Em meio a pedido de intervenção, atrasos e falta de ônibus se repetem na Capital

Fotos: Roberta Martins
Fotos: Roberta Martins

Entre as queixas estão linhas que não passam, superlotação e redução de horários sem aviso

 

A espera pelo ônibus tem ultrapassado o tempo previsto nas tabelas de horário e se transformado em incerteza para quem depende do transporte coletivo em Campo Grande. Relatos de veículos que não passam, atrasos constantes e superlotação se repetem em diferentes regiões da cidade, do Terminal Bandeirantes ao Centro e aos bairros mais afastados.

Na última quarta-feira (25), um passageiro denunciou a ausência da linha 309 (Caiobá) no Terminal Bandeirantes. Segundo ele, o coletivo previsto para às 18h50 não apareceu. “Fiquei no Terminal Bandeirantes desde às 18h35 esperando o ônibus 309 (Caiobá), que deveria passar às 18h50, mas não passou. Essa situação é frequente. A linha 309 não tem regularidade e quem depende dela nunca sabe se o ônibus vai passar ou não”, relatou. Sem a opção esperada, aguardou outra linha que faz trajeto mais longo e afirma ter levado quase três horas para chegar em casa. “Saí do trabalho às 18h e levei quase três horas para chegar em casa, isso é revoltante”, disse.

No mesmo terminal, moradores do Portal Caiobá afirmam que o número de linhas diminuiu após a pandemia. A usuária Cristian Rodrigues, de 50 anos, relata que antes havia mais opções de saída para o bairro. “Antes da pandemia, a gente tinha três linhas saindo daqui e duas saindo do Terminal Aero Rancho. Depois da pandemia, ficou só essa linha aqui [302].”, afirmou. Segundo ela, a linha 309 é colocada apenas em alguns horários da tarde e não faz o mesmo percurso completo. “É péssimo, é terrível. O Caiobá é a pior linha de todas aqui”, disse. Ela também relata que, em horário de pico, o ônibus de linha 321 que sai do centro e vai até o bairro já chega cheio e não para no terminal. “Vem tão cheio que ele já vai embora”, afirmou.

A queixa sobre lotação e atrasos não se restringe a uma única região. No Centro, passageiros da linha 081, afirmam que o coletivo já chega cheio no ponto da Praça Ary Coelho. A moradora Basília Garcia, de 49 anos, utiliza o ônibus diariamente para trabalhar. “O transporte está péssimo e vive com atraso. Nesse horário que eu volto para casa ele já está lotado”, relatou. Para ela, a situação é generalizada. “O transporte público não é bom não, está complicado e não é só questão do 081, é no geral mesmo.”

Nos bairros mais distantes, o tempo dentro do ônibus também pesa na rotina. Moradora do Distrito de Anhanduí, Marlene de Paula Bezerra, de 56 anos, afirma que passa cerca de duas horas no trajeto até o trabalho e o mesmo tempo na volta. “Péssimo, horrível. O ônibus cheio, o ônibus lotado, todos os dias. Os ônibus são demorados”, disse. Ela também reclama das condições dos veículos. “São poucos que têm ar-condicionado. Sujo, muito sujo e lotado.”

No Jardim Leblon, a jovem Gabrielly de Andrade, de 24 anos, diz que não há mais horário considerado tranquilo. “Sempre lotado, não vejo mais nenhum horário vazio”, afirmou. Sobre os atrasos, relata que a espera ultrapassa o tempo previsto nos aplicativos. “É muito raro algum estar no horário. Às vezes passam 20 minutos atrasados. A gente olha o horário no Google e lá marca que já passou, mas você já está há 30 minutos no ponto e não passou.”

 Redução de horários

Passageiros que utilizam a linha 082, responsável pelo trajeto entre o Terminal Aero Rancho e o Shopping Campo Grande, também apontam mudanças nos horários da manhã, justamente no período de maior movimento, entre 5h e 7h. De acordo com os relatos, a quantidade de ônibus em circulação nesse intervalo teria sido reduzida, o que intensificou a lotação e ampliou os atrasos para quem precisa chegar ao trabalho nas primeiras horas do dia. Usuários afirmam ainda que um dos horários deixou de constar na grade divulgada e que outro, embora ainda apareça na programação oficial, não estaria sendo realizado na prática.

O transporte coletivo da Capital é operado pelo Consórcio Guaicurus e enfrenta questionamentos na Justiça. Em dezembro, o sistema ficou paralisado por quatro dias após atraso no pagamento de salários aos motoristas. A greve foi encerrada após audiência no Tribunal Regional do Trabalho da 24ª Região.

Procurada sobre as reclamações, a Agetran informou, em nota, que realiza fiscalização contínua do serviço prestado pelo consórcio, acompanhando cumprimento de horários e itinerários. Segundo o órgão, quando constatada irregularidade, a concessionária é autuada e pode receber multa prevista na legislação municipal.

O Jornal O Estado também procurou o Consórcio Guaicurus para comentar as reclamações dos usuários. No entanto, até o fechamento desta edição, não houve retorno.

Isenção de imposto e processo de intervenção no Consórcio Guaicurus

A Câmara Municipal de Campo Grande analisa o Projeto de Lei Complementar protocolado pela Prefeitura na última quinta-feira (26), que mantém a isenção do ISSQN (Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza) sobre o transporte coletivo urbano. Caso aprovado, o município deixará de arrecadar o valor estimado em R$11 milhões.
O benefício é concedido desde 2013 e é considerado pela Prefeitura como necessário para evitar que o munícipe arque com aumento na tarifa. Pelo texto, a isenção terá vigência entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2026.

A votação do projeto que havia sido barrado no final do ano passado deve ocorrer na próxima semana em meio a um processo de intervenção no Consórcio Guaicurus. A Prefeitura, a Agetran e a Agereg devem iniciar investigação administrativa sobre o contrato e nomear um interventor até 9 de março de 2026.

A determinação é da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos e prevê multa diária de R$300 mil em caso de descumprimento, limitada a 100 dias. O valor pode chegar a R$30 milhões, além do possível bloqueio de recursos públicos.

 

Por Biel Gill e Kadu Bastos

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