Pequenos negócios: um negócio inteiro cabe nas mãos de uma mulher do empreendedorismo de rua

Foto: Nilson Figueiredo
Foto: Nilson Figueiredo

Com 41,9% dos novos negócios abertos por elas em 2025, Mato Grosso do Sul alcançou a 7ª posição nacional no ranking do Sebrae

O cheiro de pão recém-assado acompanha Tânia Aparecida, 40, enquanto ela conduz o carrinho até um trecho da Avenida Mato Grosso, em Campo Grande. Nele estão os pães produzidos durante a manhã, os doces, os queijos e praticamente tudo o que sustenta a casa onde vive com a filha, Emanuelly, de oito anos.

A alguns quilômetros dali, Erika Cristina, 34, termina de organizar sobre uma mesa os bolos preparados entre a noite anterior e o início da manhã. Há apenas uma semana vendendo diretamente na rua, ela ainda transporta toda a estrutura de carro de aplicativo, mas já vê clientes retornarem para comprar novamente e fazer encomendas.

São pequenos negócios que funcionam como estruturas completas de produção, venda e sustento, atravessados por jornadas que se acumulam dentro e fora de casa. O que se repete nessas trajetórias ajuda a dimensionar o crescimento do empreendedorismo feminino em Mato Grosso do Sul.

O Estado ocupa a sétima posição nacional entre aqueles com maior participação feminina na abertura de pequenos negócios. Em 2025, as mulheres responderam por 41,9% dos novos empreendimentos registrados, segundo levantamento do Sebrae com base em dados da Receita Federal. No total do ano, foram formalizados 69.387 novos negócios, um recorde.

No Brasil, mais de 2 milhões de mulheres abriram empresas no período, o maior número já registrado. O volume representa cerca de 42% dos novos negócios formalizados no país. A presença feminina concentra-se nos MEIs (Microempreendedores Individuais) e diminui à medida que aumenta o porte das empresas, caindo para 39% nas microempresas e empresas de pequeno porte.

O início
Quando começou a vender pães, Tânia não imaginava que passaria anos trabalhando em um ponto fixo. Ela produzia os alimentos e fazia entregas de carro. Conseguia distribuir os produtos sem precisar permanecer nas ruas. A situação mudou quando ficou sem o veículo. Sem outra alternativa para continuar gerando renda, precisou reinventar a própria atividade.
No início, levava uma mesa até o local onde vendia os produtos. O trabalho exigia várias viagens entre a casa e o ponto de venda. Em uma delas, ao retornar com uma nova remessa de pães, a mesa foi furtada.

Foi então que surgiu a ideia de comprar um carrinho. O equipamento resolveu um problema logístico imediato: permitiu transportar toda a produção de uma só vez. Com o tempo, ganhou um significado maior. “Esse carrinho mudou muito a minha vida. Ele paga minhas contas. Tudo o que eu preciso cabe nele”, resume.

A rotina começa cedo. Todos os dias, Tânia prepara os pães, organiza os produtos e monta cuidadosamente o espaço de venda. No início da tarde, segue para o ponto onde trabalha há cerca de quatro anos e permanece até o anoitecer. É dessa atividade que sai a maior parte da renda familiar.

Além do auxílio recebido por programas sociais, o negócio é responsável por custear despesas básicas como aluguel, água, energia elétrica e alimentação. Mesmo sem formalização e sem ter participado de cursos voltados à gestão ou empreendedorismo, ela já traçou metas para os próximos anos.

“Eu quero terminar meus estudos, comprar um carro e aumentar a produção. Não quero ficar o resto da vida vendendo pão desse jeito. Quero ter o meu MEI, fazer tudo certinho e ser uma distribuidora de pães.”

Empreender para crescer

Segundo a coordenadora de Atendimento e Relacionamento com o Cliente do Sebrae/MS, Lucielle Lima, o crescimento do empreendedorismo feminino acompanha transformações econômicas e sociais observadas nos últimos anos.

“O empreendedorismo feminino segue em expansão. Cada vez mais mulheres estão encontrando no empreendedorismo uma alternativa de geração de renda, realização profissional e independência financeira”, afirma.

Ela destaca que Mato Grosso do Sul vive um momento de crescimento motivado por investimentos em setores como celulose, bioenergia, agronegócio, logística e pela Rota Bioceânica, cenário de oportunidades também para os pequenos negócios.

Além disso, mudanças tecnológicas e comportamentais abriram novas possibilidades para quem deseja empreender. “O crescimento dos negócios digitais, das vendas online, da economia criativa, dos serviços especializados e do trabalho remoto abriu novas possibilidades para empreender com menor investimento inicial”, explica.

A especialista observa ainda que o perfil das empreendedoras vem mudando. Além da busca por renda, cresce o número de mulheres que enxergam oportunidades de mercado e transformam habilidades e conhecimentos em negócios estruturados.

O custo de crescer

Embora o empreendedorismo por oportunidade tenha avançado, a necessidade ainda continua sendo um dos principais motores para quem está na base da pirâmide econômica. E é aí que o crescimento esbarra em barreiras estruturais de gênero.

A principal delas é a chamada “economia do cuidado”. No Brasil, estima-se que a mulher some ao seu trabalho tradicional ou negócio cerca de 20 horas semanais de trabalho não remunerado, dedicadas exclusivamente à casa e à família.

“Muitas mulheres precisam administrar simultaneamente o negócio, os filhos, a casa e o cuidado com familiares”, ressalta a coordenadora do Sebrae/MS.

A confeitaria faz parte da vida de Erika há cerca de dez anos. Durante esse período, trabalhou principalmente com encomendas. A decisão de levar os bolos para a rua é recente. Há pouco mais de uma semana, ela resolveu investir em um ponto de venda próprio.

O início quase terminou antes mesmo de começar. No primeiro dia, parte da produção foi perdida durante o transporte. Ao chegar ao local de vendas, restavam apenas duas unidades em condições de serem comercializadas. “Eu fiquei com medo de não vender. Cheguei a falar para a minha filha que era melhor ir embora”, lembra.

A filha insistiu para que permanecessem. Pouco depois, os primeiros clientes começaram a aparecer. As vendas vieram acompanhadas de elogios e o receio deu lugar à confiança novamente.

Casada e mãe de três filhos, ela conta com a ajuda da filha de 14 anos para tocar o negócio. A produção acontece durante a noite. Pela manhã, os bolos são finalizados. À tarde, a família segue para o local de vendas.

Sem veículo próprio, tudo é transportado por aplicativo. “O transporte é o que pesa mais. Às vezes perco oportunidades de comprar ingredientes mais baratos porque tudo precisa ser levado de Uber.”

Parte do lucro acaba consumida pela logística. Ainda assim, ela vê a operação atual como apenas o primeiro passo. O objetivo é conquistar um veículo próprio, abrir uma confeitaria e, futuramente, compartilhar conhecimento com outras mulheres.

Estudos do setor apontam que cerca de 65,5% das mulheres nunca buscaram crédito formal para suas empresas — muitas vezes por aversão ao risco, burocracia ou juros altos. E, quando conseguem financiamento, 74,5% o fazem como pessoa física (CPF).

Para tentar mitigar esse cenário, ferramentas como o Fampe Mulher (Fundo de Aval às Micro e Pequenas Empresas) do Sebrae têm buscado garantir aval de crédito para reduzir as negativas bancárias.

Erika projeta esse crescimento. O objetivo é comprar um veículo, abrir uma confeitaria e formalizar o negócio. “Eu quero mostrar que dá para começar pequeno. Fui comprando tudo aos poucos. Agora eu vou regularizar meu MEI e fazer meu curso no Sebrae.”

Da informalidade à profissionalização

À medida que o volume de negócios cresce, cresce também o entendimento de que a sobrevivência no mercado dinâmico exige qualificação. Segundo o Sebrae, um dos movimentos mais perceptíveis dos últimos anos é o interesse crescente por cursos voltados à gestão financeira, marketing digital, vendas, planejamento estratégico e liderança.

“Hoje, muitas empreendedoras enxergam a capacitação não como um diferencial, mas como uma necessidade para competir em um mercado cada vez mais dinâmico e tecnológico”, afirma Lucielle. O Delas Day, evento promovido pelo Sebrae, reuniu mais de 11 mil mulheres inscritas.

Para quem busca esse suporte, a estrutura estadual tem se capilarizado, contando com sedes em Campo Grande, escritórios regionais, como em Dourados, Bonito e Coxim, e 70 Salas do Empreendedor pelo interior.

O que os números não medem

As estatísticas ajudam a dimensionar a força econômica das mulheres. Mostram recordes de abertura de empresas, faturamento e participação setorial, onde elas já lideram 45% dos novos negócios da indústria e 44% dos serviços. Mas não registram o que acontece todos os dias antes da abertura das vendas.

Não mostram o pão sendo preparado pela manhã para garantir o sustento da semana, nem as horas dedicadas à produção de bolos depois que os filhos dormem. Não contabilizam o medo de perder a mercadoria no transporte ou a vergonha de expor o produto em público.

No fim da tarde, quando o movimento diminui, Tânia guarda os produtos que restaram. Erika desmonta a estrutura. O dia termina, mas a rotina recomeça no dia seguinte. Porque, para ambas, aqueles poucos metros de espaço público são a própria subsistência e a fundação do futuro que constroem todos os dias.

Por Djeneffer Cordoba 

 

Acesse as redes sociais do Estado Online no Facebook Instagram

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *