Um mês após conflito, procura por viagens aos Estados Unidos segue estável, mas passageiros evitam o Oriente Médio

Turistas têm optado
por desviar rotas
de locais de conflito
e até mesmo,adiar
as passagens - Foto: Marcos Maluf/Arquivo OEMS
Turistas têm optado por desviar rotas de locais de conflito e até mesmo,adiar as passagens - Foto: Marcos Maluf/Arquivo OEMS

Para quem tem família no Líbano, ligações por videochamada ajudam a amenizar a preocupação e a saudade

Há pouco mais de um mês, a guerra no Oriente Médio deixou de ser uma notícia distante e passou a repercutir também nas relações sociais e econômicas em Campo Grande. Para famílias de origem árabe na Capital, o conflito se traduz em ligações frequentes para parentes, apreensão diante da escalada militar e incertezas sobre viagens internacionais.

Na cidade, os reflexos do conflito aparecem no setor de turismo, com dúvidas sobre conexões e rotas internacionais. Embora a procura por viagens para os Estados Unidos siga estável, agências ouvidas pela reportagem relatam insegurança, adiamento de decisões e rejeição a escalas em países do Oriente Médio, como Dubai e Doha.

A guerra completou um mês no último sábado (28), após a escalada militar entre Estados Unidos, Israel e Irã em 28 de fevereiro, e levou o Itamaraty a desaconselhar viagens para 11 países da região, entre eles Líbano, Israel, Irã, Catar, Emirados Árabes Unidos, Jordânia e Síria.

 

Procura pelos Estados Unidos segue “normal”

Com a crise, o setor de turismo passou a registrar mais dúvidas sobre deslocamentos internacionais, além de remarcações, cancelamentos e busca por rotas alternativas via Europa e Estados Unidos.

A agente de viagens Nadiele Lopes, da Veromundo Viagens, afirma que a demanda para os Estados Unidos se manteve dentro da média. “Os Estados Unidos se mantiveram. Eu achei até que estaria maior por causa da Copa, mas não. Está na média”, afirmou.

Segundo ela, o movimento para destinos tradicionais como Europa e Estados Unidos continua positivo, mas o conflito alterou o comportamento de parte dos clientes, principalmente quando o roteiro envolve conexão por países do Golfo. “Todos os voos que passam por Dubai, a gente já nem está mais passando. As pessoas realmente não querem. Teve cliente falando que vai esperar mais um pouco para ver o cenário daqui um mês, dois meses”, relatou.

Ainda de acordo com Nadiele, a insegurança aparece principalmente entre passageiros mais velhos, que demonstram maior receio diante da possibilidade de agravamento da guerra. “Alguns ficam meio apreensivos por não saber direito se isso pode piorar e chegar até o país que eles querem visitar”, disse.

A percepção é semelhante na BeFly Travel. A proprietária Christianne Fuganti afirma que a procura por viagens internacionais permanece estável, sem aumento expressivo por destinos alternativos como os Estados Unidos. “Está normal, está igual. O que a gente percebe é que só para a área de conflito mesmo não tem interesse”, afirmou.

Segundo ela, o principal impacto tem sido o aumento da preocupação dos clientes na hora da compra. “As pessoas perguntam, querem informações, querem saber se tem conflito na área, se tem escala, se o voo passa por algum lugar afetado. Existe uma preocupação maior”.

 

Cancelamento de pacotes ao Oriente Médio

O cenário é diferente quando o assunto é Oriente Médio. De acordo com Ney Gonçalves, diretor da Impacto Ecoturismo, que trabalha com turismo receptivo internacional, a guerra praticamente paralisou a demanda de alguns mercados ligados diretamente à região.

“Estávamos com uma demanda em crescimento de turistas vindo de Israel, e agora, para 2026, todos os pacotes agendados foram cancelados. Também não está tendo nenhuma procura dos países do Oriente”, afirmou.

Por outro lado, ele ressalta que, em relação aos mercados europeu e americano, não houve cancelamentos até o momento. “Em relação aos outros mercados, como americano e europeu, até o momento não tivemos nenhum cancelamento e a procura para o nosso destino está normal”.

 

Insegurança faz clientes adiarem decisões

Na Ani Viagens, a proprietária Anilise Ilga Schmitz afirma que o impacto mais visível da guerra não está necessariamente em cancelamentos em massa, mas no adiamento das decisões de compra. “Com os acontecimentos em relação à guerra, aos conflitos, é normal o público ficar mais inseguro. Então as pessoas ficaram um pouco inseguras se vão comprar pacote de viagem mesmo envolvendo qualquer outro país que seja, Europa, próprio Estados Unidos”, afirmou.

Segundo ela, parte dos clientes têm optado por esperar alguns dias ou semanas antes de fechar a viagem. “Quem estava querendo comprar está pedindo para guardar 15, 20 dias. Muita gente está cancelando ou adiando para remarcar no futuro, esperando que amenize a situação”, explicou.

Ainda conforme Anilise, o receio também atinge destinos que dependem de conexões na região, como as Maldivas, tradicionalmente acessadas por voos que passam por Doha ou Dubai. “Agora tem que optar por outras conexões, como Paris, por exemplo. Então isso compromete o acesso mesmo”.

 

Alta do petróleo pode pesar no bolso

Além do medo, a guerra também pode ter reflexo no bolso de quem pretende viajar para fora do país. Agentes de viagem relatam que as passagens internacionais já vinham em patamar elevado, mas o cenário de conflito no Oriente Médio e a pressão sobre o petróleo aumentam a preocupação com reajustes nos próximos meses.

“As passagens já estavam com valor alto, e aos poucos a gente já percebe aumento”, afirmou Anilise. Mesmo assim, o câmbio mais favorável tem ajudado a sustentar parte da demanda para destinos como os Estados Unidos. “O dólar mais baixo traz preços melhores. Então quem não tem medo vai aproveitar isso”, avaliou Nadiele.

 

Ligação diária com o Líbano

Se nas agências o reflexo aparece na escolha das rotas, entre famílias libanesas em Campo Grande a guerra é sentida de forma mais íntima: na rotina de quem acompanha, à distância, o desenrolar do conflito.

Joseph Chamoun
empresário da Capital – Foto: Nilson Figueiredo

Há mais de 55 anos em Campo Grande, o comerciante Joseph Chamoun, de 76 anos, mantém contato frequente com familiares no Líbano. Irmãos, sobrinhos e primos seguem no país. “A gente liga direto, quase dia a dia, às vezes todo dia, para um e para outro, para se informar”, contou.

Segundo ele, a família vive em uma região mais afastada dos principais focos de bombardeio, o que traz algum alívio, embora a apreensão permaneça constante. “Graças a Deus, não está atingindo a nossa família, porque eles estão em outra área. Mas claro que a guerra prejudica todo mundo em geral, porque a economia afeta todo mundo”, afirmou.

Joseph explica que os ataques se concentram principalmente no sul do Líbano, em áreas onde há atuação do Hezbollah, mas os efeitos do conflito acabam se espalhando por todo o país. “Tem muita gente que foi obrigada a sair da casa, abandonar a cidade. Tem criança, senhoras de idade, mulher grávida. Precisa de mantimento, remédio, aluguel, comida. Não é fácil”, relatou.

Mesmo distante da linha de frente, a família sente o peso da instabilidade, tanto pela insegurança quanto pelos impactos na vida cotidiana. “A gente está tranquilo porque acredita que não vai atingir ali, mas nunca se sabe. Sempre tem a insegurança”.

 

Incerteza no espaço aéreo

Joseph também acompanha os efeitos da guerra sobre a aviação e o deslocamento na região. “Muitas companhias estrangeiras não estão indo para o Líbano. Mas a aviação do Líbano está fazendo voo normal”, explicou.

Segundo ele, parte do espaço aéreo em países vizinhos vem sendo afetado, o que amplia a sensação de instabilidade para quem precisa se deslocar. Apesar disso, a família não cogita deixar o país neste momento. “A família é grande, cada um tem sua propriedade, seu serviço, tem médico, funcionário de governo. Não tem como deslocar tudo assim de repente”.

Por Geane Beserra

 

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