“Não abandone seu emprego para virar motorista de aplicativo”, afirma profissional
A dinâmica do transporte por aplicativo em Mato Grosso do Sul tem passado por mudanças neste início de ano. Após um período de maior movimento no fim de 2025, quando usuários aceitavam com mais frequência os valores cheios das corridas, motoristas relatam que o cenário se inverteu. Com a queda na demanda típica do começo do ano, os passageiros passaram a optar novamente pelos valores negociáveis, pressionando ainda mais a renda dos profissionais.
Segundo motoristas, para não ficarem parados, muitos acabam aceitando corridas por preços abaixo do considerado ideal, o que compromete o pagamento de despesas fixas, como manutenção, combustível e impostos obrigatórios, entre eles o IPVA e o licenciamento do veículo.
O motorista Paulo, que deixou de fazer corridas em aplicativo, afirma que a prática tem se tornado cada vez mais comum. “O problema é que o motorista aceita para não ficar sem trabalhar, mas quando coloca tudo na ponta do lápis, percebe que muitas vezes está só girando o carro, sem lucro real”, relata.
Abandono da atividade se torna realidade
O cenário de custos elevados e tarifas reduzidas tem levado muitos profissionais a abandonar a atividade. Ex-motorista de aplicativo, Fuad Salamene afirma que a profissão deixou de ser viável economicamente.
“Não compensa mais. Você coloca um bem de R$ 80 mil na rua, com tarifas baixas, ruas em situação precária e ainda concorrendo com transporte clandestino, especialmente no serviço de motos. É um desgaste financeiro e emocional muito grande”, afirma.
Salamene também alerta para a presença de motociclistas irregulares atuando nas plataformas, muitas vezes sem habilitação ou com contas falsas. Segundo ele, a falta de controle contribui para o aumento de acidentes e deixa passageiros desassistidos. “A plataforma descobre que o piloto não é quem deveria ser e não paga assistência. Isso tem refletido no aumento de traumas médios e graves nos hospitais”, diz.
Para ele, o discurso de ganhos fáceis não condiz mais com a realidade. “No começo parece bonito, mas depois da primeira oficina o motorista não consegue mais se restabelecer. Muitos recorrem a empréstimos e acabam endividados. Hoje, digo com clareza para que não abandone seu emprego para virar motorista de aplicativo”.
Manutenção consome ganhos
Outro que deixou a atividade foi Diego, que chegou a operar com quatro veículos, sendo três alugados. Ele conta que os custos de manutenção passaram a consumir toda a renda. “Chegou um ponto em que eu trabalhava para pagar manutenção dos carros alugados. O valor do aluguel não cobria os custos e as contas pessoais começaram a atrasar”, relata.
Diante disso, decidiu vender os veículos e voltar a trabalhar como motoboy. “Hoje ganho mais na moto, gasto muito menos e tenho mais tempo com a família. No carro, eram corridas a preço de banana, combustível e manutenção nas alturas”.
Pressão financeira no início do ano
De acordo com o representante dos motoristas de aplicativo em MS, Leno Magper, a preocupação é generalizada. Ele explica que o início do ano tradicionalmente registra queda no número de corridas por conta das férias escolares e viagens, o que aumenta a pressão sobre os profissionais. “O motorista aceita valores abaixo do ideal para não ficar parado, mesmo sabendo que aquilo não cobre adequadamente seus custos”, afirma.
Magper destaca que os impactos econômicos são diretos. “O motorista arca sozinho com combustível, manutenção, depreciação, taxas das plataformas e impostos. Muitos ainda trabalham com veículos alugados, com custos semanais que chegam a R$ 950. Com tarifas baixas, a margem de lucro praticamente desaparece, aumentando o endividamento”, explica.
Segundo ele, há tentativas de diálogo com as plataformas, mas os avanços são limitados. A categoria também busca se organizar nacionalmente para discutir regras mais equilibradas. “Defendemos um modelo em que o motorista não seja o elo mais fragilizado da cadeia, arcando sozinho com todos os riscos”, conclui.
Por Gustavo Nascimento