Apesar da redução nos índices gerais de homicídios em Mato Grosso do Sul, a violência contra mulheres segue em alta e expõe um cenário preocupante no Estado. Dados do Atlas da Violência 2026, divulgado ontem (26), mostram que Mato Grosso do Sul registrou aumento de 18,8% nos assassinatos de mulheres em 2024, contrariando a tendência observada na maior parte do país.
O número de mulheres mortas passou de 48 em 2023 para 57 em 2024. Enquanto 19 estados brasileiros apresentaram queda nas taxas de homicídios femininos no período, Mato Grosso do Sul esteve entre as sete unidades da federação que registraram aumento.
O crescimento ocorre em meio à redução dos homicídios em geral no Estado. A taxa de homicídios registrados caiu de 20,8 para 18,3 mortes por 100 mil habitantes entre 2023 e 2024. Em números absolutos, os casos passaram de 584 para 519 no período. Na comparação com 2014, a redução chega a 33,2% na taxa e 25,9% no total de assassinatos.
Mesmo assim, especialistas apontam que os dados relacionados à violência de gênero seguem resistentes à queda observada em outros tipos de crimes violentos.
O relatório destaca que os homicídios de mulheres dentro de residências permanecem relativamente estáveis ao longo dos anos, comportamento diferente do registrado nas mortes ocorridas em espaços públicos. Segundo o Atlas, esse padrão reforça a ligação entre assassinatos de mulheres e a violência doméstica, frequentemente associada ao feminicídio.
A publicação explica que, embora nem todos os homicídios femininos sejam oficialmente classificados como feminicídio, os casos ocorridos dentro de casa funcionam como um forte indicativo de violência de gênero. A partir de 2016, após a consolidação da Lei do Feminicídio, houve maior aproximação entre os registros policiais e os dados da saúde, indicando melhora na identificação e tipificação desses crimes.
“O fato de os homicídios em residência se manterem relativamente constantes, enquanto o total de homicídios diminui, sugere que a violência doméstica continua sendo um núcleo persistente da violência letal contra mulheres”, aponta o estudo.
Violência doméstica cresce no país
Os dados do Sinan/Ms (Sistema de Informação de Agravos de Notificação) mostram que, em 2024, 293,8 mil mulheres foram vítimas de violência não letal no Brasil, sendo a maior parte dos casos registrada em ambiente doméstico.
Entre os tipos de violência com maior crescimento aparecem negligência (13,8%), violência sexual (10,8%) e casos classificados como violência doméstica sem especificação do tipo de agressão (27,2%).
O levantamento também evidencia a reincidência da violência: 66,2% das mulheres atendidas pela rede de saúde já haviam sofrido agressões anteriores.
Outro dado que chama atenção é a faixa etária das vítimas. Meninas de 0 a 9 anos representam 16,7% dos casos registrados de violência doméstica no país. Entre adolescentes de 10 a 14 anos, quase metade das notificações corresponde à violência sexual.
Já entre mulheres adultas, especialmente de 25 a 34 anos, predominam agressões físicas associadas a relações íntimas e familiares.
Autolesões entre adolescentes preocupam
Outro ponto destacado pelo estudo é o crescimento das internações por lesões autoprovocadas entre crianças e adolescentes. O Atlas aponta aumento expressivo em diversos estados, incluindo Mato Grosso do Sul. O relatório associa os casos a fatores emocionais, sociais e psicológicos típicos da adolescência, como bullying, conflitos familiares, ansiedade, depressão e exposição à violência.
Mortes no trânsito voltam a subir
Além da violência interpessoal, o Atlas aponta aumento das mortes no trânsito em Mato Grosso do Sul. O número de óbitos associados a sinistros no transporte terrestre passou de 683 em 2023 para 738 em 2024, alta de 8,1%.
Na análise nacional, o Brasil registrou 37,1 mil mortes no trânsito em 2024, maior número desde o período pré-pandemia. O crescimento é associado, principalmente, ao aumento do uso de motocicletas e à expansão dos aplicativos de transporte.
Por Michelly Perez