Livro mostra que música também atua como direito e pertencimento

Foto: Temily Comar/Divulgação
Foto: Temily Comar/Divulgação

Obra ‘Só o Amor Não Basta’ traz pesquisa inédita sobre inclusão e reflexões sobre acessibilidade cultural

 

Foi lançado na manhã desta segunda-feira (25) em Campo Grande, o livro ‘Só o Amor Não Basta’, da professora, musicista e pesquisadora Etna Gutierres, projeto ambicioso e afetivo que reúne relatos de educadores musicais, dados inéditos e análises sobre os desafios e possibilidades da inclusão de pessoas com deficiência em atividades musicais.

Etna entrevistou educadores musicais de diferentes contextos para compreender como a inclusão acontece na prática e quais barreiras ainda impedem o acesso pleno à cultura.

Segundo Etna, o projeto nasceu da percepção de que a inclusão musical ainda é pouco discutida fora do campo terapêutico. “Quando falamos de pessoas com deficiência, normalmente pensamos em saúde, tratamento ou superação. Mas pouco se fala sobre o direito à arte e à cultura. A música também precisa ser compreendida como espaço de pertencimento, aprendizado e participação”, afirma.

Durante o lançamento do livro, a pesquisadora ressaltou como sua luta pela acessibilidade começou consigo mesma, ao nascer com um tipo de deficiência visual. “Minha família me levou para a música não como uma terapia, mas como algo que eu poderia fazer dentro da limitação que tive. E hoje estou aqui”, revela.

A obra ainda traz muito da própria experiência nos primeiros anos como aluna. “Um dia, uma professora em 1989 precisou pensar: ‘Como vou trabalhar com essa menina que não enxerga direito?’. De algum jeito, ela teve que me proporcionar alguma adaptação para que pudesse aprender. E deu certo. Ela fez isso sozinha, como muitos professores de música aqui já fizeram muitas adaptações sozinhos”.

Foram 95 professores pesquisados. Os dados levantados revelam um cenário de contrastes. Entre os professores entrevistados, 88% afirmaram já ter trabalhado com alunos atípicos, enquanto cerca de 73% disseram não possuir formação específica para atuar com pessoas com deficiência. Para a pesquisadora, o resultado mostra que a inclusão já acontece dentro das salas de aula, mas muitas vezes sem suporte institucional adequado.

“E aí fica o meu questionamento: se a maioria já inclui, se a maioria quer aprender e se nunca teve sequer um curso, o que nós — e quando digo nós, falo da sociedade, do poder público, da universidade, de todos nós — estamos fazendo por esses professores e por esses alunos?”, argumentou Etna durante o lançamento.

“Os professores estão tentando incluir, adaptando materiais, reorganizando metodologias e aprendendo no cotidiano. Mas inclusão não pode depender apenas da boa vontade individual. Precisamos falar sobre formação, acessibilidade e políticas públicas”, completa.

Atenção maior do poder público

Quem também esteve presente no lançamento foi o deputado Rinaldo Modesto (União), Presidente da Comissão de Educação, Cultura e Desporto da ALEMS (Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul).

Em sua fala, ele destacou que o poder público precisa ser ainda mais atuante na área da cultura. “A música extrapola todos os limites: geográficos, filosóficos, religiosos. E é através dela que a gente leva muita alegria. Se tratando da música para as pessoas atípicas, tenho certeza de que vamos ajudar muito a melhorar a qualidade de vida dessas pessoas”.

O deputado ainda comentou que o país precisa de maiores investimentos em educação social. “Sempre digo que o Brasil não é a Índia, mas é um país que carece, lamentavelmente, e essa questão no que se refere à educação social deixa muito a desejar. E essa é uma crítica legislativa. Não estou colocando a culpa nos ombros de ninguém, faz parte de um processo histórico e cultural de não investirmos em uma área tão importante da nossa sociedade, lamentou.

Educação carente

A professora e coordenadora do curso de licenciatura em música da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) ressaltou como a educação recebe cada vez mais pessoas com neurodivergências diversas.

“Essa obra nasce da perspectiva de quem vive e trabalha com música todos os dias. E isso é maravilhoso para nós. Na universidade, nós também temos recebido cada vez mais pessoas com deficiências diversas, pessoas neurodivergentes. E é urgente a nossa formação, a nossa perspectiva do olhar e do coração também, para se trabalhar e buscar cada vez mais conhecimento à luz da prática e da vivência das pessoas, e não somente da teoria”, disse.

“Quem faz pesquisa hoje sobre inclusão precisa ser também alguém que lide com isso, que compreenda essas vivências. Essas pessoas não são incapazes”, reforçou.

A pesquisa também identificou obstáculos estruturais e institucionais. Entre os relatos coletados, há casos de estudantes cadeirantes que não conseguiram permanecer nas aulas por falta de acessibilidade arquitetônica nos espaços culturais e educacionais. “Tivemos o relato de um professor que precisou interromper o atendimento de um aluno porque o prédio não tinha elevador. Isso mostra que ainda existe uma distância grande entre o discurso da inclusão e a realidade”, comenta.

Ao mesmo tempo, o estudo reuniu experiências positivas de acessibilidade atitudinal, como ampliação de partituras para alunos com deficiência visual, adaptação de oficinas culturais e criação de estratégias pedagógicas personalizadas. “A acessibilidade também está nas atitudes. Estar inteiramente com o outro, compreender suas necessidades e construir caminhos juntos faz parte do processo inclusivo”, pontua a pesquisadora.

Além de apresentar os resultados da investigação, o lançamento do livro marca a entrega oficial do projeto desenvolvido por meio da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc). A programação incluiu a apresentação dos alunos do coral da Escola Especial Colibri, reforçando a proposta do projeto de valorizar a música como ferramenta de inclusão e expressão cultural.

Para o Jornal O Estado, Etna Gutierrez destaca que a acessibilidade cultural é entendida apenas como o acesso à cultura como participante passivo, e não agente ativo, ou seja, como protagonista ou criador.

A iniciativa também parte da constatação de que, apesar dos avanços legais, a presença da pessoa com deficiência na música ainda é pouco visível em editais, políticas públicas e notícias na mídia. “Ao conversar informalmente com professores, percebi respostas evasivas, e entendi que precisávamos ir além da percepção: era necessário reunir dados para ter base para a discussão”, afirma Etna.
“O objetivo sempre foi transformar percepções em dados e dados em discussão pública. Quando levamos essa pauta para a universidade, para a pesquisa científica e agora para a comunidade”, conclui Etna Gutierres.

Mais informações sobre o livro e versão digital podem ser conferidas nas redes sociais da autora, @etna.musica.atipico ou por meio do link

 

Por Carolina Rampi

 

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