Entre os estados com maior projeção de aumento de plantio estão Maranhão (58%), Mato Grosso do Sul (16,4%), Tocantins (16%), Mato Grosso (13,4%) e Pará (12,9%)
O crescimento acelerado do sorgo na segunda safra em Mato Grosso do Sul mostra que a cultura deixou de ser apenas uma alternativa para momentos de risco e passou a integrar, de forma planejada, as decisões econômicas do produtor rural.
Nas últimas 5 safras, a área cultivada no Estado saltou de pouco mais de 5 mil hectares para perto de 400 mil hectares, expansão superior a 7.700%, conforme dados do SIGA (Sistema de Informações Geográficas do Agronegócio), ferramenta gerida pelo Governo do Estado por meio da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciencia, Tecnologia e Inovacao) em parceria com a Aprosoja MS.
Os números do SIGA indicam que a virada mais clara ocorre a partir da safra 2021/2022, quando o sorgo começa a ocupar áreas maiores e ganhar escala. Após oscilações naturais, a cultura volta a avançar com força na safra 2024/2025, praticamente dobrando de tamanho.
Segundo o secretário da Semadesc, Jaime Verruck, o movimento não é pontual. “Não é casual, é estratégia. A leitura dos dados mostra que o fator decisivo para a expansão do sorgo é o mercado, especialmente a demanda criada pelas usinas de etanol de milho instaladas no Estado”, afirma.
Ele explica que, embora o sorgo sempre tenha sido conhecido pelo produtor, sua expansão era limitada pela falta de demanda estruturada. “Isso mudou quando as indústrias passaram a firmar contratos de compra, garantindo previsibilidade, escala e segurança econômica”, pontua.
Concentração regional e gestão de risco
Na safra mais recente, cerca de metade de toda a área de sorgo de segunda safra concentrou-se em dez municípios, com destaque para Ponta Porã e Maracaju, seguidos por Bonito, Bela Vista e Sidrolândia. O desenho territorial indica avanço justamente em regiões onde o milho enfrenta maiores limitações climáticas ou janela de plantio mais curta, funcionando como instrumento de gestão de risco.
Para o secretário-executivo de Desenvolvimento Econômico Sustentável da Semadesc, Rogério Beretta, os dados mostram que o sorgo vem se firmando como alternativa viável para a safrinha. “Por ser mais resistente às intempéries climáticas e a problemas sanitários, o sorgo se encaixa melhor em áreas marginais, onde o milho teria mais dificuldade”, explica.
Beretta acrescenta que a consolidação das usinas de etanol de cereais alterou a lógica do plantio. Com mercado garantido, contratos e estrutura de armazenagem disponíveis, entraves históricos foram superados. “Essas condições, que antes eram obstáculos, hoje dão segurança ao produtor para investir no sorgo”, avalia.
Brasil amplia produção
No cenário nacional, o avanço também é expressivo. A produção brasileira, que era de 2,3 milhões de toneladas em 2011, caiu para cerca de 1 milhão cinco anos depois e voltou a superar 4 milhões a partir de 2023. Para a safra 2025/2026, a estimativa é de 6,7 milhões de toneladas — volume 219% superior ao registrado em 2020/2021, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Na safra 2024/2025, o Brasil cultivou 1,632 milhão de hectares com sorgo. Para 2025/2026, a expectativa é de crescimento de 11,3%, alcançando 1,816 milhão de hectares. Entre os estados com maior projeção de aumento de plantio estão Maranhão (58%), Mato Grosso do Sul (16,4%), Tocantins (16%), Mato Grosso (13,4%) e Pará (12,9%), especialmente em regiões com atraso na soja e encurtamento da janela ideal para o milho. Atualmente, Mato Grosso do Sul ocupa a quarta posição entre os maiores produtores do país.
Novos mercados e pesquisa
Tradicionalmente destinado à alimentação de suínos e aves, o sorgo também ganha espaço nos confinamentos bovinos e na indústria de etanol. Antes, o produtor precisava buscar compradores após a colheita. Hoje, o cenário é inverso.
“Antes o produtor colhia e corria atrás de mercado. Agora são as empresas que buscam os produtores”, afirma Cícero Bezerra de Menezes, pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo.
A pesquisa também mira novos nichos, como a alimentação humana e o mercado pet. Menezes explica que, para esses segmentos, é necessário desenvolver variedades com tanino — substância que se liga às proteínas e reduz a digestibilidade. Enquanto o sorgo sem tanino é mais indicado para aves, a versão com tanino pode atender demandas específicas da alimentação humana e de animais de estimação.
Para Verruck, o caso do sorgo em Mato Grosso do Sul demonstra que, quando há mercado estruturado, contratos e visão de longo prazo, a cultura ganha escala e reduz riscos. Nesse contexto, as usinas de etanol de milho cumprem papel estratégico ao integrar produção agrícola, bioenergia e sustentabilidade, fortalecendo cadeias locais e ampliando o uso eficiente do solo.
Por Ana Krasnievicz
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