Um século de Asilo São João Bosco

Foto: Arquivo pessoal
Foto: Arquivo pessoal

Localizado no bairro Tiradentes, com uma trajetória dedicada ao acolhimento de idosos, o Asilo São João Bosco completou 100 anos. A casa de caridade mais antiga da Capital, que atende atualmente 90 idosos, é repleta de histórias afetivas e de solidariedade. Pelas mãos de Melissa Tamaciro e Sylvia Cesco, essas histórias transformam-se em um documentário e livro denominado “Amorevolezza – Amor Incondicional – O Asilo em seus 100 Anos”. O livro e o documentário serão lançados nesta quinta-feira (30), durante um jantar comemorativo exclusivo para convidados. Posteriormente, o livro estará à venda no próprio São João Bosco. O projeto foi financiado pelo asilo com o apoio da Prefeitura de Campo Grande por meio do Fundo Municipal do Idoso. 

A trajetória do asilo, de caridade e acolhimento, iniciou em maio de 1923, quando grupos reuniram-se e fundaram a Conferência Vicentina Nossa Senhora das Vitórias, cujo principal objetivo era contribuir e cuidar de idosos desamparados. Com um espaço localizado na rua 26 de Agosto, a casa, com capacidade máxima para 50 pessoas, já acolhia um total de 90 idosos. Diante da superlotação, em 1968, a PMCG (Prefeitura Municipal de Campo Grande) doou um terreno no bairro Tiradentes, local onde o asilo permanece até hoje. A pesquisadora, escritora e produtora audiovisual Melissa Tamaciro, em conversa com o jornal O Estado, ressalta a importância de realizar o documentário e o livro sobre os 100 anos dos diversos idosos que por ali passaram, desde 23 de outubro de 1923.

“Para um ser humano chegar a 100 anos de existência, muitas histórias são vividas. Imagina isso multiplicado numa instituição e, principalmente, em um lugar de caridade. Fui secretária de Cultura e Turismo, e o patrimônio histórico é um assunto forte para mim, porque nós, brasileiros, não compreendemos ainda a necessidade de preservar nossas pegadas, nosso saber. Não pelo simples arquivamento/consulta, mas porque saber do passado abre perspectivas para corrigir rotas, dar continuidade a boas ideias que possam ter sido abandonadas. A pesquisa, muito além da informação, também é subsídio para arte e – algumas vezes – se transforma na arte em si. Foi o caso desse trabalho com o asilo”, explica.

 

Foto: Registro: Voluntárias realizando um almoço beneficente/Arquivo pessoal

 

100 anos em 6 meses 

Segundo a pesquisadora, ao longo de seis meses, foram feitas leituras de atas, livros, arquivos históricos, consultas a pilhas de jornais antigos e diálogo com fontes primárias e secundárias. Melissa realizou uma verdadeira imersão no passado do asilo, no encalço de histórias que pudessem compor o livro e o audiovisual. Além disso, o projeto conta uma equipe de muito calibre para dar forma a um projeto tão especial. 

“Um processo de pesquisa dessa magnitude não dá para fazer sozinha. Então iniciamos em abril deste ano. Com base em toda a pesquisa, fui dirigindo o documentário e escrevendo o livro em coautoria com a Sylvia Cesco. Fomos trabalhando paralelamente. O Alexis Prappas e Lenni Santos assinando a direção de fotografia do trabalho. A organização documental, extração de informações e levantamentos conclusivos esses eu mesma fiz, alinhando os acontecimentos do dia a dia do Asilo São João Bosco com momentos de desenvolvimento de Campo Grande, do Estado e do país, década por década. É a parte mais emocionante, para mim. Foram dezenas de leituras, manuseio de pilhas de jornais antigos para encontrar rastros das atividades da instituição e das pessoas que participaram dela. A gente espirra bastante, para quem tem rinite, como eu… é uma belezura (risos). Brincadeiras à parte, é um trabalho muito legal e importante. Esse conhecimento (da história centenária) ninguém tira mais de mim e isso é incrível”, disse Melissa.

Já para a escritora Sylvia Cesco, participar da construção desse projeto e livro sobre os 100 anos do Asilo São João Bosco foi uma experiência única, que só agregou a ela no aspecto humano, social e profissional. “A importância dessa obra para a cidade é plena. Nela, está retratada, praticamente, como se deu seu desenvolvimento: com um grupo de pessoas que se faziam presentes em várias atividades, projetos e empreendimentos. A partir disso, produzimos uma obra com uma narrativa leve, não se tratando de rígidas biografias, mas de respeitosas verdades entremeadas com respeitosas invencionices (ficções). E acrescento, participar dessa experiência me acrescentou muito em todos os sentidos: humano, social e profissional. Social porque despertou em mim um olhar atento a essa faixa etária (a qual eu pertenço) em condições de vulnerabilidade. Digo isso porque eu sempre me ocupei com projetos de atendimento a crianças e adolescentes, nunca de idosos. E me reconheci neles, com suas dificuldades e limitações próprias da idade; no caso deles, agravadas por situações de abandono, de perda de vínculos familiares. Sob a óptica profissional, também me reporto ao fato de ter sido uma experiência extremamente gratificante e educadora ter convivido com uma equipe super jovem, competente, antenada com linguagens de comunicação diferente à minha, que é a tradicional palavra escrita, foi uma experiência incrível! Humano, porque, ao acessar as histórias registradas na imprensa, nas atas, no material impresso e  audiovisuais (YouTube) sobre essa instituição secular, ah, me derramei toda em sentimentos. Era como se eu estivesse participando também dos acontecimentos que eu estava lendo e assistindo”, revela Sylvia.

 

Foto: As escritora Sylvia Cesco e a pesquisadora Melissa, que são as autoras do livro sobre o asilo/Vaca Azul/Divulgação

Memória coletiva A iniciativa de registrar um século do Asilo São João Bosco também destaca-se por sua importância enquanto memória coletiva. Conforme pontua a idealizadora Melissa, que também declara ter se emocionado em diversos momentos durante o desenvolvimento da pesquisa, “para amar o lugar em que se vive, é necessário conhecer os fragmentos que compõem a história e a vivência dessa cidade”.

“Esse trabalho me rendeu bons choros! Chorei com as irmãs Passionistas. Chorei visualizando as mortes da covid. Senti raiva me aprofundando nos golpes que uma instituição leva. Ri demais sabendo dos causos de amor e traquinagem dos avozinhos. Mas talvez para mim o mais impressionante foi ouvir os milagres. Uma vez que se compreende a iniciativa de pessoas – das mais importantes da cidade até os anônimos – de cuidado com o ser humano, a gente salta do estado inerte para se tornar protagonista no cuidado mútuo. Saber que muitos fizeram pelos vulneráveis no passado traz um exemplo claro de que a gente se fortalece fazendo o mesmo, no presente. Sabia que seria algo emocionante para sentir. Mas sabia, sobretudo, que seria necessário para a cidade. Assinar este projeto é uma honra para mim. Ter o asilo em plena atividade, a todo vapor, cuidando de tantas histórias vivas”, ressalta.  

Para a superintendente executiva Cleo Shamah, isso representa uma missão sonhada e realizada. “A ideia do documentário e do livro é deixar registrado para as futuras gerações o trabalho e dedicação de centenas de pessoas que ajudaram a construir essa história”, disse Cleo. 

O livro estará à venda no próprio São João Bosco, com os lucros revertidos para a casa de acolhimento. Quanto ao documentário, estará disponível nos canais da instituição: asilosaojoaobosco.com.br. Para mais informações, acesse, no Instagram: @asilosaojoaobosco.

Por – Ana Cavalcante

 

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