Chikungunya em Dourados: único hospital indígena do País opera no limite e equipe médica adoece em meio à epidemia

Foto: Roberta Martins
Foto: Roberta Martins

Porta da Esperança enfrenta problemas de superlotação e casos de internações que só aumentam

Desde abril, o Hospital Indígena Porta da Esperança, em Dourados, também passou a integrar a força-tarefa para atender os indígenas infectados pela epidemia de chikungunya na cidade. O hospital esteve na rota da equipe do jornal O Estado, que visitou Dourados no início desta semana para acompanhar o surto da doença, e se deparou com um local simples, com a operação sobrecarregada.

O convênio com a Prefeitura deve durar um ano e prevê uma integração do local na Rede de Atenção à Saúde do município através da prestação de serviços médicos, hospitalares e ambulatoriais de média complexidade. O valor total do contrato, divulgado através do Diário Oficial no último dia 22, é de R$ 4.037.018,16, sendo R$ 336.418.18 mensais.

Mantido pela Missão Evangélica Caiuá há mais de seis décadas, o hospital atende prioritariamente a população indígena de Dourados e têm se mantido com muita dificuldade. De acordo com informações de agosto do ano passado, a gestão enfrenta um déficit mensal superior a R$ 200 mil e corria o risco de fechar permanentemente até então, decisão que deixaria milhares sem atendimento médico.

Agora, com cada dia mais pacientes dando entradas por complicações da chikungunya, a preocupação é dupla: além da questão financeira, conseguir atender todos os que chegam e reduzir o número de mortes, que já chega a 13, dentro de 3.490 casos confirmados no Estado. Os atendimentos chegaram a dobrar no início do mês de março, com mais de três mil pacientes e, de acordo com o hospital, os números não abaixam desde janeiro.

O pastor Francisco Ferreira, capelão do hospital, define a situação com uma só palavra: assustadora. “A gente tem trabalhado muito acima da nossa capacidade aqui, demandas gigantescas todos os dias, pessoas que chegam aqui em situações, assim, difíceis, aí toda a nossa equipe sempre se desdobra para melhor atender. Tem dias que as pessoas chegam a ficar nos corredores”.

A preocupação é também com a saúde do corpo médico do hospital, que está sobrecarregado e exposto a situações de risco. Francisco afirma que alguns colaboradores já contraíram a chikungunya. “Nossos colaboradores também precisam descansar, precisam se recuperar”. Em alguns casos, mesmo com sintomas, os médicos e enfermeiros ainda vão trabalhar para não deixar de atender os casos mais graves.

Apesar da superlotação, o local não enfrenta crise em medicamentos, nem demais insumos utilizados para o tratamento da arbovirose, segundo o capelão. Os mantimentos vêm de diversas iniciativas, mas muitos são adquiridos por recursos próprios, já que apenas o repasse do SUS (Sistema Único de Saúde) não é suficiente para manter todos os gastos.

Atendimento tardio
Elisa Meireles dos Santos é a RT (responsável técnica) de enfermagem do Hospital Indígena Porta da Esperança afirma que, além dos sintomas mais conhecidos da doença, como dores intensas e febre alta, algumas pessoas chegam com casos mais graves e precisam ficar internados por dias. Apesar do hospital ficar próximo às áreas rurais, ainda é longe para muita gente, o que explica a demora na procura por cuidado especializado, um agravante nos quadros. “Os indígenas que moram muito para dentro da aldeia demoram um pouco mais para chegar. A Aldeia Bororó é bem extensa, por exemplo. Não é o caso de uma omissão deles”.

Na experiência da enfermeira, a população indígena não é mais afetada apenas no sentido de números, mas de intensidade. “Eles ficam bem mais debilitados, porque eles são fortes para uma coisa, mas para outras são sensíveis para outras”, explica.

Por conta da capacidade do hospital, a Missão Evangélica Caiuá recebe reforços de vários órgãos públicos. “Nós temos o apoio das UBS (unidades básicas de saúde) dentro das aldeias, tivemos suporte da FN-SUS (Força Nacional do SUS), então o número de atendimento foi bem significativo por conta dessa ajuda”. Na visita da FN-SUS, inclusive, psicólogos estiveram em Dourados para auxiliar os profissionais da área da saúde.

Apesar dos desafios diários, a gestão do único hospital indígena do Brasil se mantém otimista e acredita que o melhor caminho para redução das arboviroses que assolam o município, tendo em vista os surtos anteriores de dengue, é a conscientização.

“Vamos cuidar da nossa casa, do nosso quintal, observar se tem algum vasilhame com água.A gente tem esperança que toda essa situação melhore e que a gente saia desse caos. Nós sempre somos desafiados a caminhar e cuidar, não só de nós, não só da gente, mas também dos outros que estão ao nosso redor. E quando nós nos deparamos com uma com uma situação dessa, nos faz pensar o quanto estamos distante da nossa realidade. Se eu cuido do meu do meu lote, do meu quintal, da minha casa e meu vizinho não cuida, então, meu trabalho é vão”, finaliza o capelão Francisco.

Por Maria Gabriela Arcanjo

 

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