Dupla sul-mato-grossense Vozmecê embarca para São Paulo, mas realiza último show e lança documentário
Novas jornadas, novo território, mas ainda assim muita música. O duo Vozmecê está de mudança para São Paulo, mas antes, fará um último show especial, que reúne exibição de dois documentários inéditos, ‘CenAlternativa’ e ‘TropicaPolca’ e um pocket show intimista, no Teatro Aracy Balabanian, para celebrar os oito anos de história do duo.
O objetivo da programação é encerrar o ciclo em Campo Grande com uma síntese afetiva e artística, com os filmes que também trazem a força da produção independente de Mato Grosso do Sul e um show que reafirma o pertencimento regional do duo, mesmo às vésperas da mudança para São Paulo.
Formado pelo casal Namaria Schneider e Pedro Fattori, o Vozmecê construiu ao longo dos anos uma sonoridade singular, que mistura polca paraguaia, psicodelia, baião, rock, axé, existencialismo e humor. Um organismo musical inquieto, pulsante e inventivo, que ampliou o alcance da música autoral alternativa no Estado e se tornou peça ativa no fortalecimento da cena.
Para o jornal O Estado, Namaria revelou que o fechamento deste ciclo será aos ‘moldes’ do Vozmecê, tanto o show quanto os documentários, de forma que expresse sua trajetória, valores filosóficos e todos os conceitos estéticos que os guiaram durante os oito anos.
“O documentário do CenaAlternativa também é um reflexo de quanto o ativismo cultural nos acompanhou nesses oito anos, porque sempre foi muito importante para a gente ter uma música política que defende pautas como o ativismo cultural e a importância do artista nas sociedades, ainda mais falando de Mato Grosso do Sul, que é um lugar tão precário para todas as expressões artísticas. Então, fazer uma noite em que a gente passa um documentário sobre a nossa história e, em seguida, sobre a cena musical do nosso estado desde o começo da década, representa muito do que a gente fez até aqui. E fechar com um pocket show também vai ser muito marcante para a gente, porque vamos trazer músicas que foram importantes para nossa história por aqui. Vai ser um show bem curto, com pouquíssimas músicas, mas feito com muita verdade, como a gente sempre busca apresentar nossas músicas”.
Mistura boa
O Vozmecê é conhecido por seu diálogo com diferentes influências musicais, desde a polca paraguaia até a psicodelia e o baião. Conforme Fattori, o próprio nome do álbum e do documentário, ‘ TropicaPolca’, já faz referência à identidade musical da dupla. “A parte ‘tropica’ aponta para um Brasil mais litorâneo, enquanto a ‘polca’ remete a um Brasil mais profundo. Esse Brasil profundo tem muito a ver com a nossa vivência como artistas sul-mato-grossenses, crescidos aqui perto da fronteira, em contato com ritmos paraguaios como a polca paraguaia, o chamamé e a guarania. Essas referências sempre estiveram muito presentes e acabaram aparecendo naturalmente no nosso som”, explica.
Além da parceria na música, Namaria e Fattori também já viveram sua temporada nômade como um casal, onde, junto a uma van e um sonho, viajaram por 17 estados brasileiros, absorvendo um pouco de cada lugar, brasilidades e o fazer da música de cada região.
“No Nordeste, por exemplo, tivemos muito contato com o baião. No Sudeste, com o samba e também com referências da vanguarda paulista. Então a identidade musical do Vozmecê acabou nascendo justamente desse encontro entre essas vivências. De um lado, as raízes muito fortes do Mato Grosso do Sul e da região de fronteira. Do outro, essas experiências que fomos acumulando nas viagens pelo Brasil. Tudo isso foi se misturando de forma bem orgânica e acabou formando o som que a gente faz hoje”.
Docs ‘TropicaPolca’ e ‘CenAlternativa: MS Geração 20’
Dirigido por Namaria Schneider, o documentário (30 min) apresenta os processos criativos e os bastidores da produção musical independente no estado, tendo como eixo a experiência do projeto TropicaPolca, álbum emblemático lançado em 2024. O filme aborda práticas autorais, circulação de artistas e o contexto cultural que molda a música produzida no MS. A produção contemplada pela Lei Paulo Gustavo.
“No documentário Tropicapolca, a gente usou como ponto de partida a produção musical do nosso primeiro álbum, que foi todo feito e gravado em casa, com produção própria. Esse processo acabou virando um pretexto para contar também um pouco da nossa trajetória com a arte, desde quando começamos a tocar na rua, lá no começo, em 2019, até as viagens que fizemos pelo Brasil fazendo arte de rua e criando muitos laços ao longo dessa vida na música, principalmente no contato com a cena musical sul-mato-grossense”, explicou Namaria.
Dirigido por Pedro Fattori, o filme ‘Cena Alternativa MS’ (45 min) investiga a cena alternativa sul-mato-grossense contemporânea, com artistas da nova geração, suas estéticas, discursos e modos de atuação. Um retrato atual e plural de uma cena que cresce, apesar das limitações de mercado. Entre os entrevistados, estão Beca Rodrigues, Silveira, Projeto Kzulo, Dovalle, Karla Coronel, SoulRa, além de mais de 20 artistas e trabalhadores da cultura.
“O recorte do documentário é de artistas que lançaram seus trabalhos e desenvolveram suas carreiras entre 2020 e 2025, por isso o nome Geração 20. Eu enxergo essa geração como uma produção muito diversa e bastante ativa. Mesmo que muitas vezes não exista ainda um público grande ou ideal para consumir tudo isso, tem muita gente trabalhando, gravando e lançando coisas novas”, destacou o diretor.
“A ideia com esse documentário foi justamente registrar esse momento da produção sul-mato-grossense. Criar um retrato desse período para que, no futuro, exista esse registro do que estava sendo feito agora, e talvez até para inspirar novos artistas nas próximas décadas”, complementa Fattori.
A mudança para São Paulo marcará um novo momento na carreira da dupla. Para eles, a chegada no novo território será um recomeço praticamente do zero, mas com muita coragem para encontrar novas pessoas, perspectivas e influências.
“Mudar para São Paulo significa expandir nossos horizontes como artistas. Aqui em Campo Grande aprendemos muito sobre nossa profissão, mas sinto que, lá, estarei exposta a novos ambientes que vão impulsionar meu crescimento musical. Além disso, a troca de contatos e a formação de público se tornam mais possíveis pela diversidade cultural e pela efervescência criativa da cidade”, afirma Namaria.
“Foi em Mato Grosso do Sul que vivemos nosso amadurecimento artístico, realizamos projetos, fizemos shows importantes e construímos relações que só a música é capaz de proporcionar. Somos profundamente gratos por tudo isso. Mas, neste momento, sentimos a necessidade de conhecer um novo cenário e seguir nos profissionalizando. Estamos nos despedindo de alguma forma, mas a verdade é que sempre estaremos aqui”, completa Fattori.
Pocket show de despedida
Após as exibições, o duo sobe ao palco para um pocket show exclusivo, íntimo e conectado aos temas dos documentários. No repertório, memórias de estrada, faixas de Desbunde (2020), do álbum TropicaPolca (2024) e canções que marcaram sua jornada pela música autoral.
Serviço: A Despedida do Vozmecê – Lançamento dos documentários CenAlternativa e TropicaPolca será nesta sexta-feira (13), das 19h às 22h, no Teatro Aracy Balabanian – Centro Cultural José Octávio Guizzo. Entrada gratuita com retirada prévia de ingressos pelo Sympla.
Por Carolina Rampi