Economia criativa: Sul-mato-grossenses conciliam trabalho de carteira assinada com artesanato para complementar renda

Com emprego formal durante o dia, trabalhadores apostam no crochê como segunda fonte financeira

Em um cenário econômico em transformação, muitos Sul-mato-grossenses que possuem emprego formal, com carteira assinada, têm buscado novas formas de complementar a renda por meio da economia criativa. Atividades como crochê, tricô, artesanato e outras expressões manuais ganham espaço entre trabalhadores que buscam mais flexibilidade, renda extra e realização pessoal.

A economia criativa em Mato Grosso do Sul representa cerca de 0,9% do Produto Interno Bruto (PIB) estadual, de acordo com o Mapeamento da Indústria Criativa 2025, realizado pela Firjan. Embora o percentual seja modesto diante da predominância do agronegócio na economia local, o dado demonstra crescimento em relação aos anos anteriores e revela que as atividades criativas têm espaço para se fortalecer no Estado.

Apesar da relevância cultural, o setor ainda enfrenta desafios, sobretudo a informalidade. A Firjan estima que, em MS, existam cerca de 7.181 trabalhadores formais ligados à economia criativa, incluindo áreas como design, moda, audiovisual, artes e tecnologia. Contudo, muitos artesãos e profissionais criativos atuam de forma informal, sem registro ou benefícios sociais, o que dificulta a mensuração exata de quem produz crochê, tricô ou outros itens artesanais como parte da renda principal ou complementar.

Em cidades como Campo Grande, Dourados, Bonito, Três Lagoas e Ponta Porã, iniciativas ligadas à economia criativa encontram terreno fértil em feiras regionais, eventos culturais e cooperativas de artesãos. Projetos como a Feira Fronteira Criativa, em Ponta Porã, demonstram como a cultura local e a produção artesanal podem gerar qualidade de vida, integração comunitária e renda — inclusive para trabalhadores que já possuem emprego formal e buscam ampliar seus ganhos.

Para muitos, o artesanato deixa de ser apenas um hobby e passa a funcionar como um “segundo emprego”, com vendas em feiras, plataformas digitais e encomendas personalizadas. Além de complementar a renda familiar, essas atividades também despertam senso de propósito e valorização cultural.

Analistas de mercado afirmam que esse movimento não é exclusivo de Mato Grosso do Sul, mas integra uma tendência nacional: brasileiros buscam cada vez mais atividades que unam criação, autonomia e faturamento extra. Nesse contexto, setores como o crochê e o artesanato manual desempenham papel importante como porta de entrada para a economia criativa, especialmente para quem já possui estabilidade no emprego formal e deseja diversificar os rendimentos.

Morris Fabiana é uma das trabalhadoras que optaram pelo crochê como forma de gerar renda extra. Ela domina a técnica desde a infância e decidiu transformar o hobby em negócio ao perceber o aumento da procura por peças artesanais.

“Eu faço crochê desde os oito ou dez anos, então tenho conhecimento da técnica há muito tempo. Sempre fiz por hobby, para mim, para amigos e familiares, como uma demonstração de afeto. Mas percebi que o crochê estava crescendo, com muita gente procurando e vendendo. Pensei: por que não transformar isso em uma renda extra? Foi assim que decidi montar minha lojinha de crochê por encomenda”, afirma.

Formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Morris conta que o principal público é feminino, com maior procura por tops, vestidos e biquínis. “As mulheres pedem mais tops, modelos com costas abertas, biquínis e vestidos. No verão, principalmente, a procura aumenta bastante”, relata.

Segundo ela, a demanda cresce especialmente nos meses mais quentes e em datas temáticas, como a Copa do Mundo de 2026. “O verão é o período de maior procura por peças de crochê. Neste ano, com a Copa do Mundo, já recebi pedidos com temática verde e amarela. Fiz short, top e vestido, inclusive infantil. Acredito que a busca vai aumentar ainda mais”, explica.

O Governo de Mato Grosso do Sul tem estimulado o setor por meio de políticas públicas. O programa MS+Criativo foi lançado como parte do 1º Plano Estadual de Economia Criativa, com o objetivo de fortalecer o segmento, qualificar profissionais e fomentar o empreendedorismo cultural no Estado. Além disso, iniciativas de formação e capacitação, promovidas em parceria com Sebrae, Senac e Funtrab, já alcançaram centenas de pessoas em mais de 26 municípios, contribuindo para a formalização de negócios e ampliação da atuação no mercado.

Dificuldades no caminho

Mesmo com avanços, a economia criativa em MS ainda enfrenta obstáculos como acesso a crédito, formalização de pequenos empreendedores e maior visibilidade para o trabalho artesanal. Especialistas destacam que ampliar o apoio por meio de capacitação, feiras, eventos e acesso a plataformas de venda é fundamental para consolidar o setor como uma fonte real e sustentável de segunda renda.

Para quem vive entre a carteira assinada e o crochê, essa jornada representa mais do que dinheiro extra: é um caminho para fortalecer identidades culturais, promover inclusão e transformar habilidades manuais em oportunidades concretas de mercado.

Peso no PIB
A economia criativa em Mato Grosso do Sul representa cerca de 0,9% do PIB (Produto Interno Bruto) estadual, de acordo com o Mapeamento da Indústria Criativa 2025, realizado pela Firjan (Federação das Indústrias). Embora o percentual seja modesto diante da predominância do agronegócio na economia local, o dado demonstra crescimento em relação aos anos anteriores e revela que as atividades criativas têm espaço para se fortalecer no Estado.

Por Ian Netto

 

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