Moradores de Campo Grande relatam angústia ao acompanhar o conflito e tentam manter contato com familiares
A nova fase da guerra no Oriente Médio chega ao 12º dia nesta quarta-feira (11) e tem provocado apreensão entre famílias de imigrantes e descendentes que vivem em Campo Grande. Mesmo a milhares de quilômetros de distância, moradores da Capital acompanham com preocupação a escalada do conflito, que envolve ataques entre Estados Unidos, Israel e Irã e também atingiu o território do Líbano.
Famílias que mantêm parentes na região vivem dias de expectativa e tentam manter contato sempre que há possibilidade de comunicação. Esse é o caso, do empresário Mohamad Tawfic, nascido em Campo Grande, que possui parte da família ainda vivendo no Líbano.
Entre os parentes estão tios e tias, irmãos de seu pai e de sua mãe. O contato, segundo ele, ocorre principalmente por telefone e aplicativos de mensagem. “Hoje temos contato pelo telefone, WhatsApp e videochamadas. Nos comunicamos diariamente quando tem luz e sinal”, relatou ao O Estado.
Apesar de os familiares estarem em Karaoun, uma área que, até o momento, não foi diretamente atingida pelos ataques mais intensos, a preocupação permanece constante. Tawfic afirma que a rotina da família em Campo Grande passou a ser marcada pela expectativa por notícias. “A região onde eles estão não está sendo tão atingida, mas estamos muito aflitos, porque não sabemos se vamos vê-los de novo, se vão estar vivos no outro dia. É o coração na mão todos os dias”, disse.
Entre os maiores temores, segundo o empresário, está a possibilidade de perder contato com os parentes ou de não conseguir mais reencontrá-los no futuro. “A maior preocupação é se vamos vê-los mais uma vez na vida, se vamos poder falar com eles de novo. E se, caso as coisas piorem muito, eles tenham para onde ir, se alguém os resgate”, afirmou.
Outro integrante da comunidade que acompanha a situação de perto é o vereador de Campo Grande e médico Jamal Mohamed Salem. Ele também tem familiares vivendo na região, especificamente na Cisjordânia, território palestino.
Segundo Salem, os parentes moram na cidade de Ramallah e vivem sob pressão constante devido à tensão na região.“Realmente a situação ali é muito complicada. Eu tenho parentes que moram na Cisjordânia, numa cidade de Ramallah. Está tranquilo, mas eles estão sob muita pressão”, relatou.
De acordo com o vereador, os relatos dos familiares apontam para episódios frequentes de violência e intimidação.“Todo dia aqueles colonos invadem, cortam árvores de azeitona, matam carneiro, matam ovelha, invadem as pessoas, quebram o vidro das residências. Isso sempre sob a proteção do exército de Israel. Quer dizer, é uma insegurança total”, afirmou.
Ele conta que mantém contato frequente com os primos e afirma que a sensação é de tensão constante.“Eles vivem numa situação muito crítica, num grande presídio, sem poder andar muito de suas casas, porque a qualquer momento são ameaçados até de morte”, declarou.
No Centro de Campo Grande, na região da Avenida Calógeras e Ruas 14 de Julho e Barão do Rio Branco, há várias famílias libanesas. A reportagem do jornal O Estado esteve nas ruas para conversar com essas pessoas e entender a situação dos familiares que moram no Líbano. A maior parte delas conta que os parententes concentram-se em áreas mais para o norte do país e que, por lá, até o momento, os libaneses estão atentos, mas não necessariamente desesperados, já que os ataques estão mais direcionados a porção sul do território.
No entanto, em áreas mais próximas ao conflito a preocupação já começa a aparecer. Samir Filho tem 32 anos, é descendente de libaneses e tem uma família grande que mora em Zahlé, cidade ao leste e terceira maior do Líbano. Samir comenta que mantém contato com o primo pelas redes sociais e que, frequentemente, eles trocam desabafos sobre a Guerra.
“A cidade está fechada por barreiras policiais, ninguém entra, ninguém sai”, relata Samir a partir das conversas com o primo. Além disso, ele afirma que “vão para o trabalho e do trabalho direto para casa. Não há convívio nas ruas”, ou seja, a população evita sair de casa pelo medo de ser atingida.
Samir também comenta que, apesar de Zahlé não ser o foco dos ataques, a cidade fica próxima aos locais onde esse conflito direto acontece. “Eles ficam sabendo dos ataques por conta dos barulhos. Como é perto, conseguem ouvir quando cai um míssel”.
O tio de Samir, Joseph Chaoun, de 76 anos, é libanês e chegou ao Brasil em 1970. Ele reforça os pontos do sobrinho e diz ainda que recebeu relatos de familiares dizendo que casas e prédios de cidades próximas foram esvaziados pela ameaça de explosões. Segundo ele, irmãos, sobrinhos e primos não pensam em sair do Líbano por esse motivo, mas que também evitam qualquer perigo. “Guerra ninguém gosta, só traz desgraça, demolição e morte. Eles estão com medo, você nunca sabe de onde vem o inimigo”, explica.
Imigração para Mato Grosso do Sul
A presença de imigrantes do Oriente Médio em Mato Grosso do Sul remonta ao início do século XX. Em 1880, o primeiro navio com libaneses deixou o porto de Beirute em direção ao Brasil. A chegada ao então território mato-grossense ocorreu a partir de 1912, pelo Porto Comercial de Corumbá.
Entre os passageiros estavam sírios, turcos, armênios e outros povos que deixavam a região em busca de segurança e novas oportunidades, fugindo de conflitos no Oriente Médio.
Atualmente, embora não exista um número oficial do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a comunidade de descendentes de povos do Oriente Médio no Brasil é estimada em cerca de 8 milhões de pessoas ou mais, segundo dados da Associação Cultural Brasil-Líbano e da Embaixada do Líbano. Muitas dessas famílias mantêm laços culturais e familiares com a região, o que faz com que conflitos como o atual sejam acompanhados com preocupação também no país.
Por Suelen Morales e Maria Gabriela Arcanjo