País ocupa papel estratégico nas rotas migratórias, como território de passagem, alimentação e reprodução
As espécies migratórias de animais silvestres fazem parte do patrimônio natural do mundo. Elas constituem uma parcela significativa da biodiversidade e dos recursos genéticos globais e possuem importância ecológica, econômica e cultural.
No âmbito da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS, na sigla em inglês), uma espécie é considerada migratória quando sua população, ou parte dela, cruza fronteiras entre países ao longo do ciclo de vida. Em geral, elas transitam de um lugar para outro em períodos regulares do ano, seguindo padrões cíclicos e, na maioria dos casos, previsíveis. Esses deslocamentos acontecem por diferentes motivos, como busca por alimento, água, temperaturas mais adequadas e locais seguros para a reprodução.
Atualmente, são protegidas sob a CMS aproximadamente 1.189 espécies migratórias, distribuídas entre 962 aves, 94 mamíferos terrestres, 64 mamíferos aquáticos, 58 espécies de peixes, 10 répteis e 1 inseto — boa parte dessas espécies passam pelo Brasil.
Dessa forma, o Brasil ocupa um papel estratégico nas rotas migratórias do continente. Espécies que percorrem grandes distâncias utilizam o território brasileiro como área de passagem, alimentação ou reprodução.
Esses deslocamentos dependem da manutenção de corredores ecológicos e da conectividade entre habitats, um dos eixos estruturantes do debate na 15ª Conferência das Partes (COP15) da CMS, que será realizada pela primeira vez no Brasil, em Campo Grande (MS), entre os dias 23 e 29 de março de 2026.
Conheça espécies migratórias do Brasil
Baleia jubarte
(Megaptera novaeangliae)
É uma espécie de cetáceo com população estimada de 34.500 baleias jubartes vivendo no Brasil. Elas migram cerca de 4.500 km em 45 a 60 dias, viajando pela costa brasileira, as ilhas Geórgia do Sul, Sandwich do Sul, sul da Argentina, South Orkneys e Península Antártica.
As baleias jubarte passam a maior parte do tempo no Sul da Bahia e no norte do Espírito Santo, região do Banco dos Abrolhos, para acasalamento, nascimento e desenvolvimento de filhotes, durante o inverno e primavera. Essas localidades estão em áreas de Unidade de Conservação, representando um exemplo de política pública bem-sucedida.
A Baleia Jubarte está protegida nacionalmente em Unidades de Conservação (UCS): APA Ponta da Baleia/Abrolhos, Parque Nacional Marinho de Abrolhos, Reserva Extrativista Marinha do Corumbau (BA), PAN Cetáceos Marinhos do ICMBio (CMA).
Também é uma das espécies-alvo do Plano de Ação Nacional para Conservação de Cetáceos Marinhos Ameaçados de Extinção – PAN Cetáceos Marinhos, que tem o objetivo de melhorar o estado de conservação de cetáceos marinhos, mitigando os impactos antrópicos e minimizando as ameaças.
Onça-pintada
(Panthera onca)
A onça-pintada é o maior felino das Américas e depende da conectividade entre biomas para manter populações viáveis.
O Brasil abriga a maior população conhecida, com cerca de 50 a 55 mil indivíduos, concentrados principalmente na Amazônia e no Pantanal. Fora dessas regiões, as populações são menores, fragmentadas e isoladas, especialmente na Mata Atlântica e em partes do Cerrado e da Caatinga.Estimativas populacionais globais indicam a existência de aproximadamente 173 mil indivíduos em toda a área de ocorrência da espécie nas Américas.
A onça-pintada está incluída na Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção (Portaria MMA nº148/2022) na categoria Vulnerável (VU). Em escala global, a espécie é classificada como Quase Ameaçada (NT).
No Brasil, a conservação da espécie envolve iniciativas como o Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Grandes Felinos e pesquisas conduzidas pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (CENAP), vinculado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade.
No âmbito internacional, a onça-pintada foi incluída nos Anexos I e II da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS) em 2020.
Tartaruga-verde
(Chelonia mydas)
No Brasil, existem evidências de estabilidade e crescimento lento das populações de tartaruga-verde nas áreas de reprodução localizadas em ilhas oceânicas, como Ilha da Trindade, Atol das Rocas e Fernando de Noronha. Nessas áreas, as estimativas indicam cerca de 3 a 5 mil ninhos por temporada reprodutiva. Algumas centenas adicionais de ninhos também são registradas em praias continentais, principalmente no norte da Bahia. As tartarugas-verdes apresentam filopatria natal, comportamento em que as fêmeas retornam às praias onde nasceram para se reproduzir.
Há também registros de animais rastreados desde Suriname e Guiana Francesa, que percorrem cerca de 2,5 mil km ao longo da margem norte e nordeste do Brasil, alcançando o litoral de Recife.
A espécie realiza migrações oceânicas de longa distância, frequentemente superiores a 2 mil km, entre áreas de alimentação e reprodução. Um exemplo relevante é o deslocamento entre a Ilha de Ascension e a costa do Brasil, percurso de aproximadamente 2,3 mil km.
Ao longo da costa brasileira, a maior parte da plataforma continental funciona como área de alimentação e desenvolvimento, principalmente durante a fase juvenil, em ambientes com campos de algas, capim marinho e recifes.
Desde 1986, a captura de tartarugas marinhas e de seus ovos é proibida no Brasil. Além disso, a conservação da tartaruga-verde no país inclui diversas medidas, como, implantação de áreas marinhas protegidas; monitoramento de praias de desova e proteção de ninhos; e gestão pesqueira adequada.
A espécie também integra o Plano de Ação Nacional para Conservação das Tartarugas Marinhas (PAN Tartarugas Marinhas).
Tubarão-mangona
(Carcharias taurus)
Os padrões de migração do tubarão-mangona são complexos e podem variar entre diferentes populações. De forma geral, a espécie realiza migrações sazonais no eixo norte–sul ao longo de costas continentais, registradas em regiões como Austrália, África do Sul, Estados Unidos e América do Sul.
No Brasil, o tubarão-mangona encontra-se entre os estados do Espírito Santo e Rio Grande do Sul, onde ocorrem os nascimentos. Pesquisas indicam que podem existir áreas de cópula na região Sul do Brasil, enquanto as fêmeas se deslocam gradualmente para o sudeste do país, com os embriões se desenvolvendo durante esse percurso em águas rasas. Registros de neonatos e fêmeas com embriões a termo no Rio Grande do Sul também sugerem que a região possa funcionar como área de berçário, com partos ocorrendo na primavera.
Historicamente, a principal ameaça ao tubarão-mangona foi a pesca dirigida, especialmente por meio de redes de emalhe, utilizadas tanto pela pesca industrial quanto artesanal.
No Brasil, o tubarão-mangona integra iniciativas de conservação como o Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Tubarões e Raias Marinhos Ameaçados de Extinção (PAN Tubarões) e o PAN Lagoas do Sul. Em 2020, também foi estabelecida uma agenda de conservação transfronteiriça entre Brasil, Uruguai e Argentina, voltada à proteção da espécie ao longo da região.
No âmbito internacional, o tubarão-mangona está contemplado pelo Memorandum of Understanding on the Conservation of Migratory Sharks, acordo vinculado à Convenção sobre Espécies Migratórias, que busca restaurar um estado de conservação favorável para tubarões e raias ameaçados em nível global. O Brasil passou a integrar esse acordo em 2017, durante a COP12 da convenção, realizada em Manila. Atualmente, 37 espécies de tubarões e raias estão listadas no memorando.
Bagres migratórios
Pintado (Pseudoplatystoma corruscans)
Dourada (Brachyplatystoma rousseauxii)
Piramutaba (Brachyplatystoma vaillantii)
O pintado ocorre principalmente nas bacias dos rios Rio São Francisco e Bacia do Prata, enquanto a dourada e a piramutaba são espécies características da Bacia Amazônica.
Esses peixes realizam deslocamentos ao longo de diferentes trechos dos rios para completar seu ciclo de vida. No caso da dourada, estudos indicam uma das maiores migrações conhecidas entre peixes de água doce, com deslocamentos que podem ultrapassar 11 mil quilômetros ao longo da bacia amazônica.
Os bagres amazônicos dependem de diferentes ambientes ao longo do rio para completar seu ciclo de vida. As áreas de reprodução localizam-se nas cabeceiras dos rios próximas à Cordilheira dos Andes, enquanto as fases juvenis se desenvolvem principalmente no estuário do rio Amazonas, no Brasil.
Após crescerem nessas áreas de alimentação, os peixes iniciam uma nova migração rio acima até as regiões de reprodução, utilizando grandes rios amazônicos que atravessam diversos países da América do Sul.
A conservação dessas espécies depende diretamente da manutenção da conectividade dos rios amazônicos, já que barragens, pesca intensa e outras pressões podem interromper ou dificultar suas rotas migratórias.
Na COP15, o Brasil propõe a inclusão do Pseudoplatystoma corruscans no Anexo II da CMS, lista que reúne espécies migratórias que necessitam de cooperação internacional para sua conservação.
Já a dourada (Brachyplatystoma rousseauxii) e a piramutaba (Brachyplatystoma vaillantii) foram incluídas nesse anexo na conferência anterior, em 2024. Agora, países da região amazônica (Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela) trabalham de forma colaborativa na elaboração de um Plano de Ação Multiespécies para os Bagres Migratórios Amazônicos.
Albatroz-errante
(Diomedea exulans)
Os albatrozes estão entre as aves marinhas mais emblemáticas dos oceanos do Hemisfério Sul. Adaptados ao voo planado, esses animais passam grande parte da vida em alto-mar, percorrendo enormes distâncias em busca de alimento e retornando a ilhas remotas apenas para reprodução.
No total, o grupo reúne cerca de 20 espécies distribuídas em quatro gêneros: Diomedea, Thalassarche, Phoebastria e Phoebetria. O último censo global da espécie Diomedea exulans estima pouco mais de 8 mil pares reprodutivos, sem dados populacionais específicos para o Brasil. No Brasil, são registradas 10 espécies de Diomedeídeos, agrupadas em três gêneros: Diomedea, Thalassarche e Phoebetria.
Durante parte do ciclo anual, indivíduos da espécie deslocam-se por grandes áreas do Atlântico Sul e chegam ao litoral brasileiro principalmente entre julho e setembro. No Brasil, há registros da espécie ao longo da costa que vai do Rio Grande do Sul até São Paulo. O albatroz-errante passa a maior parte do tempo em alto-mar, utilizando a costa brasileira principalmente como área de alimentação durante suas migrações.
Muitas espécies de albatrozes estão ameaçadas de extinção devido a fatores como poluição marinha, doenças, espécies invasoras em áreas de reprodução e, principalmente, interações com atividades pesqueiras. No Brasil, a principal ameaça ao albatroz-errante é a captura incidental na pesca com espinhel, quando aves acabam presas em anzóis durante operações de pesca em alto-mar.
A conservação do albatroz-errante depende de ações coordenadas entre países e organismos internacionais. A espécie é contemplada por acordos internacionais como a Agreement on the Conservation of Albatrosses and Petrels (ACAP) e pela Convention on the Conservation of Migratory Species of Wild Animals (CMS).
No Brasil, as ações de conservação são implementadas por meio do Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Albatrozes e Petréis (PLANACAP), atualmente em seu quarto ciclo de gestão (2025-2030). O plano contempla 12 espécies-alvo, com o objetivo de reduzir a mortalidade dessas aves causada por atividades humanas, especialmente pela captura incidental na pesca.
Maçarico-acanelado
(Calidris subruficollis)
A população global estimada varia entre 84 e 364 mil indivíduos, embora a estimativa mais alta ainda seja objeto de debate na comunidade científica. Essa espécie realiza uma migração anual que liga o Ártico às áreas de invernada no sul da América do Sul, percorrendo aproximadamente 30 mil quilômetros ao longo do ciclo completo de ida e volta.
Durante essa jornada, a espécie utiliza a chamada Rota Central de migração, atravessando diferentes ecossistemas ao longo do continente.
Durante sua viagem rumo ao sul, o maçarico-acanelado utiliza diferentes regiões brasileiras como áreas de parada para descanso e alimentação. A espécie utiliza campos úmidos para paradas de descanso na Bacia Amazônica e para alimentação e descanso no Pantanal.
A principal ameaça ao maçarico-acanelado é a perda de habitat, especialmente pela conversão de campos naturais úmidos em áreas agrícolas. No Brasil, não há estimativas populacionais consolidadas, mas avaliações recentes indicam um declínio de cerca de 40%, e a espécie também é considerada Vulnerável na lista brasileira de espécies ameaçadas.
O animal é uma das espécies foco do Plano de Ação Nacional para a Conservação das Aves Limícolas Migratórias, coordenado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. As ações contam com o apoio do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (CEMAVE), responsável por pesquisas e monitoramento de aves migratórias no país.
No âmbito internacional, a espécie está incluída nos Anexos I e II da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS) e integra o Memorando de Entendimento para a Conservação das Aves Migratórias dos Campos Sulinos da América do Sul e de seus Habitats (MoU Pastizales), iniciativa voltada à proteção de aves que dependem de campos naturais da região.
O maçarico-acanelado também participa de iniciativas continentais de cooperação científica e conservação, como a Força-Tarefa para Implementação do Plano de Ação para Rotas de Aves Migratórias das Américas, que reúne países das Américas para fortalecer estratégias conjuntas de proteção das rotas migratórias.