“Ai de mim! Aonde foi parar a sabedoria, que outrora te fez famoso entre homens estrangeiros e o povo a quem regias?” (Homero, A Ilíada). Como se desencadeia e desenrola um conflito? Quem são os amigos e os aliados, e quem são os adversários e os inimigos? Onde está a razão, durante a guerra? Por vezes nos interrogamos sobre qual a razão de as obras clássicas permanecerem no nosso imaginário, apesar da diferença total do contexto histórico em que hoje estamos inseridos.
Vivemos tempos difíceis, afagados por vezes pela bonança do momento, mas sempre com nuvens carregadas no horizonte. E a característica deste século XXI, que por vezes parece durar há já demasiado tempo, é a da guerrilha permanente, da fissão, das ruturas anunciadas ou pressentidas. É, sobretudo, o tempo da imprevisibilidade, da incerteza, e de tudo o que elas acarretam, da angústia à desconfiança, ao medo e à violência.
Na epopeia da guerra de Tróia o herói o que mais se destaca do lado grego é Aquiles. Forte e corajoso, Aquiles não é a imagem da perfeição. Ele é uma ilustração da contradição e da complexidade das ações humanas: o mesmo herói que é colocado no centro do poema épico é o matador que recusa o sepultamento do herói troiano, Heitor. O poema de Homero resolve essa tensão levando à morte o herói grego, que se havia esquecido de proteger seu ponto frágil; e esse processo ajuda a trama a seguir em frente.
As tragédias, comédias e epopeias clássicas falam-nos do comportamento humano e dos processos sociais: o convite que permanentemente nos fazem é o de olharmos para além das falsas aparências. Não são novelas maniqueístas, ou meras narrativas, mas retratos de vida que apelam a que compreendamos que, especialmente durante as catástrofes e grandes transformações, os indivíduos podem representar papéis diferentes, e até contraditórios.
Assim é com Heitor, Aquiles, Agamemnon, mas também com as contradições e caprichos dos deuses, espelho das paixões humanas. E foi assim, mais próximo de nós, com personagens como Pétain, Getúlio Vargas, Fidel Castro ou, ainda, com diversos personagens que por estes dias vão vendo suas estátuas removidas do espaço público, ou a ele acrescentadas, no quadro de uma discussão que projeta toda a História nas contradições do presente.
Qual é o quadro geral, a trama, das atuais contradições e dos debates que atravessam hoje o planeta? Como podemos tentar ver, para além do comportamento momentâneo de protagonistas e angústia pontual de alguns traumas, o que poderá estar a acontecer?
Como nas tragédias clássicas, os momentos de crise ou de catástrofe são digeridos e reorganizados não pelos aparentes protagonistas, mas pelo coro, ou seja, pela população em geral, e desencadeiam a convergência de reflexões e comportamentos difusos. São momentos de caos, quer dizer, de início de uma nova organização. São, por isso, momentos de aprofundamento e renovação do Direito, como reflexão filosófica e definição de princípios e valores.
Nada é evidente na literatura épica grega, pois ela foi escrita em tempos de grandes conflitos e de ruturas. Hoje, creio que vivemos tempos similares e, do Mediterrâneo às Américas, uma mais forte educação em torno dos textos clássicos e das suas mensagens ajudaria, certamente, a compreender que uma das características dos tempos de incerteza é que a razão e a melhor opção não estão, muitas vezes, associadas. E que, quando a razão empurra para o conflito, a melhor opção é ignorá-la e procurar a paz.
Luiz Oosterbeek é Professor Coordenador do Instituto Politécnico de Tomar (Portugal), Presidente do Conselho Internacional para a Filosofia e das Ciências Humanas e membro da Academia. Esteve na UFMS em novembro para participar do “II Seminário Internacional APHELEIA América do Sul”. E-mail: loost@ipt.pt