Volatilidade beneficia petrolíferas e ativos de risco, mas não sustenta pressão sobre combustíveis
A prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelo governo dos Estados Unidos, no sábado (3), não altera o quadro estrutural do mercado internacional de petróleo, avaliam especialistas. Apesar de deter a maior reserva do mundo, a Venezuela responde hoje por menos de 1% da produção global, após anos de sanções, desinvestimento e deterioração operacional da estatal PDVSA.
Na abertura das bolsas asiáticas, os contratos do petróleo chegaram a recuar até 1,2%. Ao longo do pregão, porém, o movimento foi revertido, com o Brent ultrapassando a marca de US$ 61 por barril e o WTI operando em alta moderada. A oscilação coincidiu com a decisão da Opep+ de manter inalterados os níveis de produção no primeiro trimestre e com a reação positiva dos mercados financeiros, especialmente de ações de petrolíferas norte-americanas.
Em 2025, o petróleo acumula queda superior a 18%, a maior desde 2020, pressionado por um ambiente de excesso de oferta, crescimento moderado da demanda global e avanço gradual das fontes renováveis. Nesse cenário, especialistas dizem que a valorização recente aconteceu mais por causa de ajustes especulativos e mudanças nos investimentos, e não por uma alteração fundamental na oferta de produtos ou serviços.
Distribuidoras em MS
Para o diretor da Sinpetro-MS (Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo e Lubrificantes de MS), Edson Lazaroto, o impacto do episódio permanece concentrado no curto prazo. “Crises geopolíticas elevam a volatilidade e estimulam movimentos financeiros, mas não há fundamento para uma alta sustentada do petróleo”, afirma. Segundo ele, mesmo em um cenário de prolongamento do conflito, a capacidade produtiva venezuelana não é suficiente para tensionar o mercado internacional.
Lazaroto ressalta que, além do baixo volume, o petróleo venezuelano apresenta limitações técnicas. “Trata-se de um óleo pesado, com menor valor agregado e alto custo de extração. Uma retomada relevante da produção exigiria tempo, capital intensivo e estabilidade institucional”, explica.
No Brasil, fatores como a produção nacional, a maior participação de biocombustíveis e a diversificação das fontes de importação funcionam como amortecedores de choques externos, ainda que oscilações pontuais de preços não possam ser descartadas em períodos de maior instabilidade.
Análise econômica
Em Mato Grosso do Sul, os reflexos esperados seguem sendo indiretos. O economista Eugênio Pavão avalia que a principal sensibilidade do Estado está nos custos logísticos. “O impacto não decorre de escassez de petróleo, mas de variações no diesel e no câmbio, que afetam cadeias intensivas em transporte, como frigoríficos, agronegócio e indústria de base”, analisa.
Segundo Pavão, não há expectativa de efeito direto sobre as exportações do Estado, mas a volatilidade dos indicadores econômicos pode influenciar custos e decisões de planejamento. “Oscilações no dólar, no petróleo e em metais como ouro interferem na formação de preços, mesmo sem alteração nos volumes produzidos”, afirma.
Vinda de venezuelanos
Outro ponto de atenção é o mercado de trabalho. Mato Grosso do Sul figura entre os principais destinos de trabalhadores venezuelanos, sobretudo na indústria da carne e no setor de serviços. Um eventual agravamento da crise política pode ampliar esse fluxo, com impactos sobre a oferta de mão de obra e a demanda por serviços públicos.
Para o ex-diretor-geral da ANP (Agência Nacional do Petróleo), David Zylbersztajn, o cenário atual não sustenta mudanças estruturais nos preços da commodity. “O mercado segue operando com oferta confortável e demanda contida. Movimentos de alta associados à crise tendem a ser temporários”, afirma.
Por Djeneffer Cordoba