Com 14 e 10 anos, Juliana e Rodrigo*, vivem com a tia, que acolheu e tenta dar suporte para que a dor seja ressignificada
O Dia das Mães, data tão celebrada nas casas brasileiras, tem gosto amargo para adolescentes e crianças órfãs do feminicídio que, além do trauma da perda, precisam lidar com trâmites judiciais extensos para conseguir acesso à pensão devida. Engrossando as estatísticas, Juliana e Rodrigo* (nomes fictícios para preservar a identidade dos menores), de 14 e 10 anos, respectivamente, aguardam, há dois, uma decisão favorável pelo auxílio, quase quatro anos depois da morte da mãe, Pâmela Oliveira de Souza, morta aos 27 anos, após ter 90% do corpo queimado pelo então marido, Damião Souza da Rocha, à época com 35 anos.
A espera pelo deferimento da pensão, que se iniciou em 2024, com a condenação de Damião a 30 anos de prisão, é ainda mais longa quando esse tempo é permeado por culpa, privações e traumas, tanto por ter convivido em um lar violento quanto por terem visto o próprio pai matar a mãe, padrão observado em diversos casos de feminicídios ao longo dos mais de 10 anos de existência da lei que tipifica o crime.
O caso data de 2023, quando Damião trancou Pâmela em um quarto da residência onde moravam em Rochedo, e ateou fogo, o que a levou à morte após um mês de internação na Santa Casa de Campo Grande. O crime foi antecedido por diversos abusos e violações, sendo cometido após Pâmela defender a filha das agressões do acusado.
Atualmente morando com a tia Cyntia Oliveira da Silva, de 39 anos, os irmãos continuam na escola, brincam, assistem TV, passeiam, têm amigos, e tentam seguir a vida mesmo carregando uma culpa que não é deles. O reflexo do que viveram vai além da vida em família, especialmente em datas como essas, quando tentam lidar com a ausência ainda mais latente da mãe e contornar, como podem, as comemorações, especialmente na escola.
“Tem dia que chega o Dia das Mães e todo mundo tem sua mãe, ou quase todo mundo. E eu vejo as mães, porque todo mundo tem sua mãe e faz cartinha pra elas. Pra eu não ficar sem fazer, eu faço e entrego pra tia, mas chego em casa triste, porque todo mundo tem sua mãe”, desabafa Rodrigo.
Em conversa com a reportagem do jornal O Estado, ele conta que os colegas — mas apenas os verdadeiros, de acordo com ele mesmo, e professores sabem que a mãe foi morta pelo pai, o que já foi inclusive motivo de bullying, reacendendo traumas que ainda nem foram, e dificilmente serão, superados.
Este ano Juliana começou a estudar em uma nova escola, onde fica em tempo integral e, além das disciplinas regulares, ainda faz aulas de Libras (Língua Brasileira de Sinais) e violão. De acordo com a tia, no local apenas os professores e equipe administrativa sabem, e menina, que está entrando na adolescência, tem medo de contar “porque se você conta pra um, ele conta pra outro, e para outros, e depois todo mundo fica sabendo”, em suas palavras.
Vítimas das mais diversas violações, eles lembram que na antiga casa o clima era agradável apenas quando estavam na companhia da mãe, o que mudava completamente se o pai estava junto. De acordo com as crianças, a violência contra elas e contra a mãe eram rotina na residência.
“Era aterrorizante, mas quando estava só com ela era mais tranquilo. Quando estava com o meu pai a gente não gostava, porque ele era violento, principalmente comigo”, conta a menina, em lágrimas.
Eles ainda lembram que gostavam de agradar Pâmela por meio de cartas, que escreviam e deixavam escondidas até serem encontradas pela mãe. Agora, até o simples ato de escrever bilhetes e cartas tem outro significado, já que quem recebe é a tia.
“Eu me sinto bastante triste, e eu daria o único presente que eu posso dar pra ela, que era um abraço, um beijo e um feliz Dia das Mães”, fala Rodrigo, ao relatar o que sente em relação à data.
Mesmo tendo pouca idade quando o crime aconteceu — ela tinha 10 anos e o irmão, 6 — eles se sentem responsáveis e o arrependimento é um sentimento que os acompanham quando falam da relação que tinham com a mãe.
Sendo a mais velha, Juliana disse que sente que poderia ter feito mais, mesmo sem compreender que uma criança de 10 anos pouco controle tem sobre as atitudes dos adultos, ainda mais quando essas ações têm o poder de afetar profundamente a vida de quem não é responsável nem por si mesmo.
“Eu me sinto muito culpada, porque se eu tivesse feito alguma coisa antes, falado pra alguém antes, ela estaria aqui. Eu fico com esse sentimento de que devia ter falado pra alguém. Eu sinto muita culpa pelo que aconteceu com minha mãe”, chora.
Falar para que não caia no esquecimento
Cyntia, irmã de Pâmela, é quem tem a guarda legal dos irmãos e sempre incentiva conversas sobre o assunto quando se sentem confortáveis para isso. Para ela, ter um diálogo franco é a chave para que elas se protejam e possam entender melhor o que aconteceu com a mãe.
“É muito triste, é muito doloroso, porque eles viram a mãe ser morta, mas a gente conversa sobre isso de forma aberta. Hoje ela [Juliana] consegue entender, mas se sente culpada, mesmo a gente falando que não é. Acredito que nunca vai passar, mas vão aprender a conviver com a dor, mas é triste”, disse.
Em relação ao processo de pedido de pensão especial para os dois, a tia destaca que a burocracia está atrasando o acesso dos sobrinhos a esse direito e ressalta que ter uma renda para eles poderia melhorar muita coisa, especialmente no acompanhamento psicológico, que teve de ser interrompido justamente por falta de condições financeiras.
“Eles ficam esquecidos, como tantos outros também ficam. Se eles tivessem acompanhamento com psicólogo, ia ajudar muito, em casa, na escola, no futuro, e esse dinheiro da pensão já serviria para isso”, disse a tia.
Apesar da dor, eles pensam no futuro
Na escola, são alunos empenhados e a leitura é um gosto em comum entre os dois, que se dividem entre livros com temas de animais e gibis. Apesar de tudo, eles ainda sonham, mesmo que os sonhos tenham reflexos da dor causada pela violência familiar.
Juliana, quando mais velha, quer se formar em Direito para defender crianças e mulheres que tiveram seus direitos violados. “Quero fazer Direito para trabalhar com essas coisas, de feminicídio, abuso sexual. Ela [a mãe] ficaria bastante orgulhosa disso”.
Rodrigo, quer terminar os estudos e ser um grande cabeleireiro. “Eu não seria igual ao meu pai, eu seria um homem trabalhador e daria muito orgulho pra minha mãe. Eu quero trabalhar de cabeleireiro”, fala, com os olhos marejados.
Por Ana Clara Julião