20 setembro 2020, 19:11
Crédito: Nilson Figueiredo

Entrevista da Semana é com o vereador Vinicius Siqueira

Vindo dos movimentos Fora Dilma! candidatura cai no colo de vereador recém-ingresso no PSL, na qual se denomina como nome da direita na disputa pela prefeitura e indaga: “Onde você estava em 2016?”

Parlamentar mais crítico da Câmara Municipal de Campo Grande, talvez, se o projeto fosse a reeleição, já seria um favorito ao retorno para o segundo mandato. Porém o desafio político deve ser mais ousado neste ano. Isso porque, após uma reviravolta no PSL, Vinicius Siqueira passou a ser o nome da vez do partido. E a ser também um eventual protagonista da direita na futura campanha, sendo assim um dos principais adversários de Marquinhos Trad nas eleições.

‘Se como vereador eu pude apurar a fundo os contratos, como prefeito poderia muito mais’, fala Vinicius

Ao jornal O Estado, em visita na qual participou do quadro Take1, o vereador fez uma análise do atual desafio, explicou a sua bandeira de trabalho, as investigações que capitaneou no Legislativo, e fez até reflexão sobre o Governo Bolsonaro. Com a coragem de sempre, buscando como de costume a atuação genuína, uma marca que carrega desde o envolvimento nos movimentos de rua. Quando ser da direita não era moda! Confira a entrevista:

O Estado: Afinal, como foi definida a sua pré-candidatura? Por quem, quando e como?
Siqueira: O próprio Capitão Contar já tinha dito que não seria muito justo participar das eleições municipais como candidato do PSL, sendo que ele tem a intenção de sair do partido e compor o Aliança pelo Brasil, partido que o presidente Jair Bolsonaro pretende constituir. Ele optou por não concorrer às eleições e o partido precisava de outro nome. Como eu tenho me destacado na Câmara Municipal com as ações de investigações, acho que foi até natural a minha escolha.

O Estado: Você acredita que terá apoio do deputado Capitão Contar e da senadora Soraya ou vê novo racha no PSL de MS?
Siqueira: Acredito que sim (apoio). Inclusive na própria CPI da Energisa auxiliei (o Contar) nos trabalhos. Tenho muita simpatia pelo seu trabalho e sei que ele tem pelo meu. Acho que este apoio seria de forma natural. A gente não sentou para conversar, isso será feito muito breve. A afinidade entre nós existe e vai acontecer de forma natural.

O Estado: O senhor acredita que a “onda Bolsonaro” permaneça a ponto de influenciar nas eleições municipais?
Siqueira: Gostaria que esta “onda Bolsonaro” chegasse à versão 2.0… Todos sabem que venho dos movimentos de rua. Apoio todas as pautas que o governo levanta. Só que a gente tem de implementar com mais força o combate à corrupção. Isso tem de ser feito de forma mais incisiva. A gente precisa criar os mecanismos. O Brasil assinou diversos tratados internacionais relacionados ao combate à corrupção; por exemplo: a gente não tem a figura da corrupção privada. Isso foi assinado e o país precisa implementar. Isso está atrasado e o Governo Bolsonaro precisa se empenhar um pouco mais. Estou gostando de tudo que estou vendo – à exceção de alguns assuntos e declarações que poderiam ter feito de forma diferente –, mas o que mais utilizo e que eu preciso como ferramenta para meu trabalho de combate à corrupção é que essas implementações sejam feitas.

O Estado: Chegou a conversar com o presidente? Ou qual relação que gostaria ter com ele?
Siqueira: Eu estive com ele quando foi receber, em Campo Grande, a Medalha Tiradentes da Polícia Militar. Na época, quando era parlamentar, ele riu de mim sobre a minha conversa. Porque eu cheguei falando que, quando era deputado federal, ele tinha de verba parlamentar R$ 4 milhões na Câmara dos Deputados e fez o que de ação ao combate à corrupção? Bolsonaro começou a rir e me explicou do trabalho em local reservado… É uma cobrança que eu faço sobre ele. O presidente é uma pessoa bem-intencionada. Ele tem o jeito um pouco diferente de fazer comunicação. Mas é minha crítica ao Governo Bolsonaro. Precisa apertar um pouco mais o combate à corrupção. Implementar as ferramentas para melhorar a estrutura no Brasil.

O Estado: Nesta eleição há outros pré-candidatos ligando-se ao nome do presidente; como fará para que seu projeto seja mais vinculado?
Siqueira: Aqui, quando começaram os movimentos Fora Dilma!, as grandes manifestações contra a esquerda, o PT ou Lula, nós tomamos conta de parte da coordenação, tanto em nível municipal como nacional. No dia da votação do impeachment na Câmara dos Deputados, eu estava em cima do caminhão de som, junto com a Carla Zambelli lá em Brasília-DF, organizando a manifestação. Naquela época era muito difícil ser de direita pois o governo federal era de esquerda, com MST muito forte. As pessoas tinham receio de aparecer em um movimento de direita. As pessoas chegavam para mim e diziam: “A direita nunca vai eleger ninguém. Pra que está fazendo isso?”. Bom, primeiro não estava fazendo por eleição, estava fazendo porque eu acredito. Eu não aguentava mais esse governo corrupto do PT e quero mudanças. Se as pessoas estão mais direita é porque ficou mais fácil com deputados, senadores e presidente da República que pensam assim. A pergunta que eu faço a estes candidatos que dizem que são de direita é o seguinte: “Onde você estava em 2016?”. É que a gente precisava de pessoas, precisamos de dinheiro, de organização para tocar o protesto. Aqueles caminhões de som não “caíam do céu”. Aquilo era pago por manifestantes, com dinheiro suado. E nessa época não tinha ajuda. Estes candidatos de direita que levantam a bandeira da direita não estavam em Campo Grande. Onde eles estavam? Eu nunca abandonei minha bandeira. Sou um político da direita, mas com ênfase no combate à corrupção.

O Estado: Em MS e Campo Grande os resultados finais foram diferentes na pré-campanha; neste ano terá zebra?
Siqueira: Nós temos em Campo Grande um grande problema que são os institutos de pesquisa. Na minha eleição para vereador, chegaram a dar em primeiro lugar, com larga vantagem, um vereador que sequer foi eleito. A gente passa cada vez mais a questionar as pesquisas eleitorais. Sabemos que várias têm problemas, são divulgadas às vezes por interesse e fica um alerta à população. Tome cuidado com divulgações de pesquisas eleitorais, elas têm errado muito e trazem resultados para induzir as pessoas. Nós não vimos isso aqui só em MS, na própria campanha presidencial falavam o tempo todo que o Bolsonaro sequer iria para o 2º turno, ficou em primeiro lugar e venceu com facilidade no segundo. Tomem muito cuidado com as pesquisas. As pessoas que podem aparecer como zebra na verdade podem estar à frente e só apenas não sendo divulgadas.

O Estado: O eleitor de Campo Grande tem perfil conservador; isso te anima?
Siqueira: Sim. Campo Grande tem um perfil muito conservador. É uma cidade que tem boa educação, digo em nível escolar. A gente tem um alto IDH. Um dos melhores do Brasil. Campo Grande é uma cidade muito rica e esclarecida. Quando levanto todas as minhas pautas de combate à corrupção, explicando às vezes assuntos técnicos, há pessoas que falam que ninguém vai entender. Mas entendem. Aqui em Campo Grande as pessoas entendem… Isso é muito bom, quanto mais educada e instruída a população, melhor escolhe seus representantes e melhor a cidade anda. Então, fico muito feliz em poder fazer estas discussões um pouco mais técnicas no meu mandato de vereador.

O Estado: O mandato na Câmara ficou marcado por ser o mais crítico à gestão do prefeito. Não há nada de positivo na administração?
Siqueira: Não… Eu cheguei a votar com Marcos Trad. Inclusive o prefeito passou a reforma da Previdência municipal… As reformas da Previdência foram as mais delicadas dos governos no último período. Eu entendi que a reforma ajudou muito o servidor. Porque aumentou a contribuição patronal – aumentou a contribuição que o município gasta. Até porque o dano causado na Previdência foi, segundo estudo da Câmara, em boa parte causado pelo próprio município. Era um projeto de lei que favorecia e votei a favor. Um projeto do Executivo.

O Estado: Você foi responsável pela CPI do Táxi, abriu investigações contra o FlexPark e também contra o Consórcio Guaicurus. Por que os resultados dessas iniciativas não foram aquilo que a população tanto espera de mudanças?
Siqueira: Tem de se analisar por partes. Primeiro, a CPI do Táxi nos deu força para abrir aqui o mercado dos aplicativos. Quem inclusive trouxe a Uber para Campo Grande fomos nós, para que o monopólio dos táxis, e do transporte público fosse quebrado. Então nós conseguimos isso, e se o campo-grandense anda hoje com os motoristas de aplicativo, foi pelo trabalho desenvolvido lá atrás nessa investigação. Relacionado à FlexPark, vale lembrar que nós apuramos tudo que envolve a concessão e isso atualmente está ajuizado. E a vara onde está esse processo se encontra sem juiz há mais de dois anos. Um processo concluído para julgar. Só basta um magistrado sentar, analisar e decidir baseando-se nas provas. No caso dos ônibus, não, é uma ação nova, ajuizada agora, há menos de um mês; o juiz já emitiu os mandados com intimação às empresas, e espero que o desencadeamento seja o melhor para a população. O Ministério Público está de olho nisso e garanto que não acabará em “pizza”, assim como também o da FlexPark.

O Estado: O senhor foi servidor público e depois vereador. Como seria administrar uma cidade do tamanho de Campo Grande sem experiência na gestão pública?
Siqueira: Eu sou formado em Direito, não sou advogado. Com pós-graduação em várias áreas da lei, e quem acompanha o meu mandato sabe que eu tenho uma característica muito técnica. Um exemplo disso foi no estudo de desassoreamento do lago do Parque das Nações Indígenas, em que apontamos um caminho, e, infelizmente, as autoridades fizeram o contrário. No problema dos ônibus, a expertise que buscamos foi em parceria com universidade, e aí cito a vinda à Campo Grande de um pós-doutor da USP (Universidade de São Paulo) para fazer a análise do sistema todo, portanto há uma proposta clara de atuação. Quanto a essa pergunta, garanto que seguiria com a mesma característica, tendo muito critério com todos os contratos do município. Se como vereador já consegui fazer essa análise dos contratos, como prefeito poderia realizar isso no atacado, em virtude da maior estrutura. Siqueira: Eu não gosto que as pessoas tratem política como futebol, como um Fla-Flu, e defender o político, aconteça o que acontecer. Nós não temos de defender pessoas, e sim ideias. A minha ideia é a defesa no combate da corrupção. Quando as pessoas se decepcionam com as pessoas que estão nos cargos públicos, é normal esse sentimento de se abandonar a discussão política, e de até não votar. As ideias não podem morrer, ainda mais esta de combate à corrupção. E deixar de votar não é o caminho, e sim refletir bem nas escolhas de cada eleição.

(Texto: Bruno Arce e Danilo Galvão)

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