Experiência de quem contratou e análise técnica indicam que a linha só é vantajosa em situações específicas
Criado para ampliar o acesso ao crédito consignado entre trabalhadores da iniciativa privada, o Crédito do Trabalhador completa um ano em março sob avaliação crítica sobre seus efeitos no orçamento das famílias. Apesar de operar com juros inferiores aos praticados em linhas tradicionais, a modalidade não representa, necessariamente, uma solução financeira e pode aprofundar o endividamento quando utilizada sem planejamento.
A análise é da educadora financeira Sabrina Mestieri, que chama atenção para a diferença entre juros menores e crédito saudável. “Do ponto de vista técnico, costuma ter juros menores do que cartão de crédito, cheque especial ou empréstimos pessoais tradicionais. Porém, isso não significa que seja uma opção segura e muito menos que sejam juros bons e baixos. Juros menores que um crédito rotativo não transformam dívida em solução”, afirma.
Segundo ela, o desenho do programa favorece a segurança das instituições financeiras, mas transfere o risco para o trabalhador. “O desconto é feito diretamente em folha, o que torna o crédito extremamente seguro para os bancos. Para o trabalhador, só faz sentido quando há planejamento, controle financeiro e clareza sobre o impacto dessa decisão no orçamento mensal”, avalia.
Na prática, o desconto automático pode mascarar o peso da dívida. “Quando o valor é abatido antes mesmo de chegar à conta, o trabalhador perde a percepção real do quanto aquela parcela compromete sua renda. Isso cria a sensação constante de que o salário nunca é suficiente”, explica.
Para Sabrina, o consignado do CLT só é recomendável quando utilizado de forma estratégica. “Faz sentido na substituição de dívidas mais caras, com prazo definido, planejamento e controle financeiro. Fora disso, principalmente quando usado para consumo ou despesas recorrentes, tende a agravar a situação financeira”.
Impacto no orçamento
O social media Allan Gabriel, que contratou o crédito, diz que a decisão trouxe mais problemas do que solução. “Estava precisando de dinheiro na época, mas me arrependo profundamente de ter pego”, relata.
Segundo Allan, as condições não se mostraram vantajosas. “Os juros eram muito altos e eu não estava preparado para os descontos na folha”, afirma. O impacto no orçamento foi imediato. “Minha vida financeira ficou um caos”, resume.
Hoje, ele diz que não repetiria a decisão. “Nunca mais. Às vezes a gente acha que precisa do dinheiro naquele momento, mas no fim acaba saindo mais prejudicado com o empréstimo”, relata.
‘Empréstimo CLT’
O Crédito do Trabalhador entrou em vigor em 21 de março de 2025 e permite a contratação de empréstimos consignados por trabalhadores com carteira assinada, com parcelas descontadas mensalmente via eSocial. A modalidade também pode utilizar parte do saldo do FGTS como garantia, respeitando os limites legais.
Em Mato Grosso do Sul, foram registrados mais de 52 mil contratos, com liberação de aproximadamente R$ 286 milhões a trabalhadores do Estado.
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- Débora Vieira, vendedora “Fui simular no aplicativo como seria e me deparei com os juros altos. Ali, já imaginei que poderia ser ruim futuramente.”
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- Eliane de Souza, empreendedora “Parece bom, dá a impressão de que vai ajudar, mas esse tipo de empréstimo precisa ser bem organizado.
Fotos: Roberta Martins
Leitura econômica do programa
O economista Renato Gomes faz uma avaliação estrutural do Crédito do Trabalhador e pondera que, após um ano de vigência, os resultados observados são coerentes com os objetivos iniciais da política pública, ainda que apresentem limitações.
“O principal mérito do programa foi ampliar o acesso ao crédito para trabalhadores formais que antes estavam restritos a linhas muito caras, como o crédito pessoal sem garantia, o rotativo do cartão ou o cheque especial. Nesse sentido, ele cumpriu a função de substituição de dívida ruim por dívida menos onerosa, o que é relevante do ponto de vista de bem-estar econômico e estabilidade financeira das famílias”, afirma.
Ele destaca que o Crédito do Trabalhador tende a ser mais vantajoso que o crédito pessoal tradicional. “Ele oferece maior previsibilidade e custo efetivo total inferior às alternativas mais comuns desse segmento. Ainda assim, não deve ser visto como solução universal. Trata-se de uma melhora relativa importante dentro das imperfeições do mercado de crédito brasileiro, mas não de uma ruptura estrutural com o alto custo do crédito no país”, conclui.
Por Djeneffer Cordoba
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