Sobrecarga: mulheres acumulam mais de mil horas de trabalho doméstico não remunerado

Dupla jornada feminina continua sendo tratada como responsabilidade natural das mulheres
Dupla jornada feminina continua sendo tratada como responsabilidade natural das mulheres

Um estudo da PUCPR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná) revela o peso invisível do trabalho doméstico e de cuidado realizado por mulheres no Brasil. A pesquisa aponta que elas dedicam, em média, mais de mil horas por ano a tarefas não remuneradas dentro de casa, como cuidar de crianças, idosos e doentes, além da limpeza, preparo de alimentos e organização do lar.

Intitulado “Mulheres cuidadoras em ambiente familiar: a internalização da ética do cuidado”, o estudo mostra que cerca de 90% dos cuidadores informais no país são mulheres, com média de 48 anos de idade. Na maioria das vezes, elas assumem o papel de cuidadoras por serem filhas, esposas ou netas dos familiares assistidos.

Para a pesquisadora Valquiria Elita Renk, docente do Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos e Políticas Públicas e do Programa de Pós-Graduação em Bioética da universidade, essa realidade está ligada a uma construção cultural histórica.

Segundo ela, o trabalho de cuidado foi naturalizado como uma característica feminina. “As demandas do cuidado com idosos, crianças ou pessoas doentes, além das tarefas da casa, acabam sendo vistas como responsabilidades naturais das mulheres, mesmo sendo atividades que exigem tempo, esforço e dedicação contínua”, explica.

Os dados analisados pela pesquisa incluem informações da Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2022. O levantamento mostra que as mulheres dedicam, em média, 9,6 horas semanais a mais que os homens em atividades domésticas e de cuidado.

O estudo ouviu 18 mulheres de áreas urbanas e rurais. Os relatos apontam sentimentos frequentes de exaustão, solidão e sobrecarga emocional.

A pesquisa também chama atenção para a chamada “geração sanduíche”: mulheres que precisam conciliar o trabalho formal, a gestão da casa e o cuidado simultâneo com filhos e pais idosos.

Dupla jornada na prática

A sobrecarga descrita no estudo se reflete na rotina de muitas mulheres brasileiras. Em Campo Grande, a gerente de uma loja de cosméticos Adrieli Silva, de 22 anos, relata que a jornada de trabalho não termina ao sair do emprego.

“Chega em casa e tem que arrumar a casa, fazer jantar, preparar a marmita do outro dia, ver uniforme, separar roupa. É uma correria. A gente trabalha fora e trabalha em casa também”, conta.

Ela afirma que o descanso muitas vezes fica restrito ao tempo disponível para dormir. “A gente fala em relaxar, mas geralmente o que dá pra fazer é dormir. No fim de semana ainda tem o faxinão que não deu tempo de fazer durante a semana.”

Mesmo com a rotina intensa, Adrieli observa que muitas mulheres buscam pequenos momentos de autocuidado. “Aqui na loja vejo muitas mulheres comprando algo pra se cuidar, um batom, uma maquiagem”.

Para a vendedora Maria Antônia Aparecida, de 21 anos, conciliar trabalho e maternidade exige organização constante. Mãe do José, de três anos, e Benjamim, de um ano, ela divide o tempo entre o emprego e os cuidados com os filhos.

“A gente tem que se virar. Quando eu chego em casa, minha atenção é total para eles”, afirma. Apesar do cansaço, ela diz que os filhos são a principal motivação para enfrentar a rotina. “Eles são o motivo de eu fazer toda essa correria para dar o melhor para eles.”

Reconhecimento e políticas públicas
O estudo da PUCPR conclui que o trabalho de cuidado tem impacto econômico e social significativo, mas ainda carece de reconhecimento.

Para as pesquisadoras, ampliar o debate sobre a divisão das responsabilidades domésticas e criar políticas de apoio são passos fundamentais para reduzir a desigualdade de gênero no trabalho de cuidado. “É necessário reconhecer o valor econômico desse trabalho e garantir uma distribuição mais justa das responsabilidades”, conclui Renk.

Por Ana Krasnievicz

 

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