Em um 2025 marcado pela fé, Janaína e Heitor tiveram nova chance de vida

Foto: arquivo pessoal
Foto: arquivo pessoal

Apesar de vidas distintas, ambos travaram batalha pela sobrevivência em hospitais de Campo Grande

Matriarca da família Bonfá, a fisioterapeuta Janaína Bonfá, de 39 anos, já era mãe de três quando Ana, sua quarta filha, nasceu, um mês após ela e seu marido, João Bonfá, de 40 anos, ambos católicos, se declararem abertos para toda a vida que Deus pudesse lhes enviar. No início, o desafio de ter uma quarta filha não parecia exigir tanto dela, mãe experiente, mas desde o diagnóstico de descolamento de placenta até o dia que teve alta do hospital, 26 dias após o parto, Janaína enfrentou uma intensa batalha pela vida, fazendo com que a fé fosse primordial em sua recuperação.

O primeiro ato de fé se concretizou quando Ana, apesar de todas as complicações do parto, nasceu saudável, de cesárea, no dia 28 de fevereiro de 2025, em um hospital particular de Campo Grande. Janaína explica que o parto normal foi impossibilitado pelo diagnóstico de placenta prévia anterior total, condição descoberta ainda durante o pré-natal, na qual a placenta cobre toda a saída do útero, impossibilitando a passagem do bebê, mais uma situação que exigiu fé e paciência para ser superada.

Com um parto delicado, Janaína pode ver sua filha por poucos minutos após o nascimento, sendo que o reencontro das duas aconteceu 21 dias depois, quando a mãe se recuperava de inúmeros procedimentos realizados em decorrência de uma grave hemorragia que teve no momento em que deu à luz e que a deixou com alto risco de morte.

Janaína relembra o momento que reviu Ana e afirma que, além de ter colocado sua fé na frente em todos os momentos que precisou enfrentar nos 26 dias de internação, dos quais 12 foram em coma e 14 entubada, poder ter o contato com sua filha a fortaleceu ainda mais.

“Foi uma emoção gigantesca poder segurar ela no colo e, mesmo com meus braços fracos, poder amamentar. Isso colaborou muito com minha melhora, porque eu tinha medo de ir pra casa, passar mal e não ter médicos para me socorrer. Mas, olhar para ela me fez ter forças para melhorar. Ter essa oportunidade de ficar com ela colaborou muito, tanto que cinco dias depois eu já tive alta e fui pra casa”, recorda.

Nesta jornada de quase um mês, a fisioterapeuta chegou a ter apenas 1% de chance de vida, ficando sem sinais vitais em alguns momentos, sendo salva, de acordo com ela, pela fé; tanto a pessoal quanto a dos médicos que se empenharam para preservar sua vida e também de todos que se reuniram inúmeras vezes em oração pela sua melhora.

“Foi uma verdadeira batalha pela vida. No mesmo momento em que eu estava no hospital, também acontecia um acampamento juvenil da nossa paróquia e todos os jovens de lá pararam tudo para rezar por mim. Todos os dias, um grupo grande de pessoas ia no estacionamento para rezar por mim. Enquanto isso, lá dentro os médicos e enfermeiros também faziam uma mobilização para salvar minha vida. Eles lutaram até o último momento, até quando eu tive menos de 1% de chances de sobreviver”, conta, emocionada.

Ela ainda relembra o quanto todas as orações foram essenciais para que ela se recuperasse e ficasse sem sequelas, o que foi considerado um milagre pela equipe médica, já que a previsão era de que ela poderia ter consequências neurológicas, ficando em estado vegetativo, bem como ter a necessidade de fazer hemodiálise durante seis dias na semana para o resto da vida.

“Fiquei 14 dias entubada e 12 em coma, mas não tive sequelas, mesmo quando o médico dizia que eu ficaria em estado vegetativo. Vejo que é o agir de Deus na minha vida, porque não precisei fazer hemodiálise. Os meus rins, que estavam necrosados, se regeneram, fiz hemodiálise apenas quando estava internada e não fiquei com mais nenhuma sequela”, conta, ressaltando que foi necessário realizar a remoção do sistema reprodutor na tentativa de cessar a hemorragia.

E completa: “Era sempre assim, quando o médico dava uma notícia, as orações aqui fora se intensificaram e no outro dia, já estava melhor. Um dia o médico disse que as extremidades do meu corpo estavam cianóticas por falta de oxigênio, então, teria o risco de amputar os pés e as mãos, no outro dia, eles estavam rosinhas e quentinhos. Eu sempre me recuperava quando tinha um prognóstico ruim.”

Entre todos os procedimentos realizados, Janaína destaca que a cirurgia de contenção de danos, conhecida como empacotamento, na qual compressas estéreis são colocadas na cavidade abdominal para conter sangramento, e o protocolo de hemoperfusão, feito logo depois ainda na tentativa dela se recuperar da grande perda de sangue, foram grandes milagres também.

“Isso que eles chamam de empacotamento foi feito por um dos médicos mais renomados do Brasil, ele sempre está muito ocupado, mas neste dia ele estava dentro do hospital em que eu estava internada. Já a hemoperfusão é um procedimento feito em alguns hospitais, mas é um protocolo apenas no Albert Einstein, por ter um valor muito elevado. Conseguimos fazer mesmo assim e, depois disso, a hemoperfusão também virou protocolo médico neste outro hospital também”, disse.

Enquanto não tinha alta, Ana ficou aos cuidados do pai, da avó materna, dos irmãos e outros familiares, que formaram uma rede de apoio essencial para que Janaína atravessasse este momento, que hoje molda grande parte do seu modo de ver a vida, que passou por consideráveis mudanças.
“Hoje eu agradeço, porque quando a gente vê a vida passando pelo buraco da fechadura, as coisas mudam. Eu ia ser dialítica para o resto da vida, mas hoje eu posso ir no banheiro no momento que eu quiser. Às vezes a gente só coloca a vida no piloto automático e vai. A gente reclama de tudo, até de precisar ir no banheiro, mas agora eu agradeço. Agradeço até por conseguir tomar banho, por dormir em uma posição em que me sinto confortável. Tudo tem um novo sentido. Agora é tudo sobre agradecer à Deus”, afirmou.
Para o ano que vem e todos os outros que virão, Janaína espera ter saúde para cuidar de seus filhos e vê-los crescer, bem como ter disposição para aumentar ainda mais sua fé e poder retribuir tudo que recebeu e ainda irá receber.
“Milagres acontecem. A gente vê muita coisa ruim acontecendo e vai ficando descrente, mas Deus existe e é muito maravilhoso ver que milagres ainda podem acontecer quando estamos no caminho Dele”, concluiu.

Heitor, o guerreirinho com sede de viver

Outras vidas que ficarão marcadas pelos acontecimentos de 2025 serão a de Heitor Nunes Simplício, de 2 anos e 1 mês, e de sua mãe, Maielle Carolina Gimenez Nunes Simplício, de 32 anos. Ambos passaram por grandes desafios relacionados à saúde, mas encontraram um no outro a força necessária para vencer essa luta.

Emocionada, Maille lembra do dia em que deu entrada em um hospital de Campo Grande após Heitor ter uma febre persistente, que foi investigada, mas não teve um diagnóstico imediato pela falta de outros sintomas. Na época, o pequeno quando contava com apenas 1 ano e 10 meses.

“Ele teve febre e levamos ao médico e demos os remédios. Ele disse que poderia ser uma inflamação na garganta, mas não tinha outros sintomas. Nos outros dias ele continuou enjoadinho, mas não estava mais apresentando febre, mas sentia que estava diferente, então, voltamos no médico. Quando chegamos, a saturação dele já estava caindo, estava em 87 já, mas os exames não mostraram nada. O peito estava limpo”, relembra.

A mãe do menino conta que neste mesmo dia veio o diagnóstico de pneumonia bacteriana, que estava se agravando a cada dia, deixando o pulmão de Heitor com manchas, seguidas por necrose, fazendo com que ele ficasse em um quadro delicado de saúde.

“Aí eu fiquei olhando pra ele, sem saber o que fazer, sem saber o que falar. Aí eu comecei a chorar de nervoso, porque o médico disse que ele precisava ir para o CTI [Centro de Terapia Intensiva] e eu não sabia o que fazer e nem o que fazer”, conta.

Após exames clínicos inconclusivos e diversas formas de tentar colocá-lo no aparelho de oxigenação, Heitor precisou ser sedado e entubado, procedimento delicado em uma criança tão pequena.

“Ele estava na oxigenação com o acesso, mas, por ser criança, ele acabou arrancando esse acesso e não conseguiram colocar novamente. Então, o médico disse que ele precisaria ser entubado. Me tiraram do quarto e quando voltei, foi uma cena horrível. Quando eu lembro ainda é uma dor muito grande. Ele estava em um estado que parecia vegetativo. Não sei o que me passou, não sei descrever a sensação de ver ele assim, mas me doeu muito”, explica.

Heitor ficou cerca de 15 dias entubado, sendo que neste período travou uma grande luta pela vida. Com baixa saturação, todos os dias o quadro se agravou, culminando em um derrame pleural — um acúmulo anormal de líquido entre os pulmões e a parede torácica – levando à necroses formada de bolhas que não podem estourar, o que pode trazer consequências graves.

A mãe do pequeno conta que enquanto estava entubado e realizando diversos procedimentos, a criança estava sendo medicada para contar as bactérias causadoras da pneumonia.

Após alguns dias, quando já apresentava uma melhoria visível, veio mais uma prova que precisaria de fé. A extubação e a suspensão do anestésico fez com que Heitor ficasse em estado de abstinência, já que por ser uma criança grande a quantidade de medicamento diretamente na veia para que tivesse o desempenho esperado.

A retirada imediata não foi bem sucedida, sendo necessário fazer uma inalação para estabilizar o menino. A mãe conta que vê-lo perdendo saturação mais uma vez, a fez entrar em desespero. Após a realização de alguns procedimentos, ele precisou ser entubado novamente, mas sem a previsão de sair do CTI.
“O médico disse que tentariam tirar ele da sedação novamente depois de uns dias, mas eu precisava ser forte, porque o Heitor tinha sede viver”, afirmou.
A jornada do garoto durou mais de 15 dias, quando finalmente ele pôde ir para o quarto, onde continuava em observação, recomeçou a andar e tinha o cuidado da mãe, da avó materna e de outros familiares.

Se por um lado, Heitor se recuperava após ter ficado entre a vida e a morte, a mãe do menino teve uma surpresa que mudaria os rumos da história: uma pedra no rim, forçando Maielle a passar por uma cirurgia de emergência.

“Quando ele tinha 10 dias no quarto, eu tive uma crise renal muito forte, como nunca tinha sentido antes. Passei pela cirurgia e graças à Deus pude ficar no mesmo quarto que ele, mesmo que fosse na ala pediátrica. As pessoas do hospital já nos conheciam e sabiam da nossa história, então, isso facilitou”, conta.

Como seu quadro de saúde estava melhor que o de Heitor, Maielle teve alta antes e até se propôs a continuar como acompanhante do seu filho, que neste tempo estava sob os cuidados da avó materna no hospital. No entanto, a recomendação médica era ficar em repouso, em casa, já que, apesar de ser relativamente simples, o procedimento realizado para a retirada da pedra ainda é invasivo.

“Fiquei quatro dias internada. No dia 26, quando eu ainda estava lá, foi aniversário do Arthur, ele fez 2 anos dentro do hospital. Como ele estava há quase 2 meses no hospital, fizeram uma surpresa com parabéns e tudo. Ele veio para casa poucos dias depois”, relembra.

E completa: “Se não fosse Deus me segurando, me dando forças, eu não teria aguentado”. Agora, mãe e filho se recuperam ao lado do irmão de Heitor, Henrique que, de acordo com a mãe, se recusou a ir para casa onde mora com os pais enquanto o irmão estava no hospital, morando temporariamente na casa da avó materna.

Ainda há um processo de recuperação longa pela frente, com acompanhamento de especialistas, cuidados diários para que nenhuma bolha do pulmão estoure, por exemplo. Mas, grande, esperto e sendo acompanhado de perto pelos pais e avós, Heitor vive como uma criança que lutou pela vida e fez valer sua sede de viver.

Por Ana Clara Julião

 

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