Escrita por especialista em operações de resgate de acidentes aeronáuticos, obra discute descompasso entre o trabalho jornalístico e o de investigação
Um acidente aéreo chocou o Brasil no dia 9 de agosto de 2024: o voo Voepass 2283 caiu em Vinhedo, no estado de São Paulo, fazendo 62 vítimas. Quase dois anos após o acidente, as investigações oficiais sobre o ocorrido seguem em curso. Entre o tempo dos trabalhos de pericía técnica e a velocidade da mídia, instala-se um vazio, explorado no livro ‘VOEPASS 2283: Tragédia e Desinformação’, lançado na próxima quinta-feira (19), em Campo Grande.

Foto: Raquel de Souza
O autor é Silvio Monteiro Júnior, que acumula três décadas de atuação em operações de resgate de acidentes aeronáuticos e marítimos e mora em Mato Grosso do Sul há mais de 10 anos. Ele foi chefe da divisão de Busca e Salvamento da FAB (Força Aérea Brasileira) e atuou na operação do acidente com o voo Air France 447, tema de seu primeiro livro. Agora, Silvio volta seu foco para a cobertura jornalística de tragédias como essas, que acabam se transformando em “espetáculos”, com opiniões, acusações e certezas provisórias inundando os noticiários.
“O livro nasceu de um incômodo de algumas décadas, que é a velocidade com que as informações circulam após um acidente, muito antes que a verdade técnica esteja consolidada. A tragédia com o voo VOEPASS 2283 ocorreu enquanto eu pesquisava sobre o tema… assim, transformou a inquietação em livro”, resume o autor. Fruto de sua pesquisa no Mestrado em Comunicação da UFSM (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), a publicação, resultado da combinação entre experiência prática na aviação e pesquisa teórica sobre o comportamento da informação em contextos de crise, coloca o acidente aéreo como ponto de partida, mas fala sobre como a sociedade é exposta a uma avalanche de informações, notícias, opiniões e teses, antes mesmo que a verdade esteja consolidada.
“O primeiro livro, sobre o acidente com o voo Air France 447, teve como foco os bastidores da operação de busca e salvamento e da investigação técnica. Ele parte da minha experiência direta na condução das operações. Já este novo livro desloca o olhar para fora da operação, não analisa os fatores contribuintes do acidente, mas o comportamento da informação e da mídia diante da tragédia”, detalha Silvio.
Para o especialista, acidentes aéreos tendem a atrair grande interesse da sociedade por diversos fatores, inclusive por uma busca por culpados, mas os processos de investigação não se pautam pelos mesmos critérios. “Esses acidentes envolvem uma combinação rara de fatores. A aviação é percebida como o meio de transporte mais seguro, então, quando ocorre um acidente, há uma ruptura simbólica dessa sensação de segurança. Isso gera comoção, curiosidade e uma forte demanda por respostas. Mas as investigações têm como foco a prevenção, não a busca por culpados”, explica.
A obra convida o leitor a revisitar a cobertura jornalística de acidentes aéreos e a refletir sobre os limites da velocidade, a responsabilidade ética da informação e o papel do jornalismo em um ecossistema marcado pela urgência. É voltada para todos aqueles que se interessam por aviação, mas também para jornalistas, comunicadores e aqueles que desejam pensar criticamente o momento atual, marcado pelo excesso de informações, principalmente diante de momentos críticos.
O acidente
O avião envolvido no acidente era um ATR 72-500 operado pela Voepass. A aeronave fazia o voo 2283, que partiu de Cascavel, no Paraná, com destino ao Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos.
No dia 9 de agosto de 2024, o avião caiu na cidade de Vinhedo, no interior paulista. A bordo estavam 62 pessoas — 58 passageiros e 4 tripulantes — e não houve sobreviventes.
As vítimas tinham idades variadas e vinham de diferentes regiões do país. A passageira mais jovem era Liz Ibba dos Santos, de apenas 3 anos, que viajava ao lado do pai. A menina morreu no acidente, que se tornou uma das maiores tragédias da aviação brasileira nos últimos anos.
A aeronave perdeu altitude e caiu em uma área residencial da cidade. Desde então, o Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) conduz a investigação técnica para esclarecer os fatores que contribuíram para o acidente e apresentar medidas que possam aumentar a segurança das operações aéreas.
Serviço: O lançamento do livro “VOEPASS 2283: Tragédia e Desinformação”, publicado pela Life Editora, será realizado na próxima quinta-feira, dia 19 de março, a partir das 18 horas, na Lupland Biergarten, localizada na Rua Antônio Maria Coelho, nº 3285 – Jardim dos Estados. Evento gratuito e aberto ao público.
Por Carolina Rampi