Empreendedorismo feminino no Assentamento Monjolinho aposta na bioeconomia para converter frutos nativos em renda e ajuda a romper ciclos de violência e exclusão no campo
Matéria escrita por Michelly Perez
A arquitetura da agroindústria da AMAM (Associação de Mulheres Agricultoras do Assentamento Monjolinho), em Anastácio (MS), nasceu antes das paredes de alvenaria. Ela foi projetada sobre a mesa de desenho de Rita de Souza, então estudante de Engenharia Civil. Filha de assentados, Rita cresceu testemunhando as reuniões e a persistência obstinada das mulheres da comunidade em busca de espaço e renda no meio rural. Quando a liberação dos recursos de um edital exigiu o projeto técnico para a construção da sede, ela assumiu o desafio: “Em quinze dias a planta está pronta na minha mesa”, prometeu à liderança local.
Rita cumpriu a promessa, mas não teve tempo de ver a estrutura concluída. Em 2016, aos 27 anos, a jovem engenheira teve a vida interrompida, vítima de feminicídio — crime que faz com que Mato Grosso do Sul figure historicamente no topo dos índices nacionais e que encontra no isolamento geográfico do meio rural um agravante crítico, dada a distância física das redes tradicionais de proteção e acolhimento urbano.
A dor ainda ecoa na comunidade, mas foi convertida em força política e de proteção coletiva. “Sempre a gente lembra, o coração dói. Se ela estivesse aqui hoje, ela ajudaria muito a gente, porque era uma menina de coragem e de boa vontade”, desabafa a mãe de Rita, Dona Izabel de Souza, de 77 anos. Olhando para a estrutura, ela completa: “Tem a mão dela em cada parede aqui.”
O espaço que a jovem projetou foi concluído posteriormente e se tornou a base de um modelo de empreendedorismo coletivo feminino no campo, umbilicalmente associado à sua memória.
Da fome à resistência: a fundação do território

Sede da AMAM desenhada por Rita de Souza. Foto: Marcos Maluf
A estrutura projetada por Rita hoje está localizada em uma área de transição onde o Cerrado encontra o Pantanal. Quando Dona Izabel chegou ao Assentamento Monjolinho com seis filhos pequenos, em novembro de 1988 — uma das primeiras áreas de reforma agrária tituladas de Mato Grosso do Sul —, o cenário era de extrema escassez. As famílias recém-assentadas viviam em barracos improvisados. Não havia vacas, cabras ou qualquer fonte regular de leite para alimentar as crianças.
“Quando chegamos aqui não tinha nada. As crianças choravam porque de onde a gente vinha tinha leite, e aqui não tinha”, lembra Izabel.
A fome foi a primeira companheira daquela geração. Mas não foi a única. Veio também a escassez de recursos para produzir, o preconceito e, principalmente, o machismo que insistia em silenciar mulheres que ousavam ocupar espaços de liderança no campo.
Foi justamente no limite da dificuldade que nasceu a semente da AMAM. O que começou nos anos 1990 como um modesto “clube de mães” focado na pintura de panos de prato para a obtenção de leite pelo programa governamental na gestão de José Sarney, atravessou crises, venceu a descrença local e se transformou em uma referência de agroindustrialização e bioeconomia no Centro-Oeste.
Mas o machismo sempre esteve ali. Quando as mulheres decidiram unir esforços e ter renda própria, ouviram que eram um grupinho sem futuro e que jamais conseguiriam.
“Antigamente, a mulher não tinha voz. Ela ouvia e ficava quieta. Aqui, não. Quando falavam que não ia dar certo, a gente mostrava que ia fazer — e fazia”, afirma Izabel com a autoridade de quem reestruturou a organização coletiva rumo à formalização jurídica.
A mulher que não aceita ouvir “não”

Mulheres no Cerrado durante a apanha dos frutos. Foto: arquivo pessoal
Se Izabel plantou as primeiras raízes da organização comunitária, foi Maria da Penha Macedo da Cruz, de 65 anos, quem, anos depois, transformou a resistência em modelo de negócio. Exemplo incontestável para as outras mulheres da associação, Penha é conhecida pelo riso fácil e pelo jeito falante que cativa a todos com sua vontade de vencer. Pequena de estatura, mas gigante na gestão, ela liderou a virada histórica da comunidade: a transição do artesanato de panos de prato para a exploração sustentável e comercial do bioma.
No início dos anos 2010, após um curso de pintura que reuniu 42 mulheres, Penha propôs que continuassem produzindo juntas. Diante da incerteza do mercado, a maioria desistiu. Restaram apenas cinco.
“Eu falava para elas: se a gente produzir e vender por conta própria, tudo que a gente conseguir fica para nós”, recorda Penha.
“Começamos com panos de prato, vendíamos o que dava na feira. Depois vieram os projetos. Quando a gente viu, já tinha agroindústria”, completa.
O salto institucional veio em 2013, através de um edital nacional para grupos de mulheres. Sem nunca ter entrado em um avião, Penha colocou sua coragem à frente do medo e embarcou para Brasília para defender o projeto da agroindústria. Entre mais de 85 projetos, o do Monjolinho venceu e conquistou R$ 24 mil na primeira parcela . No entanto, o recurso exigia contrapartida: as associadas organizaram mutirões com a venda de comidas na feira, gerenciaram o fluxo de caixa e ergueram a sede desenhada por Rita.

Maria da Penha colhe frutos da árvore planta por suas mãos. Foto: Marcos Maluf
Após poucos anos, o Cerrado revelou-se uma mina de ouro verde. Cumbaru, jatobá, bocaiúva, pequi e barbatimão deixaram de ser apenas árvores nativas nos lotes e passaram a integrar uma cadeia produtiva estruturada de farinhas, óleos, conservas, geleias e licores.
O modelo ganha relevância diante da pressão sobre o bioma. Dados do RAD 2025 (Relatório Anual do Desmatamento), do MapBiomas, mostram que o Cerrado permaneceu pelo terceiro ano consecutivo como o mais desmatado do país, concentrando 55% de toda a área devastada no Brasil em 2025. Foram 540,6 mil hectares perdidos em apenas um ano.
No Monjolinho, porém, a lógica é inversa. Ao transformar frutos nativos em fonte de renda, as mulheres da associação criaram um incentivo econômico para manter as árvores em pé, fazendo da sociobiodiversidade um instrumento simultâneo de conservação ambiental e desenvolvimento local.
O salto para o mercado e a profissionalização

União das mulheres do Monjolinho impressiona a todos que as conhecem. Foto: Marcos Maluf
Logo, o portfólio da AMAM chamou a atenção do mercado institucional através do PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar) e do PAA (Programa de Aquisição de Alimentos), abastecendo escolas municipais, estaduais e o IFMS (Instituto Federal de Mato Grosso do Sul).
O engajamento técnico para viabilizar essa produção exigiu a regularização sanitária, rotulagem e emissão de inscrição estadual, processos que contaram com a assistência direta no campo da Agraer (Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural):
“Auxiliamos elas nas produções, nas entregas, nas políticas públicas… Então auxiliamos na entrega, na emissão da nota fiscal e encaminhamento, seja para os órgãos do PAA ou para as escolas, em todas as certidões negativas. No entanto, as decisões do quanto entregar, quando entregar e de que forma são feitas de forma coletiva. E isso fez com que elas amadurecessem muito, essa parte de tomada de decisão coletiva”, destaca a zootecnista da Agraer de Anastácio.
“Hoje a AMAM é o coração da transformação na agricultura familiar, pois fortalece o protagonismo feminino e garante a sucessão familiar no campo”, completa.
Castanha de Cumbaru faz sucesso nas feiras. Foto: divulgação
A primeira grande vitória comercial ficou marcada na memória de Penha. “Na primeira entrega foram 800 unidades de bolos, biscoitos e tortas. Era madrugada e a gente já estava produzindo. Não parava”, relembra.
Nos períodos de pico de entrega, ela saía de casa antes do amanhecer e caminhava 15 quilômetros ou pagava R$ 70 diários para custear o transporte com vizinhos.
“Alguns dias as meninas chegavam aqui cedinho e eu já tinha colocado a batedeira para funcionar antes do sol nascer. Teve dias que trouxe a roupa, tomava banho e já ia para Campo Grande entregar, virava a noite”, conta.

Árvore de urucum marca a luta contra o machismo estrutural. Foto: Marcos Maluf
O esforço gerou uma microeconomia circular. Para Penha, o impacto transcende as planilhas:
“Para mim, não existe alegria maior do que ver as meninas dizendo: ‘Graças às vendas eu consegui construir um banheiro na minha casa’ ou ‘Eu comprei uma geladeira nova’. Isso não tem preço. Hoje cada uma já tem sua banca na feira, seus produtos plantados em casa. A gente começou juntas e hoje cada uma tem sua independência”, comemora.
O caminho de volta: da faculdade para o campo
Durante muitos anos, Margarida Lúcia Ferro acreditou que havia deixado a vida do assentamento para trás. Casou-se, mudou-se para a zona urbana de Anastácio, mas aos 40 anos decidiu cursar a graduação em História na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). Nos livros acadêmicos, encontrou os conceitos de reforma agrária, invisibilidade do trabalho feminino e desigualdade de gênero. Para o seu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), ela usou a própria AMAM como objeto de estudo científico.

Margarida usou o exemplo das mulheres da AMAM no seu TCC.
“Eu queria mostrar a força das mulheres daqui. Elas sempre fizeram tudo no campo. O problema é que nunca eram mostradas”, pontua.
Após concluir a graduação e uma especialização, Margarida retornou ao Monjolinho não mais como espectadora, mas como gestora. Hoje, atua na diretoria da associação, organizando o fluxo de fornecimento das 36 associadas atuais.
“Nós compramos das mulheres que plantam em suas casas, incentivamos quem produz e garantimos que o dinheiro circule na comunidade”, explica Margarida.
Essa engenharia socioeconômica eliminou os atravessadores e garante, atualmente, até 100% da renda mensal de cada uma das famílias parceiras.
“A diferença é que agora elas aparecem e gerenciam a própria renda. Eu mesma comprei meu fogão industrial para fazer os doces e deixei de cozinhar numa lata no quintal”.
Atualmente, a AMAM reúne 36 associadas sob a liderança da presidente Rosemar Nascimento de Andrade, de 44 anos. Sob a nova gestão, o grupo ganhou contornos de empresa social estruturada.

Rosemar sente orgulho ao ver novas mulheres empreendedo através da Associação. Foto: Marcos Maluf
“Ainda tem muitos desafios, mas a gente vai tentando melhorar para agregar valor e não deixar as palavras negativas tomarem conta da gente. Já sofremos muito preconceito, de gente que dizia que era só um grupinho, que mulher não dava conta. Mas uma vai dando força para a outra”, afirma Rosemar.
Essa rede de transferência de conhecimento atrai mulheres que antes pertenciam ao contexto urbano, como a segunda-secretária da associação, Sheyla Garcia, de 47 anos. Há quatro anos, ela trocou a cidade de Ivinhema pelo lote no Monjolinho.
Sheyla se surpreendeu com o trabalho da AMAM. Foto: Marcos Maluf
“Eu era comerciária, vim para cá e fiquei sabendo dos cursos do Senar. Quando a Agraer chama para uma capacitação, a gente vem, faz os cursos, se capacita, entra nos projetos. E tudo isso gera renda. É correria, a gente não para“, relata Sheila, que hoje gerencia o beneficiamento do cumbaru e do pequi para as feiras.
Reconhecimento institucional e a conexão com a indústria
Essa maturidade empresarial e a capacidade de conectar inclusão produtiva ao mercado competitivo são acompanhadas de perto por órgãos de fomento. Para Fernanda Pimentel, analista-técnica do Sebrae/MS, a AMAM é um modelo de empresa social que evidencia como a organização coletiva transforma recursos locais em oportunidades de desenvolvimento sustentável.

Barbatimão colhido no Monjolinho é a essencia dos produtos da Ybá Cosméticos. Foto: reprodução- Sebrae
“A experiência do assentamento mostra que o aproveitamento da sociobiodiversidade permite agregar valor e ampliar a autonomia econômica das produtoras”, avalia Fernanda.
“A atuação em mercados institucionais, como PNAE e PAA, aliada a parcerias com empresas, demonstra que é possível diversificar canais de comercialização. O protagonismo feminino na gestão reforça o papel dessas mulheres como lideranças locais”, explica.
Como reflexo dessa consolidação de mercado, as iguarias com a assinatura da associação — como a farinha de bocaiúva, o creme de pequi, a farinha de jatobá e a valorizada castanha de cumbaru — ganharam vitrine digital na plataforma Made in Pantanal, iniciativa do Sebrae/MS que impulsiona negócios verdes em grandes marketplaces e eventos globais.
O ápice da inovação consolidou-se quando o grupo conectou o extrativismo sustentável à indústria de alta tecnologia de cosméticos. Um dos maiores exemplos está na cadeia do barbatimão. A planta medicinal passou a integrar uma parceria comercial com a empresa sul-mato-grossense Ybá Cosméticos, fundada em Campo Grande pela médica Ana Helena Mattos e pela farmacêutica Beatriz Mattos.
As associadas realizam a coleta da casca do barbatimão seguindo protocolos rígidos de manejo sustentável e rastreabilidade. O insumo é transformado pela indústria em extratos botânicos para a fabricação de sabonetes, shampoos e hidratantes.
“Elas já conheciam o barbatimão e tinham essas árvores dentro das propriedades. A proposta foi criar uma oportunidade de renda a partir de algo que já fazia parte da realidade delas”, explica a empresária Beatriz Mattos, destacando o modelo baseado em comércio justo (fair trade).
O empreendedorismo como barreira contra o feminicídio
À medida que os quintais produtivos viraram fontes de receita própria, a dependência patriarcal ruiu na comunidade. Historicamente, a dependência financeira no campo é uma das principais amarras da violência doméstica. Dona Izabel lembra que, no início, muitas mulheres faltavam às reuniões justificando que “o marido não havia deixado”.
A quebra desse ciclo de submissão encontra eco nas análises de segurança pública. De acordo com a delegada Priscilla Anuda, coordenadora especializada do Núcleo Institucional de Cidadania da PCMS (Polícia Civil de Mato Grosso do Sul), o isolamento geográfico do campo funciona como um agravante invisível, onde formas silenciosas de abuso antecedem a violência física.

Delegada palestrou durante o evento Delas Day realizado pelo Sebrae-MS. Foto: PCMS
“A Lei Maria da Penha reconhece como violência psicológica qualquer conduta que cause dano emocional, isolamento ou limitação do direito de ir e vir. Impedir que uma mulher participe de uma associação, trabalhe ou gere renda representa uma forma de violência”, explica a delegada.
Diante disso, a delegada aponta o associativismo e o empreendedorismo como ferramentas indispensáveis de segurança preventiva.
“Quando ela passa a ter renda própria, convivência comunitária e acesso à informação sobre seus direitos, ela ganha as condições necessárias para identificar o abuso e buscar ajuda”.
A urgência dessa rede de proteção preventiva é desenhada em linhas duras pelas estatísticas oficiais. Conforme o Monitor da Violência Contra a Mulher da Sejusp-MS (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública), até o dia 2 de junho de 2026, o Estado já havia confirmado 12 feminicídios no ano corrente, após fechar 2025 com o rastro de 39 vítimas fatais. Foram 9.032 vítimas de violência doméstica apenas nos primeiros meses de 2026.
No cenário nacional, dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgados em 2026 revelam que Mato Grosso do Sul registrou a terceira maior taxa de feminicídios do país em 2025.
Um futuro que já começou

Izabel toca em cada fruto de urucum como uma lembrança viva de Rita. Foto: Marcos Maluf
A sede projetada por Rita tornou-se um porto seguro onde as 36 mulheres compartilham dores, dividem lucros e multiplicam a coragem necessária para romper ciclos de abuso.
Sob o fim de tarde alaranjado de Anastácio, enquanto segura um cacho de urucum, Dona Izabel sintetiza uma trajetória que se mistura à própria história da reforma agrária no Estado.
Naquelas mãos calejadas cabem noites de privação, o preconceito superado e a dolorosa ausência de uma filha pelo machismo. Mas cabe, principalmente, a esperança na sucessão geracional.
O grupo agora planeja novos passos de industrialização com a produção de polpas de frutas, ampliação para mercados externos e a retenção das novas gerações no campo. “Meu sonho é ver a juventude continuar isso aqui. Se a gente puder vender para o Brasil todo, a gente vai vender”, projeta Izabel.
No Monjolinho, o Cerrado deixou de ser apenas paisagem para se tornar matéria-prima, renda e memória viva. Entre a dor da perda da jovem engenheira que desenhou o futuro e o tempo da colheita farta do presente, as mulheres da AMAM provaram que a floresta em pé e a autonomia feminina são os adubos mais poderosos para transformar o luto em um legado permanente de prosperidade e protagonismo.
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