Sessão única no MIS mostra como o teatro transforma a formação de jovens e abre espaço para diálogo sobre arte e educação
Nesta terça-feira, 3 de março, o Museu da Imagem e do Som abre suas portas para uma noite dedicada ao encontro entre arte e aprendizagem. Às 19h, o público poderá assistir à sessão especial do documentário Oroboro, em apresentação única. A proposta da exibição vai além da tela: a obra convida a refletir sobre os caminhos possíveis da educação quando a criação artística ocupa papel central na formação de crianças e jovens.
Com direção de Pablo Lobato, o documentário acompanha o processo formativo de alunos de uma escola de abordagem Waldorf em Nova Lima (MG). Ao longo do ano letivo, dois grupos assumem o desafio de transformar clássicos da literatura e da música em montagens teatrais construídas coletivamente. Entre as obras revisitadas estão Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, e a ópera A Flauta Mágica, de Wolfgang Amadeus Mozart.
A narrativa revela os bastidores dos ensaios, os desafios do trabalho em grupo e os impactos emocionais vividos pelos estudantes durante o processo criativo. Em vez de focar apenas no resultado final, o filme evidencia como o percurso artístico pode fortalecer vínculos, ampliar repertórios e contribuir para o amadurecimento individual e coletivo.
A sessão pretende reunir professores, estudantes, famílias e interessados em novas perspectivas pedagógicas.Após o filme, haverá um momento de conversa aberto aos participantes, criando um espaço de escuta e troca de experiências sobre práticas educativas que dialogam com o teatro e outras linguagens artísticas.
Encerrando a programação, a roda de conversa contará com a participação da educadora Beatriz Camorlinga, da Escola Aguapé, em Campo Grande, com mais de 30 anos de experiência na área, além de Rubens Salles, representante do Instituto Ruth Salles, e outros convidados que atuam com teatro na educação básica.
Oroboro pelo Brasil
Desde sua estreia, o documentário vem percorrendo diferentes cidades brasileiras, impulsionado por uma rede formada por professores, artistas e público interessado em propostas culturais voltadas à educação.
A circulação já passou por municípios como Botucatu, Campinas, Belo Horizonte, Recife, Salvador e Rio de Janeiro, entre outros, ampliando o debate sobre arte e formação em sessões que reúnem comunidades escolares e espectadores em diversas regiões do país.
O diretor Pablo Lobato afirmou ao Jornal O Estado que a recepção do público tem sido marcada por uma forte dimensão afetiva. Segundo ele, a obra desperta um sentimento de encantamento e provoca no espectador a revisitação de experiências pessoais ligadas à própria formação, especialmente aquelas mediadas por encontros transformadores ao longo da juventude.
“As pessoas saem do filme acreditando no que desejam acreditar, muitas vezes recordando vivências que ajudaram a moldar quem são hoje. Muitos falam de encontros decisivos em suas trajetórias. Isso revela que o filme aciona uma memória coletiva, em que a arte não surge apenas como assunto, mas como algo vivido e compartilhado”.
Produção e Gravação
Ao detalhar a construção de Oroboro, o diretor Pablo Lobato relata que o projeto teve início a partir do impacto que sentiu ao acompanhar os primeiros ensaios dos estudantes. Sem um roteiro previamente estruturado, ele optou por iniciar as filmagens de maneira intuitiva, permitindo que o próprio processo pedagógico conduzisse os caminhos do documentário.
“O ponto de partida foi um espanto diante da força do que estava acontecendo. Comecei a filmar sem um plano fechado, buscando estar próximo dos ensaios e do que surgia ali. A direção procurou observar em vez de explicar. A câmera se deixa afetar pelos gestos e pela criação coletiva”, explica Pablo.
Na condução estética, Lobato priorizou uma abordagem observacional, evitando explicações didáticas ou interferências excessivas. A câmera se aproxima dos detalhes do trabalho coletivo e dos gestos em cena, enquanto a montagem articula as duas criações teatrais como percursos que se cruzam.
O desenho de som assume papel central na construção da atmosfera e da percepção do tempo, reforçando a proposta de acompanhar as transformações vividas pelos estudantes sem enquadrá-las em interpretações fechadas.“Na montagem, as duas peças dialogam como trajetórias paralelas, enquanto o som ajuda a construir a sensação do tempo vivido. O filme acompanha as mudanças sem tentar traduzi-las em definições”, complementa.
Jovens, arte e vida
Ao refletir sobre o impacto de montar clássicos como Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, e A Flauta Mágica, de Wolfgang Amadeus Mozart, o diretor Pablo Lobato avalia que a vivência direta com essas criações altera a maneira como os jovens se relacionam com a arte.
Segundo ele, ao invés de permanecerem como referências consagradas e distantes, as obras ganham corpo na experiência cotidiana dos estudantes, que passam a atravessar seus dilemas e questões a partir das próprias inquietações da juventude.
“Quando os estudantes encenam essas obras, elas deixam de ser algo distante e passam a ser vividas na prática. Eles atravessam conflitos e perguntas a partir da própria idade e do próprio corpo. Nesse movimento, arte e vida se aproximam. O clássico deixa de ser apenas conteúdo de estudo e se transforma em experiência. Em Grande Sertão: Veredas, por exemplo, há um aprendizado sobre como lidar com as dualidades sem reduzi-las a opostos rígidos”, detalha Pablo.
Fontes de Pedagogia
Ao comentar a dimensão formativa de Oroboro, o diretor Pablo Lobato afirma que o filme não pretende oferecer receitas pedagógicas, mas tornar visível uma vivência em que arte e educação se fortalecem mutuamente. Em contraste com visões que reduzem a adolescência a diagnósticos, a obra evidencia a potência criativa dos jovens quando eles ocupam o centro do processo.
“O filme não propõe um modelo. Mostra uma experiência em que criação e formação caminham juntas. Quando a arte deixa de ser acessória, os jovens se tornam sujeitos do próprio aprendizado. A criação abre espaço para escuta, responsabilidade e relação com o outro”, finaliza.
A produção executiva é assinada por Marcus Leskovsek, que também divide a produção com o diretor Pablo Lobato. O projeto é realizado pela Claroescuro, com fotografia do próprio Lobato e roteiro desenvolvido por Daniel Tavares.
A montagem leva a assinatura de Luiz Pretti em parceria com o diretor, enquanto o desenho de som é construído por Lobato, Pedro Aspahan e Nelson Pimento Soares Filho. A trilha sonora original é do grupo mineiro O Grivo, reconhecido por pesquisas sonoras autorais.
Serviço: A exibição acontecerá hoje, 4 de março de 2026, às 19h, no Museu da Imagem e do Som, localizado na Av. Fernando Corrêa da Costa, 559 – 3° andar.
Amanda Ferreira
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