Peça expõe a violência de gênero, além de provocar reflexões sobre justiça e poder
A pergunta “o que eu faço agora?” atravessa toda a narrativa de Prima Facie, espetáculo que estreia hoje, 15 de maio, e ecoa uma realidade vivida por inúmeras mulheres em diferentes partes do mundo. A montagem acompanha Tessa, uma advogada brilhante que, após sofrer violência sexual, passa a enfrentar conflitos internos e questionamentos profundos sobre justiça, poder e vulnerabilidade feminina.
No palco, a atriz Débora Falabella interpreta a protagonista, conhecida por construir uma carreira sólida defendendo acusados de crimes sexuais. Criada em uma família humilde, Tessa venceu barreiras sociais até conquistar espaço no competitivo universo jurídico. No entanto, após sofrer um estupro de um colega de trabalho, ela transforma completamente sua forma de enxergar o sistema que antes defendia com convicção.
O monólogo, escrito pela dramaturga Suzie Miller, ganhou diferentes adaptações ao redor do mundo e chega aos palcos brasileiros sob direção de Yara de Novaes. Em Campo Grande, as apresentações acontecem no Teatro Glauce Rocha nos dias 15, 16 e 17 de maio, com sessões na sexta e no sábado às 20h e no domingo às 18h. Ingressos na plataforma Sympla.
Em entrevista exclusiva ao jornal O Estado, Débora Falabella revelou detalhes sobre o processo de construção da personagem e comentou os impactos que a obra provocou em sua trajetória artística. Segundo a atriz, o texto ultrapassa os limites da ficção ao levantar debates urgentes sobre violência de gênero, desigualdade e as falhas enfrentadas por mulheres dentro das estruturas de poder e da própria Justiça.
Montagem brasileira

Prima Facie – Débora Falabella – (C) Annelize Tozetto
Para o Jornal O Estado, Débora Falabella destacou que a adaptação nacional de Prima Facie buscou construir uma identidade própria, distante de referências já apresentadas em outros países. Segundo a atriz, a equipe criativa apostou em uma abordagem inédita para desenvolver a montagem brasileira, preservando um olhar autoral sobre a trajetória da protagonista e sobre os debates levantados pelo texto.
“Essa peça já ganhou muitas montagens ao redor do mundo, cada uma com características diferentes. Aqui no Brasil, a gente também quis criar algo muito nosso. Desde o início, escolhemos não assistir às outras versões para não interferir no nosso processo criativo e manter uma leitura mais livre da personagem e da história”, afirma.
Débora também ressaltou a relação de confiança construída ao longo dos anos com a diretora Yara de Novaes e com parte da equipe artística envolvida no espetáculo. De acordo com a atriz, a convivência anterior entre os profissionais contribuiu para criar um ambiente de ensaio marcado pela proximidade criativa e pela liberdade de experimentação em cena.
“A Yara é uma parceira artística de muitos anos, e vários integrantes da equipe também fazem parte da minha trajetória desde o Grupo 3 de Teatro. Isso criou uma conexão muito forte durante o processo. Além disso, contamos com o auxílio de profissionais do Direito, que nos ajudaram a compreender melhor como essas questões envolvendo a mulher e o sistema jurídico aparecem no contexto brasileiro”, destaca.
Segundo Débora, o processo de criação da peça foi marcado por trocas emocionais intensas entre a equipe artística. A atriz explicou que a presença majoritária de mulheres nos ensaios contribuiu para aprofundar debates e experiências pessoais que acabaram incorporadas à construção da montagem brasileira.
“Foi um processo muito delicado e sensível. Muitas mulheres compartilharam histórias, percepções e sentimentos dentro da sala de ensaio, e isso atravessou diretamente o espetáculo. Tudo ganhou ainda mais força por causa da potência do texto escrito pela Suzie Miller”, diz.
Em cena

(C) Amanda Freitas
A experiência de interpretar Tessa ampliou a compreensão de Débora sobre as falhas do sistema jurídico diante de casos de violência contra a mulher. A atriz destacou que o espetáculo ultrapassa o campo artístico ao estimular reflexões sobre desigualdade, poder e a forma como a sociedade ainda reage às vítimas de abuso.
“Essa peça mudou muita coisa em mim, principalmente pela maneira como me fez enxergar o funcionamento do sistema e o tratamento dado às mulheres que passam por violência. Durante o processo, mergulhei profundamente nessas discussões e hoje me sinto muito mais afetada e sensibilizada por tudo que envolve violência de gênero”, revela.
Para a atriz, a força de Prima Facie está na maneira como o texto aproxima o público da realidade vivida pela protagonista. Débora observa que a obra constrói uma personagem complexa e humana, permitindo que o espectador reconheça situações e sentimentos presentes no cotidiano de muitas mulheres.
“O texto da Suzie Miller é muito potente porque cria uma personagem extremamente real. A Tessa é independente, inteligente, bem-sucedida, mas isso não impede que ela enfrente violência dentro das próprias relações pessoais e profissionais. O teatro consegue tocar o público justamente por criar essa identificação e provocar uma reflexão muito profunda sobre esses temas”, conta.
Impacto mundial
A peça tornou-se um dos principais destaques do teatro nacional nas temporadas de 2024 e 2025. A montagem acumula importantes reconhecimentos da crítica especializada, incluindo cinco troféus no 19º Prêmio APTR, além de conquistas no Prêmio Shell de Teatro, APCA e no Prêmio Arcanjo de Cultura, consolidando o espetáculo como um dos maiores sucessos recentes dos palcos brasileiros.
Com adaptações apresentadas em mais de dez países, Prima Facie também alcançou impacto social fora dos teatros. No Brasil, a produção já reuniu mais de 39 mil espectadores em cerca de dois anos em cartaz e promoveu debates sobre violência de gênero e acesso à Justiça com autoridades do meio jurídico e político. No exterior, a repercussão da peça inspirou iniciativas ligadas à revisão de leis sobre violência sexual no Reino Unido e levou a versão exibida pelo NT Live a ser utilizada na formação de magistrados na Irlanda do Norte.
Busque ajuda

Delegada Analu Ferraz – Foto: Inez Nazira
Em entrevista ao jornal O Estado, a delegada Analu Lacerda, da DEAM (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher), reforçou a importância do acolhimento imediato às vítimas de violência sexual e destacou que a preservação de vestígios pode ser decisiva para a investigação.
A autoridade também orientou que mulheres procurem atendimento médico e policial o mais rápido possível, lembrando que qualquer delegacia tem obrigação de registrar a ocorrência, mesmo em cidades sem unidade especializada. Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher – orientação jurídica e encaminhamento) e Disque 100 (violações de direitos humanos).
“A prioridade é garantir a segurança física e emocional da vítima. Muitas vezes o primeiro passo é o mais difícil, porque existem medo, vergonha e insegurança, mas é fundamental buscar apoio e não enfrentar isso sozinha. A polícia está preparada para acolher, orientar e investigar, e a vítima não precisa apresentar provas antes de procurar ajuda.A investigação é nossa responsabilidade. O importante é que a vítima não fique sozinha”, finaliza.