Empreendedores transformam tradição em renda enquanto Estado importa a matéria-prima de seu principal símbolo cultural
Matéria escrita por Michelly Perez
O avião cruza lentamente o céu alaranjado de Campo Grande enquanto a água gelada escorre pela guampa. Na orla próxima ao aeroporto, onde moradores costumam se reunir no fim da tarde para tomar tereré e acompanhar pousos e decolagens, a cena se repete diariamente, quase como um ritual sul-mato-grossense.
Entre rodas de conversa, garrafas térmicas, erva-mate e o som das aeronaves cortando o céu da Capital, o tereré ocupa um espaço que vai muito além da bebida gelada. Símbolo cultural de Mato Grosso do Sul, ele também sustenta uma cadeia econômica formada por artesãos, comerciantes, indústrias, produtores rurais, empreendedores da gastronomia e até criadores de conteúdo digital.
Mas, por trás dessa tradição, existe uma contradição que poucos sul-mato-grossenses conhecem: o Estado que transformou o tereré em símbolo cultural produz menos de 10% da erva-mate consumida por sua própria indústria. Em outras palavras, Mato Grosso do Sul se tornou importador da matéria-prima que sustenta uma de suas maiores tradições.
A reportagem percorreu diferentes elos dessa cadeia para entender como um hábito incorporado ao cotidiano dos sul-mato-grossenses se transformou em oportunidade de negócio, impulsionou pequenos empreendimentos e continua gerando renda — mesmo diante do desafio de reconstruir a produção da principal matéria-prima que sustenta essa tradição.
Do chifre, o sustento: a arte que resiste no contratempo
Do alto de um banquinho de madeira, Antônio Santana, 53 anos, repete há quase três décadas os mesmos gestos com habilidade e cuidado que transformam matéria-prima em objetos carregados de identidade regional. Entre guampas, berrantes e pedaços de couro espalhados pelo chão de sua oficina, o artesão mantém viva uma tradição ligada ao cotidiano do tereré — bebida que atravessa gerações e ajuda a movimentar uma cadeia econômica formada por milhares de pequenos negócios em Mato Grosso do Sul.

Antônio não esconde o amor pela profissão – Foto: Marcos Maluf
Com entusiasmo e orgulho, ele conta que aprendeu o ofício no fim da década de 1990, ao observar um vizinho trabalhar em uma oficina improvisada nos fundos de casa. Ele havia se mudado da cidade de Deodápolis, distante 264 km, para a Capital.
“Fiquei curioso e pedi para aprender. Na época eu ganhava pouca coisa. Depois viramos amigos. O rapaz que me ensinou faleceu, mas os filhos dele continuam mexendo com isso até hoje.”
O que ele não sabia é que aquilo que começou como curiosidade viraria seu sustento. Hoje, Antônio é MEI (Microempreendedor Individual) e as peças produzidas por suas mãos abastecem lojas de Campo Grande e chegam a cidades como Aquidauana, Miranda, Bonito, Jardim, Anastácio, Ivinhema e Fátima do Sul.
“Eu saio para vender e volto sem nada. Graças a Deus, vendo tudo”, conta.
Boa parte da procura vem da região pantaneira, onde o tereré continua sendo parte central da convivência social. Algumas peças já atravessaram fronteiras e chegaram aos Estados Unidos, levadas por turistas.
Apesar da modernização dos acessórios ligados ao consumo da bebida, Antônio acredita que a tradição ainda resiste.
“Tem muita gente que gosta de tomar no chifre mesmo, até hoje.”
Em meio à oficina decorada com pó de chifre, após anos lixando peças com cuidado e a habilidade de quem trabalha com amor, o humor também faz parte da sua rotina.

O artesão leva com muito humor os trocadilhos feitos com a matéria-prima do seu trabalho – Foto: Marcos Maluf
“Uma vez a polícia me parou numa blitz e viu meu carro carregado e perguntou para minha esposa: ‘Mas ele trabalha com chifre mesmo?’. Aí ela respondeu: ‘Meu senhor, é o chifre que dá dinheiro em casa’”, lembra, entre risos.
Mas, apesar das conquistas pessoais e profissionais, o homem que transformou o chifre em sustento teme que o ofício que garantiu renda para a família por quase três décadas não encontre quem continue a história.
“Ninguém quer aprender. Daqui a uns tempos, isso pode acabar.”
Confira a galeria e conheça o trabalho do artesão:

















A engrenagem invisível da economia criativa
A história do artesão ajuda a explicar um fenômeno maior. O tereré deixou de ser apenas um hábito cultural para se transformar em um ecossistema econômico que envolve artesãos, indústrias, comerciantes, empreendedores da gastronomia, produtores rurais e criadores de conteúdo.
Segundo o SICAB (Sistema de Informações Cadastrais do Artesanato Brasileiro), Mato Grosso do Sul reúne cerca de 6,7 mil cadastros ativos de artesãos. Considerando os processos de formalização, esse número chega a aproximadamente 9 mil profissionais.
No entanto, esse universo faz parte de uma engrenagem ainda mais ampla. Dados do Sebrae/MS e da Receita Federal mostram que os pequenos negócios representam 88% das empresas ativas no Estado, somando mais de 350 mil micro e pequenas empresas.
Campo Grande concentra a maior parte deles, com 78.818 MEIs ativos, o que representa 43% do total. Somente na economia criativa e no artesanato, são mais de 61 mil pequenos negócios em Mato Grosso do Sul, sendo a maioria formada por microempreendedores individuais.
Mais do que números, os dados revelam uma economia que se desenvolveu a partir de um hábito cultural profundamente incorporado ao cotidiano dos sul-mato-grossenses.

Fábio Lapuente acompanha com entusiasmo o avanço do setor – Foto: Marcos Maluf
“O tereré já faz parte do nosso cotidiano. As pessoas viajam tomando tereré, trabalham tomando tereré, recebem amigos tomando tereré. Isso está dentro da vida do sul-mato-grossense”, explica Fábio Lapuente, consultor do Sebrae/MS.
Segundo ele, o desafio está em transformar essa identidade cultural em uma cadeia econômica cada vez mais estruturada.
“O turista quer experiência, história e pertencimento. E o tereré entrega isso. O céu é o limite”, destaca Lapuente sobre novas oportunidades de negócio.
Mapear a dimensão econômica do tereré, porém, ainda é um desafio. Apesar da presença da bebida no cotidiano dos sul-mato-grossenses e da cadeia formada por artesãos, indústrias, comerciantes e empreendedores, não existem levantamentos consolidados sobre o faturamento ou o impacto econômico total do setor no Estado.
Mesmo os dados oficiais ajudam apenas a dimensionar parcialmente o fenômeno. Segundo a PEVS/IBGE (Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura), em apenas dois anos a produção extrativa registrada de erva-mate em Mato Grosso do Sul despencou quase 65%, passando de 185 toneladas em 2016 para 65 toneladas em 2018. A partir de 2019, a atividade deixou de aparecer nos registros estatísticos do levantamento.
A escassez de dados não se limita à produção: ela também reflete a ausência de estudos contínuos que acompanhem a transformação do tereré de atividade agrícola em fenômeno econômico e cultural.
Sabores de mercado: a inovação que ganha escala
Se no artesanato a tradição gera renda a partir do trabalho manual, no comércio ela encontrou novas formas de escala. Em Campo Grande, a Tereré Shop mostra como essa transformação acontece na prática.

Antônio viu grandeza e novos horizontes na erva de Tereré – Foto: Marcos Maluf
Criada em 2010 com apoio do Sebrae/MS, por meio do programa Nascer Bem, a empresa nasceu como um comércio digital voltado a atender consumidores da bebida que viviam fora do Estado.
Atualmente, a empresa vende para todo o Brasil e já teve clientes em países como Estados Unidos, Portugal, Austrália e Tailândia.
O atual proprietário, Antônio dos Anjos Branco Filho, 49 anos, afirma que o mercado foi se modificando junto com os novos consumidores.
“Antes o pessoal via a erva como algo simples. Hoje existe preocupação com embalagem, qualidade e experiência”, conta o empresário enquanto prepara seu primeiro tereré do dia e relembra que alguns clientes de fora chegaram a questionar a legalidade do produto.
“Já tive clientes que me perguntaram se não teriam algum problema no voo por conta da erva. Eu logo explico que, desde que tenha as informações nutricionais e de procedência, podem levar tranquilo. Eu sempre brinco que aqui só trabalho com a erva que molha”, conta, entre risos.
A loja oferece mais de 40 marcas e desenvolveu soluções próprias de conservação e embalagens laminadas. Diante da modernização do consumo, a Tereré Shop também aposta na comercialização de produtos como garrafas térmicas elétricas, bolsas de couro para transporte e bombas com sistema de molas que permitem a sua desmontagem para higienização. Para quem deseja presentear, a marca conta com bonés e camisetas personalizadas com o tema da bebida.

A modernização chegou e já existe até garrafa automática – Foto: Marcos Maluf
O que antes era um produto associado ao consumo local passou a disputar espaço em mercados nacionais e internacionais.
“Você pode ficar dois ou três dias sem tomar, mas depois parece que a alma sente falta”, finaliza, após tomar o último gole da bebida e ressaltar que já está planejando expandir o número de lojas na Capital e em cidades do interior do Estado.
Confira a galeria e conheça os produtos da Tereré Shop:






Quando o tereré vira ingrediente
E é justamente fora da Capital onde a inovação também abriu espaço para novos usos da erva-mate. Em Aquidauana, cidade localizada a 141 quilômetros de Campo Grande, a chef Indiara Múcio, de 48 anos, transformou a bebida em ingrediente gastronômico para a primeira vinícola do Estado.

Geleia de erva-mate carrega etiqueta “Made in Pantanal” – Foto: Marcos Maluf
A partir da produção local, desenvolveu uma geleia de tereré que ganhou espaço na gastronomia regional, ficou entre as melhores do país em uma premiação nacional do setor e deu início à criação de sua própria marca de geleias, a Genuíno 67.
A criação nasceu da busca por exaltar a identidade local na culinária.
“Geleias existem diversas em todo o Brasil, mas eu queria criar algo que tivesse a nossa cara”, conta, admirando os potes do produto que ostentam a cor verde-oliva característica e o aroma marcante da matéria-prima sul-mato-grossense.
Hoje, além da geleia de tereré, a marca trabalha com outros sabores e utiliza insumos da agricultura familiar.

Indiara transborda orgulho – Foto: Marcos Maluf
A empreendedora, que já emprega seis pessoas, também integra o selo Made in Pantanal, iniciativa do Sebrae/MS que reúne mais de 240 empreendedores em uma plataforma online, e se prepara para iniciar a venda internacional de seus sabores por meio do programa PEIEX (Programa de Qualificação para Exportação).
“Hoje as pessoas querem vivenciar a cultura de um território. Em Mato Grosso do Sul temos muito potencial que ainda não é explorado”, garante a chef.
O apagão dos ervais e os guardiões da memória
O crescimento dos negócios ligados ao tereré, porém, esbarra em uma realidade que desafia a lógica da própria cadeia. Embora a bebida seja um dos símbolos mais fortes da identidade sul-mato-grossense, a maior parte da matéria-prima consumida pela indústria local vem de outros estados.
Na prática, Mato Grosso do Sul passou a importar a própria tradição. O engenheiro florestal Felipe das Neves Monteiro acompanha produtores em áreas onde a erva-mate ainda resiste no Estado. Segundo ele, a redução das exportações para a Argentina a partir da década de 1960, o avanço da agricultura e da pecuária sobre os ervais nativos e a ausência de políticas contínuas de incentivo contribuíram para o enfraquecimento da produção local.

Plantação de erva-mate na fronteira com o Paraguai – Foto: Arquivo Pessoal
“Faltaram investimentos em pesquisa, conservação genética e incentivo ao cultivo comercial”, explica.
O resultado é uma contradição rara: enquanto a cultura do tereré permanece viva e movimenta negócios em diferentes setores, a produção da erva-mate perdeu espaço dentro do próprio território onde a tradição se consolidou.
Ainda assim, Felipe acredita que a retomada é possível.

Queima da erva é um dos processos para a sua transformação – Foto: Arquivo Pessoal
“A erva-mate é uma espécie nativa da nossa região, e isso demonstra que possuímos condições ambientais favoráveis para o seu desenvolvimento. Mas, se quisermos reconstruir uma cadeia produtiva forte, precisamos começar pela base.”
Protetores de uma tradição centenária
Em Ponta Porã, cidade conhecida como a “Princesinha dos Ervais”, a história da Erva-Mate Santo Antônio se confunde com a própria trajetória da erva-mate em Mato Grosso do Sul.
Quatro gerações depois, a empresa permanece no mesmo ramo que ajudou a moldar a identidade cultural do Estado. Em 2027, a família completará um século de ligação com a erva-mate — uma trajetória que atravessou mudanças econômicas, transformações no campo e a própria formação do Estado.
Hoje, a empresa é conduzida por Paulo Cesar Benites, neto do fundador e representante da quarta geração da família ligada ao setor. Além de empresário, ele também preside o Sindimate (Sindicato das Indústrias de Erva-Mate e Derivados de Mato Grosso do Sul).

Paulo Cesar Benites – Foto: Arquivo Pessoal
Ao caminhar entre fotografias, documentos e objetos históricos preservados pela família, Paulo relembra um período em que Mato Grosso do Sul liderava a produção nacional.
“Até a década de 1980, ainda tínhamos ervais nativos importantes. Depois, com o avanço da soja e das pastagens, eles foram desaparecendo.”
Atualmente, menos de 10% da matéria-prima utilizada pela indústria local é produzida no Estado.
“O consumo continua enorme, mas a produção saiu daqui. O que não saiu foi a cultura do tereré”, resume.
Em 1997, a família inaugurou o Museu da Erva-Mate, que reúne mais de 3 mil peças históricas entre fotografias, jornais, documentos, utensílios e objetos ligados à cultura ervateira.

Museu da Erva-Mate está localizado em Ponta Porã (MS) e recebe até visitantes internacionais – Foto: Reprodução
O espaço é mantido exclusivamente pela empresa e abriga registros de uma época em que a erva-mate movimentava a economia regional.
“Ano que vem completamos 100 anos nesse ramo. Procuramos manter essa história viva porque ela faz parte da cultura de Mato Grosso do Sul”, afirma.
Para Paulo, o futuro continua promissor. Segundo ele, as indústrias instaladas no Estado comercializam cerca de 500 toneladas de erva-mate por mês e o mercado segue em expansão.
“Ano passado a Mate Leão entrou no mercado de tereré. Quando empresas desse porte apostam no segmento, isso mostra que ainda existe muito espaço para crescer”, avalia.
Das rodas de calçada para as telas do mundo
Nas redes sociais, o tereré encontrou outro caminho de permanência. O influenciador Higor Alexandre, conhecido popularmente como “Tereré influencer”, transformou o hábito em conteúdo digital, alcançando públicos de diferentes estados.
“O pessoal perguntava muito o que era o tereré e, aos poucos, eu vi que tinha espaço para mostrar isso; faltava uma referência.”

Higor Alexandre é conhecido como “tereré influencer” em Campo Grande – Foto: Marcos Maluf
Diariamente, o conteúdo mistura humor, cotidiano e identidade regional e, em poucos minutos, viraliza nas plataformas digitais, mostrando o impacto cultural e social da bebida.
“Ele une todo mundo. Patrão, funcionário, rico, pobre. Quando eu chego nas publicidades sem o kit, perguntam: Cadê o tereré?”, conta.
Para ele, o tereré já ultrapassou as fronteiras estaduais.
“Em algumas cidades da região do Nordeste, as pessoas que me seguem de lá já falam que na cidade deles já está virando febre, popularizando porque é uma região quente.”
O tereré transformou a vida de Higor, que hoje, além dos vídeos, trabalha com publicidade nas redes sociais. Para isso, recebeu apoio do Sebrae nas declarações de MEI e cita a importância da assistência.
“Eu sempre busquei ser um empreendedor digital e, quando a gente fala de publicidade, por trás disso, você precisa ter uma empresa, emitir notas, então o Sebrae me ajudou muito nisso, nas declarações anuais, a entender o lado empreendedor fora do comediante, e o caminho é esse, temos muito para crescer ainda”, finaliza.
Tradição que sustenta oportunidades
Quase um século depois das primeiras movimentações comerciais da erva-mate no Estado, rodas de tereré continuam reunindo pessoas em praças, fazendas, empresas e repartições públicas.
A cultura permaneceu viva. Os negócios cresceram. Novos empreendedores encontraram oportunidades. Mas a matéria-prima que sustenta essa tradição ainda vem, em sua maioria, de fora.
Reconstruir essa base talvez seja o próximo capítulo da história de uma bebida que atravessou gerações, movimenta centenas de pequenos negócios e transformou identidade cultural em desenvolvimento econômico.
Enquanto aviões seguem cruzando o céu de Campo Grande e a água gelada continua circulando entre guampas e cuias, uma certeza permanece: em Mato Grosso do Sul, o tereré nunca foi apenas uma bebida. Ele é memória, pertencimento e oportunidade. Uma tradição que, mesmo diante das transformações do tempo, continua encontrando novas formas de seguir adiante.