose Congênita de Leber, uma má-formação na retina que reduziu drasticamente sua visão desde os primeiros meses de vida. Diagnosticado aos dois anos, após a avó notar ausência de reflexos normais. “Nós sempre incentivamos ele com tudo de que ele era capaz”, conta a mãe, Juliane Reverdito Ortega, emocionada, para O Estado. “Andar de bicicleta, patins, carrinho de rolimã, skate. Nunca achei que, por ter baixa visão, ele não fosse brincar.”
O esporte entrou cedo na vida de Yeltsin. Começou no judô e, aos 15 anos, em 2006, um amigo com baixa visão o convidou para corridas. Em um espaço do Sesc, correu sozinho. “Eu corri bem pra caramba. Aí o pessoal já falou ‘você corre bem’”, recorda ele, com a voz ainda carregada de espanto pela trajetória. Ainda treinava na rua, sem orientação, quando em 2007, no Brasileiro Escolar, ganhou e bateu o recorde da competição.
Dali em diante, começaria para valer a sua carreira. Guiado por Guilherme Ademilson e Maurinaldo Santos (Naldo), Yeltsin virou destaque internacional no esporte paralímpico. Vieram o vice-campeonato mundial em Lyon (2013), o bi do Parapan em Toronto (2015), ouro histórico em Tóquio-2020 (disputada no ano seguinte devido à pandemia) – onde quebrou recorde mundial nos 1.500m T11 e deu ao Brasil a centésima medalha de ouro paralímpica –, novos títulos em Paris 2024 e recordes homologados pelo Guinness Book (o famoso Livro dos Recordes). Ele é o maior medalhista de meio-fundo e fundo da história do atletismo paralímpico e olímpico do Brasil.
O que emociona não são apenas as medalhas. É a conciliação de papéis que o define hoje: atleta de elite, palestrante motivacional e empreendedor de sua própria marca. “Hoje o atleta Yeltsin Jacques se tornou uma marca expressiva”, afirma.
Empreendedor que cuida da marca como cuida do corpo
O medalhista mundial e paralímpico não é apenas atleta ou palestrante. É empreendedor. “A minha ferramenta de trabalho hoje é o meu corpo”, afirma. Por isso, ele tem uma estrutura de recuperação: fisioterapia, cadeira de massagem, botas de compressão. Mas a “marca Yeltsin Jacques”, internacionalmente conhecida, também exige cuidado.
Yeltsin recusa propostas que não alinham valores – como de casas de apostas – porque seu público principal são crianças. “Eu tenho que ser a inspiração para eles.” Por isso, escolhe parcerias sérias. “A gente toma muito cuidado… para não vincular o nosso nome a nenhum tipo de polêmica.”
Essa visão empresarial vem da trajetória dura. Saiu de Campo Grande em 2012 para Limeira (SP) com pouco apoio, sem patrocínio inicial forte. “As primeiras noites, nos primeiros dias, você não dorme.” A mãe mal tinha gasolina para voltar.
Hoje, devolve todo esse apoio à família e ao estado. É beneficiário do Bolsa Atleta, padrinho da Corrida do Pantanal (que valoriza PcD como nenhuma outra na América Latina) e da Corrida Cidade Morena Yeltsin Jacques, que já reuniu 2.300 pessoas.
Sua deficiência moldou-o: “O pessoal às vezes fala que eu, por não ver o perigo, eu não tenho medo”, disse. “Eu entro aqui pra ganhar, não quero saber se é japonês, se é africano”.
Da ‘palestrinha’, chega ao TED
As palestras surgiram naturalmente. Yeltsin sempre teve facilidade em falar em público. Patrocinadores iniciais pediram “uma palestrinha” para equipes corporativas. “Começou pequeno, quebrando galhos, e explodiu após (a Paralimpíada de) Tóquio. “Fiz TEDx (Technology, Entertainment, Design/Tecnologia, Entretenimento, Design), que é o maior evento de palestrante do mundo”, conta.
O tema que mais conecta? Superação e dedicação. “No que diz respeito ao empenho, ao esforço, à superação e ao compromisso, não existe um meio termo, ou você faz bem-feito ou não faz”, diz, ao citar Ayrton Senna.
Nas escolas, especialmente em Mato Grosso do Sul, ele quebra a “síndrome do vira-lata”. Mostra que com os treinos na pista do parque batizado com o nome do piloto que era seu ídolo, “eu ganhei a centésima medalha de ouro treinando aqui nessa pista”.
Uma história o marca profundamente. Em Naviraí, uma menina com deficiência o abordou após uma palestra: “Tio, eu também sou PcD (Pessoa com Deficiência)… você é o maior exemplo que tem para mim, que uma pessoa pode alcançar e realizar todos os seus sonhos.” Yeltsin emociona-se ao relembrar.
Janayna Yankha Santos, esposa há nove anos e ex-atleta, vive essa dualidade diariamente. “Quando ele voltou de Tóquio, fomos muito procurados para dar palestras em escolas. Motivar crianças, ser referência… Foi algo que a gente passou a gostar muito.” Para ela, o mais gratificante é ver crianças do interior, especialmente com deficiência, ganharem perspectiva: “O Yeltsin chega, conta a história dele, e a criança passa a acreditar que pode ser algo maior.
‘Se fizer bem feito, você vai chegar’
Yeltsin nunca pensou em desistir, mesmo nos momentos mais duros: lesões, política esportiva, noites sem dormir em São Paulo, ser trancado no Morenão e pular o portão (história que ganhou repercussão em 2010). “A minha maior pressão psicológica é não decepcionar essas pessoas” – a equipe, Janayna, guias, terapeutas, mãe e amigos.

Foto: Arquivo pessoal
“Eu sinto a gratidão, o amor de Deus… É uma emoção muito grande ver um filho seu assim”, ressalta Juliane. “Chegar lá e o ver ganhar foi muito gratificante. Para mim, é o momento que mais marcou até hoje”, acrescenta a orgulhosa mãe.
Yeltsin pensa no futuro. Quer mais ouros em Los Angeles 2028 e Brisbane 2032. Depois, o Instituto: transversalidade do esporte, cursos, qualificação, inserção de PcD no mercado. “Sou fã do esporte… quero continuar trabalhando para atletas”, disse ele, que é bacharel em Educação Física e cursa pós-graduação em Fisiologia do Exercício.
Do menino que treinava na pista quadrada de 300m atrás do colégio no Jardim Tarumã e que expulso em pleno treinamento do Morenão algumas vezes, ao recordista do Guinness, inspiração na revista Forbes e em pistas mundiais, Yeltsin Jacques simboliza a reconciliação perfeita: o atleta que compete por amor, o palestrante que transforma vidas com palavras forjadas no sofrimento, o empreendedor que zela pela imagem como zela pelo corpo – sua ferramenta de trabalho e de sonho.
Em um país que ainda evolui na inclusão, o sul-mato-grossense prova que o caminho certo existe. “Não vai ser fácil para ninguém, mas o que você fizer bem feito, você vai chegar.” E ele chegou.
