Guardiã do último orelhão de Campo Grande, Nenzinha quer levar aparelho para casa como recordação

Foto: Nilson Figueiredo
Foto: Nilson Figueiredo

Com a previsão de desativação até 2028, símbolos de uma era sem celulares se preparam para serem aposentados

 

Na entrada do distrito de Rochedinho, localizado a cerca de 40 quilômetros de Campo Grande, em frente à agência dos Correios, está o último orelhão ainda em funcionamento no município. Em meio à era da tecnologia, o aparelho resiste ao tempo como símbolo de memórias, nostalgia e de uma época em que recados e ligações faziam parte da rotina da população.

Parte dessa trajetória está diretamente ligada a Maria das Dores de Lima, conhecida carinhosamente como Nenzinha, que foi guardiã do orelhão por mais de 39 anos. Durante esse período, ela trabalhou vendendo fichas telefônicas, entregando recados e cuidando da circulação de pessoas no local.

A reportagem do O Estado esteve em Rochedinho para conhecer de perto o orelhão e conversar com Maria das Dores sobre as histórias vividas ao longo dos anos e o sentimento diante da retirada do telefone público.

Com uma relação direta com o aparelho telefônico, que hoje funciona gratuitamente, Nenzinha viu a evolução da comunicação chegar ao pequeno distrito e, mesmo com poucos usuários, o orelhão segue preservado graças à sua dedicação. Com a previsão de ser desativado até o fim de 2028, a antiga cobradora das ligações já tem uma ideia de destino para o aparelho: quer levar de recordação para casa.

Maria das Dores de Lima – Foto: Nilson Figueiredo

“Virou um trabalho de família. Meu marido, minha cunhada e outras pessoas da família também trabalharam com o telefone. Naquela época, não existia celular, então a gente ajudava a fazer ligações e levava recados até muito longe, de bicicleta ou a pé”, relembra.

Segundo ela, o orelhão sempre foi respeitado pela comunidade. “Nunca foi quebrado ou vandalizado. A gente sempre cuidou. Passo pano, mantenho limpo. É por isso que ele está aí até hoje”, conta.

Nenzinha afirma que, apesar de entender as mudanças tecnológicas, a retirada do orelhão desperta sentimento de tristeza. “Vai fazer falta. É uma lembrança de uma época muito boa. Vai ficar na memória”, diz.

Entre tantas histórias, ela guarda com carinho o período em que o telefone público era o único meio de comunicação da região. “Era muita ligação, muita correria, mas era muito bom. A gente ajudava as pessoas”, finaliza.

Ao final da conversa, Nenzinha afirmou que, caso o orelhão seja oferecido a ela, ficaria com o equipamento para levar para casa. A ideia é mantê-lo como um ponto simbólico de lembrança de uma época que ela considera feliz, marcada pelo crescimento pessoal e pelos anos dedicados ao trabalho junto ao telefone público.

Foto: Nilson Figueiredo

Mato Grosso do Sul ainda possui 108 telefones públicos instalados

Símbolos de uma época em que telefone celular era artigo de luxo e a comunicação dependia de fichas ou cartões telefônicos, os orelhões estão com os dias contados no Brasil. Dados mais recentes declarados pelas operadoras à Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) indicam que Mato Grosso do Sul ainda possui 108 telefones públicos instalados, entre aparelhos ativos e em manutenção, sem registro de novos investimentos ou reposições.

Segundo a Anatel, há cerca de 30 mil telefones de uso público existentes no país, que devem ser definitivamente aposentados até o fim de 2028. Em Campo Grande, a despedida já está quase completa. Resta apenas um orelhão em funcionamento, localizado no cruzamento da Rua 13 de Maio com a Travessa Guia Lopes, que também deve ser retirado em breve.

Em todo o Estado, há atualmente 32 orelhões ativos e 31 em manutenção, instalados principalmente em aldeias indígenas, escolas agrícolas e localidades sem acesso à internet ou sinal de celular. Os equipamentos estão distribuídos em municípios como Amambai, Aquidauana, Corumbá, Miranda, Nova Andradina, Três Lagoas, Sidrolândia, entre outros.

Lançados em 1972, os orelhões se espalharam pelas cidades brasileiras e marcaram gerações. O equipamento, que se tornou um ícone do design urbano nacional, foi criado pela arquiteta Chu Ming Silveira, chinesa radicada no Brasil. O formato atravessou décadas e ganhou reconhecimento internacional, chegando a ser referenciado até em produções culturais recentes. No auge, o país chegou a ter mais de 1,5 milhão de telefones públicos em funcionamento.

A presença dos orelhões nas ruas era garantida por contratos de concessão firmados em 1998, que obrigavam as empresas de telefonia fixa a manter o serviço como parte da política de universalização do acesso à comunicação. Esses contratos, no entanto, se encerraram em dezembro de 2025. A partir daí, teve início a transição para um novo modelo, baseado em autorizações e no regime privado, o que prevê a extinção gradual do STFC (Serviço Telefônico Fixo Comutado) e, consequentemente, dos telefones públicos.

Segundo a Anatel, a mudança busca viabilizar um novo modelo para a telefonia fixa no país, capaz de estimular investimentos em redes de banda larga e telefonia móvel. Nesse contexto, as concessionárias negociaram com o poder público a adaptação dos contratos. O processo, porém, foi impactado pela crise financeira da Oi, que enfrenta dificuldades desde 2016 e já passou por processo de recuperação judicial. Ainda assim, a empresa segue como a operadora com maior número de orelhões ativos no Brasil.

Histórias que ficam na memória

Para quem viveu a época, o desaparecimento dos orelhões desperta nostalgia. A aposentada Dona Elza Ferreira, de 68 anos, moradora do bairro Amambaí, lembra da importância do equipamento no dia a dia.

“Antes do celular, o orelhão era essencial. Eu ligava para avisar que tinha chegado bem ao médico ou para pedir ajuda quando o ônibus atrasava. A gente sempre andava com ficha ou cartão no bolso. Hoje, quase ninguém olha para eles, mas fizeram parte da nossa rotina”, conta.

A auxiliar de serviços gerais Maria Aparecida Lima, de 40 anos, também relembra o papel fundamental do telefone público quando chegou à Capital. “Quando eu cheguei a Campo Grande, ainda sem celular, o orelhão era o único jeito de falar com a família no interior. Era rápido, barato e resolvia. Ver eles sendo retirados dá a sensação de que o tempo passou mesmo”.

Quem também acompanhou a transformação da cidade foi Severino Soares, morador antigo da Capital. Ele chegou a Campo Grande em 1973, quando, segundo ele, “quase não tinha rua”. “Só tinha orelhão e as carrocinhas de animal para carregar o pessoal”, recorda. Para ele, o equipamento era prático e acessível. “Com uma ficha, você falava o dia todo. Era barato e todo mundo gostava”.

Alguns operam até 2028

Na prática, cerca de 9 mil orelhões devem permanecer em funcionamento até 2028, principalmente em localidades onde não há cobertura mínima de telefonia móvel 4G. A maior concentração está no estado de São Paulo, e a localização dos aparelhos pode ser consultada no site da Anatel.

“As empresas assumiram compromissos de manutenção da oferta de serviços de telecomunicações com funcionalidade de voz, incluindo os orelhões, até o prazo máximo de 31 de dezembro de 2028, nas localidades onde forem as únicas prestadoras”, informou a agência reguladora.

Como contrapartida pela desativação dos telefones públicos, as operadoras se comprometeram a investir em infraestrutura, com implantação de redes de fibra óptica, instalação de antenas de telefonia móvel com tecnologia mínima 4G, expansão da cobertura celular, conectividade em escolas públicas, além da construção de data centers e lançamento de cabos submarinos e fluviais.

Atualmente, a Oi mantém 6.707 orelhões em operação no país. Vivo, Claro e Algar devem desligar suas redes ao longo deste ano, restando cerca de 2 mil aparelhos sob responsabilidade dessas empresas. Outros 500 telefones públicos pertencem à Sercomtel, localizados em Londrina e Tamarana, no Paraná, cuja retirada depende da adaptação contratual da operadora.

 

Por Inez Nazira, Geane Beserra e Ana Clara Julião

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