Mudanças na CNH derrubam procura por autoescolas em até 80% na Capital

Foto: Reprodução
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Enquanto empresas relatam crise e fechamento de unidades, instrutores autônomos registram aumento na demanda

 

As mudanças nas regras para obtenção da CNH (Carteira Nacional de Habilitação) impactam diretamente o mercado de formação de condutores em Mato Grosso do Sul. Em Campo Grande, autoescolas relatam queda de até 80% na procura por serviços desde a divulgação do novo modelo de habilitação pelo Ministério dos Transportes, enquanto cresce o interesse de candidatos pela possibilidade de realizar aulas com instrutores autônomos, modalidade prevista na nova legislação.

Dados do portal CNH do Brasil apontam que o Estado possui atualmente 2.846 instrutores habilitados, sendo 955 em Campo Grande, profissionais que poderão atuar de forma autônoma ou vinculados a CFCs (Centros de Formação de Condutores). O cenário já levou algumas empresas a reduzirem atividades ou até fechar as portas, enquanto as novas regras ainda geram dúvidas entre empresários do setor e candidatos à habilitação.

Ao jornal O Estado, donos de autoescolas na Capital afirmam que o momento é de preocupação para o setor. Proprietário da Mônaco Autoescola, Jairo Ricci, que atua há 18 anos no mercado, afirma que a redução na procura começou ainda antes da implementação das mudanças. “O cenário está bem ruim. A procura caiu muito. A gente já vinha sentindo desde setembro e outubro do ano passado. Quando saiu a publicação em dezembro, praticamente parou o movimento. Tivemos uma queda de cerca de 80%”, relata.

Segundo ele, parte da população criou a expectativa de que o processo para obter a habilitação seria gratuito. “Muitos acharam que ia ser de graça. Eles fazem o curso teórico no aplicativo do governo e depois descobrem que ainda precisam pagar as taxas médicas e psicotécnicas. Isso gerou uma expectativa ilusória na população”, afirma.

Ricci explica que atualmente o número de contatos até aumentou, mas poucos candidatos efetivamente fecham matrícula. “Hoje recebemos muitas ligações para tirar dúvidas, mas pouca gente realmente fecha o processo. Muitas autoescolas estão tentando se adaptar, reduzindo custos ou buscando estratégias para continuar no mercado”, diz.

A proprietária e instrutora da Autoescola Aliança, Rosana Ramos, também relata forte redução na procura por alunos. “Diminuiu bastante. Podemos dizer que a queda chega a cerca de 80%. Hoje o candidato não é mais obrigado a procurar uma autoescola, então muitos estão aguardando para entender melhor como vai funcionar o novo modelo”, explica.

Para ela, o cenário gera preocupação tanto para as empresas quanto para a formação de novos condutores. “É uma situação preocupante para as empresas e também para o aprendizado dos candidatos. Uma pessoa sem experiência pode acabar indo para o trânsito sem a preparação adequada”, afirma.

Autoescolas fechando

Em Campo Grande, a Autoescola 2000 está encerrando as atividades após registrar forte redução na demanda desde a implementação das novas regras para obtenção da CNH. Segundo a proprietária, Cláudia Félix, a empresa registrou queda de aproximadamente 90% na procura por alunos, cenário que tornou inviável a continuidade das operações. “Vou ser bem sincera: nosso trabalho praticamente acabou. A procura caiu cerca de 90% e hoje estamos apenas encerrando o atendimento dos alunos que já estavam matriculados. Não tem mais procura”, afirma.

De acordo com a empresária, parte dos candidatos passou a acreditar que o processo de habilitação seria gratuito após o anúncio das mudanças. “Muitos chegam aqui achando que vão tirar a carteira de graça. Quando explicamos que ainda existem taxas obrigatórias do Detran, eles acabam desistindo ou interrompendo o processo”, relata.

Cláudia também aponta que a falta de informações claras sobre o funcionamento do novo modelo tem gerado confusão entre os candidatos. “Existe muita divergência de informação. Alguns alunos fazem o curso teórico gratuito pelo sistema do governo, mas quando descobrem que ainda precisam pagar outras taxas, acabam parando o processo”, explica.

Instrutores autônomos

Entre as mudanças está a possibilidade de que as aulas práticas de direção sejam realizadas por instrutores autônomos de trânsito, sem vínculo obrigatório com uma autoescola. Segundo o Detran-MS (Departamento Estadual de Trânsito), ainda não há definição sobre os valores que podem ser cobrados pelas aulas ministradas por profissionais que atuam nessa modalidade.

Para atuar como instrutor de trânsito, o profissional deve atender a critérios legais, como ter mais de 21 anos, possuir no mínimo dois anos de habilitação, ensino médio completo, não ter cometido infração gravíssima nos últimos 60 dias, apresentar certidão negativa de antecedentes criminais e concluir o curso de Formação de Instrutores de Trânsito.

A atividade também exige credencial válida, documento que comprova oficialmente o exercício da função. O registro tem validade anual, até 31 de dezembro, e precisa ser renovado junto ao Detran-MS mediante apresentação da documentação exigida.

De acordo com o órgão, a atuação dos instrutores autônomos ainda está em fase de implementação. “O Detran-MS ressalta que a atuação do instrutor autônomo está em processo de implementação gradual. No cenário atual, instrutores sem vínculo com autoescola ainda não conseguem agendar exames práticos, uma vez que o sistema permite, neste momento, apenas o agendamento por meio de veículos vinculados a autoescolas”, informou o órgão.

Mesmo assim, alguns profissionais já veem oportunidade no novo modelo. Instrutor de trânsito há 10 anos, Alisson Martins atua de forma autônoma há cerca de seis meses e afirma que a expectativa é positiva. “A possibilidade de trabalhar de forma autônoma permite organizar diretamente com o aluno as aulas e os horários, sem atrapalhar a rotina dele. Também consigo acompanhar o aluno até a conclusão do processo de habilitação”, afirma.

Segundo ele, a procura já começou a crescer. “Tenho visto uma demanda crescente por novos alunos e estou com uma expectativa muito boa. Ainda estamos nos adaptando às novas regras, mas tudo está se encaminhando”.

Geane Beserra

 

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