Violência nas escolas: 40% das ocorrências da Deaij têm origem em conflitos no ambiente escolar

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Delegada aponta crescimento de casos entre adolescentes, inclusive com maior participação de meninas, enquanto redes municipal e estadual reforçam ações de prevenção e formação

Conflitos iniciados dentro ou a partir do ambiente escolar estão por trás de uma parcela significativa dos atendimentos da Deaij (Delegacia Especializada de Atendimento à Infância e Juventude) em Mato Grosso do Sul. Segundo a delegada Daniela Kades, “40% das ocorrências da Deaij ocorrem em ambiente ou têm início em decorrência de atritos havidos na escola”, o que evidencia o impacto direto das relações escolares na escalada de atos infracionais entre adolescentes.

De acordo com a delegada, os registros mais frequentes envolvem lesões corporais, vias de fato e ameaças, seguidos por injúrias e difamações. “Esses são os atos infracionais mais recorrentes na escola”, afirma. As ocorrências chegam à delegacia principalmente por meio de boletins de ocorrência registrados por pais ou responsáveis, encaminhamentos feitos pelas próprias escolas e atendimentos do Conselho Tutelar.

Daniela explica que nem toda agressão verbal ou postagem ofensiva caracteriza crime específico como bullying ou cyberbullying. “Para que haja a configuração do bullying e cyberbullying é necessário que o ato de violência ocorra com repetição. Assim, publicações isoladas em redes sociais e xingamentos esporádios não configuram tais atos infracionais”, esclarece.

Conflitos raramente são isolados

Casos mais graves, segundo a delegada, dificilmente surgem de forma repentina. “Dificilmente uma lesão corporal grave ou tentativa de homicídio em ambiente escolar se trata de algo pontual. Normalmente estão relacionados a desentendimentos e ameaças anteriores, ou bullying, por exemplo”, afirma.

Outro dado que chama atenção é o aumento da participação de meninas em atos violentos. “Infelizmente vem aumentando bem a participação de meninas em atos graves como tentativas de homicídio e lesão com arma branca. Acredita-se que as meninas queiram se igualar em comportamento com os meninos. A grande maioria dos casos está relacionada à briga por namorados ou ex-namorados”, relata.

O avanço tecnológico também aparece como fator determinante no crescimento dos conflitos. “A falta de supervisão dos pais e a ideia errada de que a internet não possui regras é muito enraizada nos jovens. Eles ficam on-line a maior parte do dia e acabam publicando o que não devem, incidindo na prática de atos infracionais”, explica Daniela.

Apesar disso, a delegada destaca que o contato com o sistema de Justiça pode funcionar como fator educativo. “Quando o jovem é intimado a comparecer numa Delegacia de Polícia, normalmente ele percebe que o que cometeu tem consequências. Se bem orientado, principalmente pela família, a tendência é não reincidir”, diz.

Todo boletim de ocorrência gera procedimento formal. “Após concluído, ele é encaminhado ao Ministério Público e, consequentemente, ao Poder Judiciário. A escola, sempre que verifica atos mais gravosos, encaminha a incidência à Deaij”, afirma.

Para a delegada, o caminho principal é a prevenção. “Por isso realizamos muitas palestras todos os anos sobre bullying, cyberbullying e drogas”, afirma. Ela também faz um apelo às famílias: “As famílias devem ser mais vigilantes e firmes com os adolescentes. Amar é cuidar. Princípios, respeito e disciplina se aprendem em casa; a escola apenas os reforça”.

Educação como eixo de prevenção

Na SED-MS, rede estadual, o secretário de Educação, Hélio Daher, afirma que temas como violência de gênero, machismo e respeito já fazem parte das políticas educacionais e serão reforçados em 2026.
“Essas ações estão em pauta em duas estruturas distintas: a inserção do tema no currículo das escolas e as parcerias com o Tribunal de Justiça e o Ministério Público, levando para as nossas escolas o entendimento da necessidade do respeito, da harmonia e do trabalho com esses conceitos para evitar a violência que vem assolando o país.”

Já na rede municipal, a chefe do Planejamento da Semed (Secretaria Municipal de Educação), Fernanda Duarte, destaca que 2025 foi marcado por avanços estruturais e pedagógicos, criando ambiente mais favorável à aprendizagem e à convivência.

“Foi um ano bem intenso, mas com muitas coisas boas. Entregamos uma nova EMEI, ampliamos salas de aula, fizemos a repactuação do piso dos professores, recebemos o selo ouro de alfabetização e o selo Petronilha”, afirma.

Ela também destaca o foco em formação e recomposição da aprendizagem. “A formação continuada de todos os profissionais da escola e o programa Aprender Mais na Rede, voltado aos alunos com defasagem da pandemia, tiveram impacto direto nos nossos resultados”, diz.

Segundo Fernanda, os dados preliminares indicam redução da evasão escolar e alta participação dos alunos nas avaliações externas. “Mais de 90% participaram do Saeb, e nossos levantamentos indicam que a evasão não aumentou – pelo contrário, caiu”, afirma.

Para 2026, a Semed pretende ampliar vagas para crianças de 0 a 3 anos, melhorar o atendimento à educação especial e continuar a revitalização das unidades. “Nosso foco continua sendo formação, melhoria do ambiente escolar e entrega de resultados na alfabetização”, reforça.

Um problema complexo, uma resposta compartilhada

Os dados e relatos mostram que a violência escolar não é um fenômeno isolado, mas resultado de uma combinação de fatores sociais, familiares, tecnológicos e institucionais. A delegada Daniela Kades resume o desafio: conter a violência exige atuação conjunta de família, escola, Estado e Justiça. “A prevenção ainda é o melhor caminho”, conclui.

Por Suelen Morales

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