Hospital Militar de Campo Grande realiza 1ª cirurgia com polilaminina em Mato Grosso do Sul

Coletiva sobre o procedimento no Hospital Militar (Foto: Nilson Figueiredo)
Coletiva sobre o procedimento no Hospital Militar (Foto: Nilson Figueiredo)

Procedimento inédito no Estado utiliza proteína desenvolvida por pesquisadores da UFRJ em paciente com lesão medular grave e marca avanço no tratamento de traumatismo raquimedular

Imagem do procedimento sendo realizado no jovem militar (Divulgação)

O HMilACG (Hospital Militar de Área de Campo Grande) realizou, nesta semana, a primeira cirurgia em Mato Grosso do Sul com aplicação de polilaminina, uma proteína desenvolvida por pesquisadores da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) para o tratamento de lesões medulares. O procedimento, considerado inovador e disruptivo na neurocirurgia, foi feito em um paciente tetraplégico e integra um seleto grupo de aplicações realizadas no Brasil por meio de uso compassivo autorizado pela Justiça.
A cirurgia foi acompanhada por especialistas responsáveis pelo desenvolvimento e pela aplicação clínica da proteína no país, entre eles o neurocirurgião Bruno Côrtes, da UFRJ, membro da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, da Sociedade Brasileira de Coluna e das sociedades mundial e americana de cirurgia de coluna; o neurocientista Olavo Franco, pesquisador da UFRJ; e o tenente Wolnei Marques, neurocirurgião do Hospital Militar de Campo Grande.
Segundo Bruno Côrtes, até o momento, pouco mais de uma dezena de pacientes no Brasil receberam a aplicação da polilaminina. “São 13 pacientes até agora no Brasil que conseguiram essa aplicação. A maioria foi feita na média de 10 a 12 dias após a lesão. Nesse caso, já havia passado mais de dois meses, mas ainda se enquadra no conceito de paciente agudo ou subagudo”, explicou.
O médico detalhou que, na medicina, lesões de até um mês são consideradas agudas; até dois meses, subagudas; e acima de 90 dias, crônicas. “Os casos crônicos, acima de três meses, têm uma fisiopatologia diferente, porque ocorre fibrose e formação de neuroma. Ainda assim, tivemos oito casos compassivos em 2020 com lesões crônicas de anos, e todos apresentaram ganhos reais, ganhos funcionais”, afirmou.

Neurocientista Olavo Franco (Foto: Nilson Figueiredo)

Como age a polilaminina
De acordo com o neurocientista Olavo Franco, a polilaminina é aplicada em dose única, diretamente na medula espinhal. “É uma proteína, um polímero de proteína muito grande, que não consegue passar de um compartimento para outro do corpo. Por isso, precisa ser aplicada por via intramedular”, explicou.
A substância atua em duas frentes principais. “O primeiro efeito é anti-inflamatório: diminui o edema e os mecanismos de morte celular secundária, reduzindo a inflamação e a morte dos neurônios. O segundo efeito é promover a reconexão entre os neurônios. A polilaminina cria caminhos no meio da lesão para que essas conexões sejam restabelecidas”, detalhou.
Esses novos caminhos, no entanto, dependem de estímulo adequado. “Esse estímulo é, notadamente, a fisioterapia. Trata-se de uma fisioterapia específica, que estimula um microambiente pró-regenerativo, direcionando a regeneração para que ela seja funcional, com movimento e sensibilidade reais, melhorando a qualidade de vida do paciente”, ressaltou Olavo.

Resultados observados
Bruno Côrtes destacou que os resultados obtidos ao longo dos anos são consistentes. “Todos os pacientes da primeira leva melhoraram em algum grau funcional. Tivemos um caso emblemático, em que o paciente recuperou cerca de 98% da função normal. Ele corre maratona, tem movimento praticamente normal. Em outros casos, a melhora não foi completa, mas sempre com retorno de funcionalidade”, afirmou.
O médico explicou que, em muitos casos, pequenos avanços já representam uma mudança significativa. “Uma pessoa tetraplégica que não consegue se alimentar depende totalmente de terceiros e pode até morrer de inanição. Se ela passa a conseguir se alimentar sozinha, isso já é um ganho fantástico, e os próprios pacientes relatam isso.”
Segundo ele, mesmo nos casos mais recentes, os resultados têm surgido de forma precoce. “Com um mês e pouco de acompanhamento, todos já apresentaram algum grau de melhora, tanto motora quanto assistiva. Isso, inclusive, nos surpreendeu, porque foi mais rápido do que esperávamos.”

Procedimento inédito e capacitação
A técnica de aplicação da polilaminina também representa uma mudança de paradigma na neurocirurgia. “Tudo o que aprendemos ao longo da formação foi evitar ao máximo lesionar o tecido nervoso. Aqui, o alvo é justamente o tecido nervoso. Tivemos que desenvolver uma técnica inédita, porque ela não existia”, explicou Bruno Côrtes.
Por isso, a capacitação de novos profissionais é considerada essencial. “Não basta ser neurocirurgião. É preciso treinamento específico e certificação para garantir que a medicação seja aplicada exatamente no local correto. Isso é fundamental para o controle de qualidade e para a avaliação dos resultados”, afirmou.

Primeiro caso em MS
O neurocirurgião tenente Wolnei Marques destacou a importância do procedimento para o Estado. “Foi uma experiência muito gratificante participar desse primeiro caso em Mato Grosso do Sul. O paciente sofreu uma lesão grave e era tetraplégico, com dificuldade até de movimentar os membros superiores. O potencial benefício para ele é muito importante”, disse.
Ele ressaltou que o traumatismo raquimedular, embora raro, é extremamente grave. “Os pacientes sofrem muito e têm uma limitação enorme. Ter uma opção de tratamento é algo muito relevante. E o Brasil ser pioneiro nisso é ainda mais significativo”, afirmou.
Wolnei também confirmou que pretende seguir com a capacitação. “Já estou em tratativas com o doutor Bruno para realizar o treinamento oficial. A ideia é que, futuramente, possamos realizar esse procedimento aqui mesmo, sem depender de equipes de fora, ampliando o acesso para outros pacientes.”

Importância da fisioterapia
Os especialistas foram unânimes ao destacar que a polilaminina não atua isoladamente. “A injeção precisa vir acompanhada de fisioterapia intensa. Se o paciente não fizer a fisioterapia, o resultado pode ser ruim e isso pode ser atribuído, de forma equivocada, à medicação”, alertou Bruno Côrtes.
Na fase inicial, a fisioterapia é predominantemente passiva, com mobilização para manter articulações e musculatura viáveis. “O processo de reinervação é lento. Quando o neurônio chega ao músculo, ele precisa encontrar uma articulação e uma musculatura preservadas”, explicou. Técnicas como estimulação elétrica e métodos específicos de neuromodulação, como o PNF, também fazem parte do protocolo ideal.

Uso compassivo
Atualmente, a aplicação da polilaminina ocorre por meio de uso compassivo. “Quando não existe tratamento disponível comercialmente e há uma medicação experimental com segurança e eficácia promissoras, o paciente pode solicitar à Justiça o direito de utilizá-la”, explicou Bruno Côrtes.
Segundo ele, estudos regulatórios estão em fase de construção junto à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), o que poderá ampliar o acesso no futuro. “Enquanto isso, as pessoas continuam sofrendo lesões medulares, e a Justiça tem autorizado esses casos de uso compassivo.”

Diretor-geral do Hospital Militar de Área de Campo Grande, tenente-coronel André Antunes Mascarenhas (Foto: Nilson Figueiredo)

Pioneirismo do hospital
O diretor-geral do Hospital Militar de Área de Campo Grande, tenente-coronel André Antunes Mascarenhas destacou o caráter pioneiro da instituição. “Esse tratamento simboliza o compromisso do hospital com a inovação e com a excelência profissional. Temos plena capacidade de oferecer atendimentos e tratamentos de nível mundial”, afirmou.
Ao encerrar a coletiva, ele agradeceu às equipes envolvidas. “Esse procedimento marca um avanço muito significativo. Agradeço a todos os profissionais e reforço o orgulho de o Hospital Militar de Campo Grande fazer parte dessa nova realidade na medicina.”

Por Suelen Morales

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