“Não é terapia, mas é terapêutico”

Foto: Alexandra Camillo/Divulgação
Foto: Alexandra Camillo/Divulgação

Cerâmica e pintura em porcelana ganham espaço como práticas artísticas que promovem saúde mental, concentração e presença.

As artes e o artesanato são, comprovadamente, uma verdadeira terapia e trazem inúmeros benefícios para a saúde mental, além de auxiliar no desenvolvimento de habilidades motoras, concentração, memória e criatividade. O artesanato hoje é inclusive considerado uma forma de arte, uma expressão artística, cultural e ancestral, que carrega tradições, saberes e habilidades manuais únicas.

Longe do que muitos pensam, o artesanato ultrapassou a classificação de ‘hobby para idosos’ e hoje é visto como arte, sendo composto por atividades que envolvem a criação e produção de objetos feitos à mão, utilizando diferentes técnicas e materiais.

Benefícios

Para a saúde mental, o artesanato atua como uma ‘arte terapêutica’, ajudando a reduzir o estresse, a ansiedade e a depressão. Quem realiza essa arte possibilita que o cérebro seja estimulado, por meio da liberação de serotonina, responsável pela sensação de bem-estar.

Já sobre o aspecto motor, o artesanato envolve o uso das mãos, promovendo o desenvolvimento da coordenação motora fina. Ao manusear materiais, cortar, colar, pintar e costurar, os movimentos se tornam mais precisos e os músculos das mãos e dos braços são fortalecidos. Essa melhora na coordenação motora fina pode ser benéfica tanto para atividades cotidianas como para a prevenção de doenças degenerativas.

Quem faz e quem ensina

A ceramista e professora Alexandra Camillo, ensina em seu ateliê em Campo Grande, cursos intensivos de cerâmica e argilas especiais, para a criação de peças autorais. Para o jornal O Estado, ela explica como a cerâmica é uma arte terapêutica, sendo um momento de concentração, introspecção e criação.

“Aqui no ateliê temos aulas com técnicas de bancada ou mesa, e torno. Elas são a base, todos os outros processos, de alguma forma derivam delas. Num primeiro contato apresentamos as técnicas e as peças que serão produzidas e, na sequência cada aluno ou aluna inicia seu processo de criação e nós, como professoras, orientamos quais as melhores técnicas para a elaboração e sucesso delas”, explica.

Ao falar sobre o impacto da cerâmica para iniciantes, a professora destaca que o contato com o barro pode ser transformador. “A argila é maleável e fácil de se trabalhar, só precisa ter técnica. Mesmo para quem nunca teve uma experiência, a cerâmica desperta a curiosidade e a criatividade”, afirma. Segundo ela, o fazer manual também ativa memórias afetivas e sensoriais profundas. “Todos nós, quando crianças, tivemos alguma experiência de criação. O trabalho manual é um resgate àqueles momentos”, completa.

Sobre os impactos físicos e sensoriais da cerâmica, a artesã ressalta que o processo vai muito além da criação artística. “Quando imaginamos algo, precisamos nos esforçar para transferir essa imagem para o concreto e nem sempre o final é o que tínhamos em mente”, explica. Segundo ela, o trabalho com a argila ensina a lidar com frustrações e a reconhecer “a beleza no improvável”, exigindo atenção, resolução de desafios e adaptação constante. “Para produzir uma peça com argila, trabalhamos músculos e a consciência corporal entra na carona. Corpo e mente ficam focados em algo prazeroso”.

Desde 1998, Flávia Matto Grosso dedica-se a pintura, atividade que realizou durante dez anos. Agora, a artesã utiliza da técnica da pintura em porcelana para se expressar. A atividade, que tem diferenças com a cerâmica, entrou na vida de Flávia assim como ocorre com muitas de suas alunas: após um episódio envolvendo a saúde mental.

“A pintura em porcelana me ajudou por duas vezes a sair da depressão severa, ela me trouxe um ofício e um propósito; propósito de ajudar pessoas que estão sentindo tristeza, ou que estão na época do chamado ‘ninho vazio’, ou com alguma doença grave. Ou pessoas que querem um hobby, que gostam de arte e que querem se sentir úteis, manter a cabeça ocupada e com consciência máxima”, explica ao Jornal O Estado.

“No momento que estão pintando sinto que há um respiro, um acalento e isso me move a buscar aprender cada vez mais e ser uma pessoa melhor para acolher além de ensinar a pintar”, complementa.

Diferenças

Ao explicar o que diferencia a porcelana de outras cerâmicas, Flávia destaca que o material se distingue pela pureza das matérias-primas, como feldspato, quartzo e caulim, e por seu processo de queima. “A porcelana é densa, vitrificada e tem os poros muito fechados, o que a torna resistente e extremamente higiênica”, afirma. Segundo ela, essa característica permite o uso tanto decorativo quanto utilitário, já que não absorve líquidos como a cerâmica comum. “Toda porcelana é cerâmica, mas nem toda cerâmica esmaltada é porcelana”, resume, acrescentando que o material carrega “sofisticação, elegância e durabilidade”, sendo escolhido por quem busca peças exclusivas, capazes de atravessar gerações.

O curso de pintura em porcelana começa com uma aula experimental obrigatória, pensada para oferecer uma base sólida antes da entrada nas turmas regulares. “Nessa primeira aula, apresento o que é a porcelana, do que é feita a tinta para pintura sobre esmalte e as principais técnicas, como esbater, canetar com bico de pena, misturar as tintas e transferir desenhos para a peça”, detalha.

Além disso, para participar, o aluno possui liberdade criativa, sem precisar ter domínio do desenho para criar algo. “As aulas são em grupo, mas o acompanhamento é muito individual, respeitando o tempo, o processo e o objetivo de cada pessoa”, afirma, ressaltando que todo o material, a peça e a queima em forno de alta temperatura já estão incluídos na experiência.

Resultados

Para Alexandra, espaços com cursos de cerâmica na cidade oferecem a oportunidade de valorizar, artistas, culturas e histórias. “A cerâmica é arte milenar, é cultura ancestral, é natureza transformada. Conhecer os processos do fazer cerâmico, entender as dificuldades, as frustrações, o empenho e tempo necessário para a finalização de cada peça, seja uma xícara ou uma obra de arte, amplia o olhar, ensina a reconhecer e a valorizar. Cada obra artesanal carrega um pouquinho do seu artesão, carrega sua energia criativa. É única”.

Assim como a ceramista, Flávia destaca que em uma sociedade que preza pelo instantâneo, rápido e acelerado, a pintura em porcelana traz o feito a mão, o personalizado, o único e o mais importante: o tempo.

“A pintura em porcelana havia sido esquecida, era coisa de ‘gente das antigas’. Hoje, existem artistas incríveis, cada um com sua escola, uns mais acadêmicos, outros com traços mais soltos, livres. Cada um tem sua forma de se expressar e a pintura em porcelana voltou com tudo, simboliza a valorização do tempo, da conexão consigo, a singularidade, a personalização. A pintura em porcelana é linda e delicada, possibilita arte com autenticidade e personalidade”.

Flávia destaca que a pintura cria um espaço de pausa e presença para quem pratica. “Costumo dizer às minhas pupilas que esse é um momento delas, em que conversam, riem, tomam um café, comem um bolinho e esquecem do mundo lá fora por algumas horas que passam num piscar de olhos”, conta. Ao mesmo tempo, ela ressalta que o trabalho com a porcelana exige paciência, persistência e atenção plena. “Para alcançar um bom acabamento, é preciso concentração, cuidado e presença, quase como um exercício de mindfulness”, afirma. Segundo a professora, o processo estimula a coordenação, o ritmo, a respiração e o foco. “Não é terapia, mas é terapêutico”, resume.

Mais informações sobre aulas e técnicas podem ser conferidas nos perfis das professoras: @atelieflaviamattogrosso e @ateliealexandracamillo

 

Por Carolina Rampi

 

 

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