Os 47 segundos que abalam a América Latina

Deni Alfaro Rubbo

No dia 3 de janeiro de 2026, o mundo acordou sob impacto. Em apenas 47 segundos, a capital da Venezuela foi fortemente bombardeada: infraestruturas destruídas, civis e militares mortos, e o presidente Nicolás Maduro, ao lado da primeira-dama Cilia Flores, sequestrados por uma operação militar norte-americana. Poucas horas depois, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a formação de um novo governo venezuelano sob tutela estadunidense.

O discurso que sustenta a ação não é novo. A retórica trumpista que acusa Maduro de “narcoterrorismo”, invocando “democracia” e “liberdade”, combina a reafirmação da Doutrina Monroe com uma atualização do Destino Manifesto. Trata-se de uma fórmula conhecida na história latino-americana: justificar a violência em nome de valores universais enquanto se ignora, sem constrangimento, o direito internacional.

Golpes de Estado não respeitam regras. São, por definição, indiferentes às normas do jogo político. Nesses momentos, a legalidade transforma-se em farsa, pois a mudança institucional é — e sempre será — imposta pela força.

A operação durou menos de um minuto, mas suas consequências serão profundas e duradouras. Em nível local, regional e global, abre-se um novo ciclo de instabilidade cujo desfecho é imprevisível. Mais do que um evento isolado, a intervenção simboliza uma releitura do passado e pode inaugurar um novo período histórico.

As tensões entre Estados Unidos e Venezuela não surgiram agora. Elas se estendem por mais de 25 anos, desde a chegada de Hugo Chávez ao poder, em 1999. Em 2002, uma tentativa de golpe fracassou e acabou fortalecendo o chavismo, produzindo um efeito reverso — episódio bem retratado no documentário irlandês “A revolução não será televisionada”.

Naquele início de século, o cenário era outro. Movimentos sociais, sindicatos e coletivos ocuparam as ruas do continente para dizer não à ALCA, projeto que ampliaria o controle econômico dos EUA sobre a região. Governos de esquerda emergiam em diversos países, e, apesar de contradições, havia uma participação popular ativa nos projetos de inclusão social.

Em países como Bolívia e Equador, povos indígenas tornaram-se protagonistas da história política.

Em 2001, o surgimento do Fórum Social Mundial ajudou a alimentar uma imaginação coletiva de resistência e utopias reais. Havia expectativas, esperanças e a sensação de que a América Latina poderia trilhar um caminho próprio — como na simbólica “América Invertida”, de Torres García.

Um quarto de século depois, o contexto é radicalmente distinto. A intervenção de Trump ocorre em meio à ascensão global da extrema-direita, marcada por nacionalismo exacerbado, autoritarismo e uma ideologia conservadora ancorada no lema “Deus, pátria e família”. Esse bloco exerce hegemonia política e cultural, enquanto a esquerda latino-americana aparece fragmentada e com dificuldades de projetar uma “memória do futuro”.

Embora Trump não controle todos os movimentos do sistema internacional, ele se tornou o principal símbolo dessa nova ordem autoritária. A crise da estrutura de poder global leva os Estados Unidos a exercerem, sem disfarces, a violência direta como estratégia de recolonização global do mundo e de erosão da democracia.

Diante da conivência de setores da mídia, que reproduzem desinformação de forma contumaz, chama atenção a normalização da negação do outro e da exaltação do deus-mercado como única instituição supostamente autorreguladora. Resta a pergunta incômoda: quando vamos admitir que EUA e Europa são ricos porque saquearam outros países, e que nossa pobreza é fruto desse roubo histórico?

Por tudo isso, aqueles 47 segundos não foram apenas uma ação militar. Eles tendem a se tornar os mais longos da história latino-americana do século XXI.

Deni Alfaro Rubbo é Professor de Ciências Sociais da UEMS, Campo Grande, e do Programa de Pós-Graduação de Sociologia da UFGD. Doutor em Sociologia pela USP e bolsista produtividade em pesquisa pelo CNPq. É autor de “José Carlos Mariátegui: Marxism and Critique of Eurocentrism” (Routledge, 2025). E-mail: deni.rubbo@uems.br

Este artigo é resultado da parceria entre o Jornal O Estado de Mato Grosso do Sul e o FEFICH – Fórum Estadual de Filosofia e Ciências Humanas de MS.

 

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