Postos de combustíveis da Capital já comercializam o litro da gasolina na casa dos R$6,00
Economias dependentes do transporte rodoviário, como a de Mato Grosso do Sul, estão entre as mais sensíveis às oscilações no preço do petróleo no mercado internacional. Segundo especialistas consultados pelo O Estado, a valorização da commodity, ligada à escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã, tende a pressionar custos logísticos e a inflação caso se prolongue.
No mercado internacional, a tensão no Oriente Médio tem afetado sobretudo as expectativas e a logística do transporte do petróleo. O economista Eduardo Matos explica que a incerteza em torno do conflito já se configura nos contratos futuros da commodity.
Segundo ele, o risco associado ao transporte marítimo na região, especialmente no Estreito de Ormuz, contribui para a valorização do barril. “Devido ao risco logístico, principalmente ligado aos fretes marítimos, o mercado observa maior incerteza. Isso acaba pressionando a cotação futura do petróleo”, afirma.
Mesmo sem escassez global imediata, o cenário de instabilidade aumenta a percepção de risco entre investidores e operadores do mercado. “O petróleo não é escasso, porque há outros grandes produtores no mundo, mas o desafio logístico nessa área faz com que o mercado reaja e os preços subam”, diz.
No Brasil, entretanto, o impacto ainda é limitado. Segundo Matos, parte das oscilações observadas nas bombas pode estar mais ligada ao comportamento dos consumidores do que a reajustes efetivos na cadeia de produção e distribuição.
“Muitos consumidores já percebem um possível aumento e correm para abastecer. Esse movimento eleva a demanda e pode gerar oscilações nos preços, mesmo sem reajuste direto das refinarias ou distribuidoras”, afirma.
Outro fator que contribui para conter aumentos imediatos é a política recente da Petrobras. De acordo com o economista, a estatal tem buscado moderar repasses para evitar pressão inflacionária.
Analistas do mercado, no entanto, já trabalham com cenários de alta caso o conflito se prolongue. Estimativas indicam que o preço do combustível poderia subir até R$ 1,22 por litro se houver persistência na valorização internacional do petróleo.
Além dos combustíveis, a alta da commodity tende a atingir outros setores da economia. “O petróleo não é usado apenas para gasolina ou diesel. Diversos segmentos da indústria dependem de seus derivados, inclusive o agronegócio, o que pressiona os custos de produção”, afirma Matos.
Para o economista Eugênio Pavão, a dimensão do impacto dependerá principalmente da duração do conflito. Ele compara o atual cenário aos choques do petróleo registrados nas décadas de 1970 e 1980, quando interrupções na oferta provocaram forte alta nas cotações internacionais.
“A queda na produção ou no transporte do petróleo na região provoca um novo choque de oferta”, afirma. Ainda assim, segundo ele, o Brasil está em posição relativamente mais favorável do que outras economias.
“O país tem reservas relevantes e capacidade de exportação, o que reduz parte da vulnerabilidade”, diz.
Mesmo assim, uma escalada militar mais longa poderia pressionar os preços internos. Caso haja interrupções mais duradouras no fornecimento global, o impacto tende a chegar ao consumidor.
“Se o conflito perdurar, teremos alta dos combustíveis e, consequentemente, pressão inflacionária sobre diversos produtos”, afirma Pavão.
Economias regionais dependentes do transporte rodoviário podem sentir os efeitos de forma mais intensa. Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, o aumento do diesel e da gasolina pode elevar custos logísticos e encarecer produtos trazidos de outros centros do país.
“O Estado depende fortemente da logística rodoviária. Isso pode provocar alta em fretes e nos preços de produtos como alimentos, medicamentos e outros bens transportados de outras regiões”, afirma o economista.
Nesta terça-feira (10), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que está disposto a negociar com o Irã, dependendo das condições. Em entrevista à Fox News, ele disse que há sinais de que Teerã deseja diálogo, embora tenha ressaltado que o conflito avançou significativamente.
Para os especialistas, a evolução das negociações ou uma eventual ampliação das operações militares será determinante para o comportamento do petróleo nas próximas semanas e, por consequência, para o preço dos combustíveis.
Gasolina nas bombas
Mesmo após a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, ter afirmado na semana passada de que não haveria repasses imediatos as refinarias. “Mas, nesse momento, a gente não tem certeza sequer dessa premissa”. No entanto, desde o início desta semana consumidores que foram abastecer se surpreenderam com o litro da gasolina custando em torno de R$6,09, em comparação à semana anterior que o litro oscilava em média de R$ 5,90, conforme dados da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis).
O setor de revenda já observa os efeitos da volatilidade no mercado internacional. Diretor do Sinpetro-MS (Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo e Lubrificantes de Mato Grosso do Sul), Edson Lazaroto afirma que o barril registrou fortes oscilações desde o início da escalada do conflito.
“Só para se ter uma ideia, o barril estava em torno de 62 dólares e chegou a ultrapassar 100 dólares nesse período”, afirma.
Segundo ele, a volatilidade tem impacto principalmente nos combustíveis importados. “Há muitas importadoras que trazem diesel e gasolina, e os preços acabam sendo ajustados de acordo com o mercado internacional”, diz.
De acordo com Lazaroto, os efeitos já podem ser percebidos no país, sobretudo no diesel. “Estamos notando aumento de preços principalmente no diesel em todo o Brasil”, afirma.
Por Djeneffer Cordoba