O fim das filas? tecnologia está mudando a dinâmica de lotéricas em Campo Grande

Foto: Marcos Maluf/Arquivo
Foto: Marcos Maluf/Arquivo

Com a digitalização dos serviços financeiros, parte da população idosa ainda resiste à mudança por segurança e hábito

As filas longas nas agências bancárias e casas lotéricas, que durante décadas fizeram parte da rotina da população em Campo Grande, começam a se tornar cada vez menos comuns. O avanço da tecnologia financeira, impulsionado pela popularização dos smartphones, dos bancos digitais e de sistemas como o Pix, está mudando profundamente a maneira como a população realiza pagamentos, transferências e até solicitar empréstimos.

Dados do Banco Central do Brasil mostram que o Pix se consolidou como o meio de pagamento mais utilizado no país poucos anos após seu lançamento, superando boletos, TEDs e até cartões em diversas operações do dia a dia. A rapidez das transações e a gratuidade para pessoas físicas ajudaram a acelerar a transformação digital do sistema bancário brasileiro.

Ao mesmo tempo, aplicativos de instituições financeiras passaram a oferecer praticamente todos os serviços antes exclusivos das agências físicas. Hoje, é possível abrir contas, investir, contratar seguros e resolver pendências diretamente pelo celular, sem necessidade de atendimento presencial.

O reflexo dessa mudança pode ser percebido nas ruas. Agências tradicionais reduziram horários de funcionamento, fecharam unidades ou transformam espaços em centros de atendimento especializado. Há algum tempo, muitos dos campo-grandenses passaram a frequentar os bancos físicos apenas para situações específicas, como renegociação de dívidas ou atendimento a idosos.

É o que conta em entrevista ao jornal O Estado, Taynara de Souza, atendente de uma lotérica no centro da Capital. Trabalhando há mais de cinco anos no setor, ela afirma que o fluxo de clientes tem diminuído cada vez mais. “Tem cada vez menos pessoas procurando as lotéricas. Hoje em dia, com tudo no celular, dificilmente as pessoas querem sair de casa para vir até aqui. Na maioria das vezes, são pessoas idosas que ainda mantêm a rotina de vir à lotérica”, conta.

Entre os motivos pelos quais a população idosa ainda procura as lotéricas está a busca por segurança financeira. “Esses idosos que ainda procuram as lotéricas, na maioria das vezes, não gostam de mexer com dinheiro pelo celular por insegurança e medo de golpe”, exemplifica a profissional.

Entre as funções que ainda mantêm as lotéricas úteis, Taynara explica que muitos clientes procuram os estabelecimentos para jogos, pagamentos de contas e saques de benefícios, e na grande maioria esse público é de idosos. “Eles vêm mais para fazer a ‘fezinha’ de jogar na Mega, na loteria, pagar contas e sacar benefícios”, relata.

Resistindo
Mesmo assim, as lotéricas continuam desempenhando um papel importante, especialmente em regiões periféricas e cidades menores, onde ainda funcionam como pontos de acesso financeiro para pessoas sem conta bancária ou com acesso limitado à internet.

Além disso, programas sociais e saques presenciais ainda mantêm parte do movimento nesses estabelecimentos. Em períodos de pagamento de benefícios do governo, por exemplo, filas continuam sendo registradas em diversas unidades do país.

É o que conta Ilda Pissurno, cabeleireira de 56 anos. Ela afirma que, mesmo com a facilidade dos celulares, ainda prefere ir às lotéricas. “Eu ainda vou à lotérica e prefiro. Para fazer transferências e pagamentos, às vezes pagar um boleto, essas coisas”, conta.

Ela ressalta que um dos principais motivos para essa preferência é a segurança. “Eu prefiro as lotéricas ainda porque tem a questão da segurança. Tem muita gente que não se sente segura em fazer uma transferência financeira pelo celular. A lotérica é esse lugar de segurança. Agora, a nova geração gosta? Mas a gente ainda não é da nova geração, então acho que a maioria da minha idade ainda prefere assim.”

Economistas e especialistas em tecnologia avaliam que o Brasil vive uma transição inevitável para um sistema financeiro cada vez mais digital. A tendência acompanha um movimento global de automação e virtualização dos serviços.

Essa modernização impacta principalmente a nova geração, que tem optado cada vez mais pela praticidade do celular. Lavínia Ribas, de 22 anos, atendente de uma rede de fast food, afirma que nunca foi a uma lotérica. “Nunca fui à lotérica. Tudo que preciso resolver é pelo celular, pela praticidade mesmo. Sair de casa só para pagar contas não faz sentido”, afirma.

Ela ainda ressalta que, caso as lotéricas modernizassem serviços como pagamentos online e jogos digitais, a adesão do público mais jovem poderia ser maior. “Com certeza, se eles modernizassem, como pagamentos de contas pela internet ou até jogos online, a nova geração iria preferir”, conclui.

Por Ian Netto

 

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