As agulhas da vovó passaram para as mãos dos jovens, que hoje seguem tendências, e alinham arte com saúde mental e empreendedorismo
O artesanato ainda é visto por algumas pessoas como algo considerado apenas como um hobbie, para se passar o tempo, e voltado para pessoas mais velhas, principalmente mulheres. Entretanto, no mundo da moda, o artesanato, principalmente o crochê e o tricô já alcançaram um rumo bem diferente, sendo visto nas passarelas de alta costura, no guarda-roupa de influenciadores, com peças que viram queridinhas de quem acompanha as tendências. E, com a chegada da Copa do Mundo de Futebol, a menos de um mês, a estética brasileira também dominou os novelos e agulhas.
Desde o ano passado, a moda chamada de ‘Brazil Core’ dominou estampas, editoriais de moda e até o vestuário de famosos. As cores da bandeira, a camisa da seleção, chinelos e até mesmo uma ‘estética’ nacional (também associada a América Latina) dominou as redes e virou motivo de desejo do público internacional.
A estudante de arquitetura Maria Eduarda Fernandes, de 23 anos, começou o crochê na pandemia, como forma de distração, após tentar na cerâmica, pintura e costura. O que antes começou como uma forma de passar o período onde todos estávamos isolados se tornou fonte de renda e prazer.
“Gosto sempre de ter e fazer peças para todas as ocasiões, e aí este ano, com a demanda e a aparição das peças em crochê com temática do Brasil e da Copa do Mundo do Futebol, decidi investir nelas”, contou em entrevista ao jornal O Estado.
Com encomendas garantidas, ela agora usa de todas as pausas que possui ao longo do dia para realizar a atividade. “Tenho momentos do dia reservados exclusivamente para fazer o crochê, mas normalmente faço entre os intervalos de aulas, mas principalmente dentro do ônibus, indo e voltando da faculdade, e até mesmo no intervalo do estágio”.
Para a professora de crochê Juliana Ferreira de Farias, de 35 anos, a moda da “estética brasileira” começou por meio da tendência da ‘latinidade’. “Isso surgiu até mesmo antes da Copa. O Brasil está na moda, o vestir ‘latino’, ou seja, como as mulheres latinas se vestem e a Copa potencializou tudo isso e começamos a pensar na produção seguindo essa linha”, entende.
Juliana é professora na área há mais de dez anos e em abril realizou um workshop em uma loja especializada de artesanato na Capital, justamente com o tema da Copa, onde as alunas aprenderam a fazer o ‘Top Brasilidades’, com as cores e formas da bandeira.
“É uma peça rápida de produzir e elas conseguirão vender bastante. Somos um país tropical e o cropped com franja combina muito para usar com shorts, saias mais abertas. Faço um estudo prévio antes de ensinar, com as tendências de mercado e em todos os lugares está vendendo algo ligado ao Brasil, sejam peças de decoração, maquiagem, esmaltaria, a indústria da moda e da beleza está comunicando essa identidade visual do Brasil e o crochê não poderia ficar de fora”, explica.
Ela destaca ainda que a indústria ligada ao crochê teve um avanço significativo nos últimos dez anos, e ela pode sentir a diferença nas vendas, produção e até para adquirir os materiais.
“O crochê está num momento de destaque. Agora temos acesso à internet, as peças ganham mais destaque. E temos materiais mais acessíveis, conseguimos produzir mais coisas; há dez anos eu não teria o material atual para fazer esse tipo de peça, então isso também agrega”.
Quando a arte vira transformação
Tanto Maria Eduarda quanto Juliana são enfáticas em afirmar que o crochê, e o artesanato em geral, são formas de ‘se desligar’ das telas e das redes.
“Eu já influenciei por volta de sete pessoas a começar, como forma de passatempo e distração das telas. Também já fiz reuniões no Parque das Nações Indígenas para fazer uma peça em conjunto e tem dado muito certo”, disse Maria Eduarda.
Hoje professora, Juliana aprendeu o crochê aos seis anos, observando a mãe, e desde então não parou mais. Pela sua experiência, ela percebe que a técnica tem atraído pessoas mais jovens para se desacelerar e desconectar das redes sociais.
“Hoje essa busca pelos hobbies está muito em alta. Não só o crochê, mas também pintura, cerâmica, bordado e outras atividades manuais. E o público desses clubes de hobbies, não só aqui, mas em vários lugares do Brasil, é majoritariamente jovem”, destaca.
Ela ainda destaca que a arte atua como fonte de renda e auxílio terapêutico. “No fim, tudo acaba sendo uma busca por algo terapêutico. E, às vezes, é uma ansiedade desencadeada pelas redes sociais ou pela pressão no trabalho”.
Da arte a mente
Segundo a pedagoga, psicóloga, arte terapeuta, coordenadora da pós-graduação em Especialização em Arte terapia pela faculdade Insted e presidente da Associação de Arte Terapia de Mato Grosso do Sul, Lara Nassar Scalise, de 54 anos, os jovens ultrapassam o limite de horas adequadas em frente as telas, e os trabalhos manuais, que utilizam de recursos artísticos, ajudam com eles não estejam focados nesses estímulos.
“O material que ele usa, os recursos para a execução dessa atividade, ajuda na organização mental, proporciona o desenvolvimento humano, autoestima, processos criativos, resolução de situações. Na arte terapia, cada material e cada recurso tem uma linguagem subjetiva que promove diálogos internos”, explica.
Ela ainda afirma que recursos como crochê, pintura, desenho, colagem e modelagem possuem linguagens expressivas próprias, com indicações e propriedades específicas para cada necessidade.
“Existe um lugar saudável dentro de cada um e a arte ajuda nesse resgate, colocando muitas vezes a pessoa em movimento por meio das atividades e recursos artísticos. O arteterapeuta contribui nesse processo ao compreender as conexões criativas e expressivas de cada material, para que a pessoa possa usar isso em benefício da própria saúde mental”, diz a especialista, que é uma das pioneiras da arte terapia em Mato Grosso do Sul.
Quando o lazer vira oportunidade
Juliana ainda destacou para a reportagem que por meio do artesanato, muitas mulheres conseguem conquistar a independência financeira e até sair de relacionamentos abusivos.
“A gente vê hoje, infelizmente, um crescimento muito grande do feminicídio, e sabemos que muitas dessas mulheres permanecem nessas situações porque não têm autonomia financeira. E o crochê, querendo ou não, acaba sendo uma ferramenta, porque dentro desse ecossistema de abuso o homem, às vezes, não vê o crochê como uma ameaça profissional, como veria se a mulher saísse para trabalhar fora”, explica.
Conforme uma pesquisa realizada pelo Sebrae em maio deste ano, o sonho número um dos brasileiros entre 35 e 54 anos é de ter o próprio negócio. O levantamento, aplicado pelo Sebrae em parceria com a Anegepe (Associação Nacional de Estudos de Empreendedorismo e Gestão de Pequenas Empresas), a vontade de empreender ocupa a terceira posição entre os mais jovens, de 18 a 34 anos.
Além disso, os empreendedores mais jovens também embarcam na ideia de ter o próprio negócio visando ‘fazer a diferença no mundo’. “Quando o empreendedor tem o propósito de transformação pessoal e social, os resultados de seu trabalho tendem a beneficiar ainda mais a economia e a qualidade de vida no país”, afirma o presidente do Sebrae Nacional, Rodrigo Soares.
“Da mesma forma que, para algumas pessoas, o crochê é terapêutico — elas têm outro trabalho e buscam o crochê como uma forma de tranquilidade e terapia —, para muitas pessoas ele também é fonte de renda e trabalho, como no meu caso”, finaliza Juliana.
Por Carolina Rampi
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