“O Arqueólogo da Música”

Foto: Carlos Wagner
Foto: Carlos Wagner

Documentário “O Arqueólogo da Música em Campo Grande” estreia nesta quinta-feira (27) e revela o trabalho e acervo de Carlos Luz, com discos raros e capas históricas de artistas sul-mato-grossenses

O documentário “O Arqueólogo da Música em Campo Grande” celebra o trabalho de Carlos Luz, que há 24 anos preserva a memória fonográfica de Mato Grosso do Sul, um estado que, ao longo das décadas, construiu uma identidade cultural própria, especialmente na música regional urbana. A obra, dirigida por Marineti Pinheiro e Carlos Wagner, revela como discos de vinil, CDs e outros itens raros contam histórias da indústria fonográfica de MS e seu impacto na formação do imaginário cultural do estado.

Da música para as telas, o documentário será lançado nesta quinta-feira (27), no Teatro do Mundo, com entrada gratuita. A obra explora o acervo único do colecionador e pesquisador Carlos Luz, revelando discos raros, capas históricas e outros itens preciosos, além de mostrar o Museu da Imagem e do Som e as tradicionais feiras culturais de Campo Grande, que se tornaram pontos de encontro para os apaixonados por música.

Com a participação de diversos convidados especiais, como Mansão, a dupla com Castelo, Lenilde Ramos, Jerry Espíndola, Bola, Rodrigo Teixeira e Moacir Lacerda do Grupo Acaba, o filme também se destaca pela sensibilidade de sua direção de fotografia, que contrapõe pesquisa e emoção, celebrando a memória fonográfica de Mato Grosso do Sul.

Do Vinil ao Cinema

O diretor Carlos Wagner contou para O Estado, o processo colaborativo com a cineasta Marineti Pinheiro na criação da estética visual do filme. Segundo Wagner, a ideia surgiu após várias conversas e trocas de ideias sobre projetos no estado, até que Marineti sugeriu destacar o trabalho de Carlos Luz, cuja dedicação à preservação da música de Mato Grosso do Sul impressionou a ambos. “Achamos fundamental ressaltar o cuidado e o amor que ele tem pela história da música do MS”, conta Wagner. Após a elaboração do roteiro e reuniões sobre viabilidade, a equipe conseguiu viabilizar o projeto através da Lei Paulo Gustavo.

Carlos Wagner explica que a fotografia foi crucial para conectar os ambientes internos, como a casa de Carlos Luz e o MIS, com o exterior da cidade, criando harmonia visual que traduzisse a essência do documentário.

“O cuidado em usar a luz natura misturada com Luzes quentes permitiu destacar texturas, contrastes e profundidade, elementos fundamentais deixar tudo em harmonia. A escolha da paleta de cores, os ângulos de câmera e a movimentação contribuíram para transmitir a sensação de estar dentro da história”, relata.

Durante as filmagens, a equipe fez um levantamento detalhado de todo o acervo de Carlos Luz, incluindo itens que ele já doou para o museu local. A escolha de focar em objetos tão representativos da história fonográfica de MS buscou ressaltar o trabalho de Carlos Luz na preservação da memória musical do estado, dando ao público uma visão rica e detalhada de seu legado.

“Desde gramofones, discos de vinil, fitas K7, entre outros materiais raros, queríamos destacar a diversidade e a importância desse acervo”, conta Wagner.

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Muito além da Música

A cineasta Marineti Pinheiro, que conhece Carlos Luz há cerca de 10 anos, relembra seu primeiro contato com o colecionador durante a produção de seu filme da cantora Belinha. Na ocasião, Luz foi fundamental para a digitalização da discografia da cantora e das capas dos discos. Marineti destaca a generosidade e o comprometimento de Luz, que realiza seu trabalho de preservação musical sem buscar reconhecimento financeiro, mas movido por amor e paixão pela música.

“O trabalho de Carlos Luz é movido por amor e doação, e ele é amplamente reconhecido pela preservação da memória musical. No documentário, mostramos sua casa, onde guarda suas preciosidades, e também o museu, onde parte dessa memória é preservada. Além disso, levamos o projeto para a rua, criando momentos de troca e conversa, com a participação dos artistas que ele preserva, para estar junto da comunidade”, explica Marineti.

A produção do documentário contou com uma abordagem colaborativa, com a participação de diversos artistas e personalidades. Oprocesso de convidar os artistas foi natural e cheio de disposição. Marineti ressalta a importância da velha guarda da música e como Carlos Luz mantém uma relação próxima e constante troca com os artistas.

“Carlos troca ideias e traz seu conhecimento para os artistas, possuindo até obras de Bete Betinha que ela mesma não tem. Um momento marcante foi com Mansão, da dupla com Castelo, que chegou com sua discografia debaixo do braço, mas ao ver, Carlos disse: ‘Já tenho todos os seus discos, CDs, tudo o que vocês gravaram’. Esse tipo de bate-papo espontâneo entre os artistas é o que se destaca no filme”, conta a diretora.

Marineti destaca o desafio de condensar tanto conteúdo em um filme curto, mas conseguiu ilustrar a relação de Carlos Luz com os artistas e a música do estado. Ela cita a presença de Jads e Jadson em seus primeiros discos como exemplo da riqueza histórica do acervo. Marineti também reconhece que, sem o trabalho de Carlos Luz, o governo do estado não teria essa memória fonográfica preservada no Museu da Imagem e do Som.

“Fico emocionada ao ver como ele se sentiu grato ao ouvir os agradecimentos dos artistas. Esse filme é muito merecido, pois ele dedica 24 anos a esse trabalho de preservação. A memória musical de Mato Grosso do Sul existe por causa da dedicação dele, e tudo isso feito com amor e paixão, de forma voluntária”.

“Carlos dos Discos”

Carlos Luz iniciou sua jornada de preservação da música regional no ano de 2000, quando trabalhava na área comercial de gravadoras Sapucaia e Pantanal. Durante esse período, ele percebeu que muitos discos de vinil, gravados pelos músicos locais, estavam se perdendo com o advento do CD.

Motivado pela necessidade de divulgar e catalogar o material, Luz começou a digitalizar esses registros e entrou em contato com os músicos, que lhe revelaram ter em seus acervos muitos discos que estavam desaparecendo. Foi assim que nasceu sua pesquisa e o projeto de preservação da memória fonográfica do estado.

“Eu sempre estive na área comercial, participando de festivais como o América do Sul e o Festival de Bonito, com o objetivo de divulgar os músicos do estado. Com o tempo, criei laços fortes com esses artistas, o que me levou à preocupação com a preservação da música regional. Assim, comecei a mapear e preservar o trabalho de músicos que, mesmo antes da divisão do estado, continuaram a viver e contribuir para a música sul-mato-grossense”, conta Carlos para a reportagem.

Carlos Luz afirma também que o título de “arqueólogo da música sul-mato-grossense” surgiu durante um evento no Museu da Imagem e do Som, quando o professor Martins, arqueólogo, fez a analogia entre a arqueologia tradicional e sua pesquisa musical.

“A ideia é realmente deixar um legado para futuras gerações, pesquisas, universidades de música, profissionais da área e de todas as outras áreas, para que possam ter esse material como referência e utilizá-lo para auxiliar nas futuras pesquisas, abrangendo toda a musicalidade de Mato Grosso do Sul”.

Carlos concluiu enfatizando ser fundamental que as pessoas tenham acesso ao que foi gravado, composto e publicado no estado. “O documentário oferece uma visão real da produção musical de Mato Grosso do Sul e da importância da preservação dos discos raros. O objetivo é oferecer uma referência musical completa, que abrange desde a música indígena e folclórica até os gêneros contemporâneos, contribuindo para a pesquisa acadêmica e para o reconhecimento da evolução musical do estado”, finaliza.

Serviço

O lançamento do documentário “O arqueólogo da Música de Campo Grande” será realizado nesta quinta-feira(27 de março), às 19h no Espaço Cultural Teatro do Mundo — Rua Barão de Melgaço, 177 — Centro. A entrada é gratuita.

 

Amanda Ferreira

 

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