Fé, disputas religiosas e até mesmo rixas políticas. O texto teatral ‘O Pagador de Promessas’, de 1959, do autor e romancista baiano Dias Gomes, ressoa até hoje na sociedade brasileira, que mesmo com tantos avanços, ainda preserva preceitos e dogmas, principalmente em relação a crenças. Esse é o clássico que a escola de teatro Adote traz para os palcos de Campo Grande neste domingo (18), no Teatro Aracy Balabanian.
A montagem, que possui direção de Iago Arimura, faz parte do encerramento da turma avançada da instituição; a obra, reconhecida por sua força crítica e atualidade, ganha nova leitura ao abordar, de forma sensível e contundente, a intolerância religiosa e os conflitos entre fé popular e as instituições de poder.
A trama acompanha Zé do Burro na década de 1960, um homem humilde, que enfrenta a intransigência da Igreja ao tentar cumprir a promessa feita em um terreiro de Candomblé, que era carregar uma pesada cruz de madeira por um longo percurso.
Dono de um pequeno pedaço de terra no interior da Bahia, seu melhor amigo é um burro chamado Nicolau, que adoece repentinamente. Sem conseguir uma cura, Zé faz uma promessa a uma Mãe de Santo de Candomblé: caso o burro se recupere, promete que dividirá sua terra igualmente entre os mais pobres e carregará uma cruz, desde sua propriedade até a Igreja de Santa Bárbara, em Salvador, onde a oferecerá ao padre local. Assim que seu burro se recupera, Zé dá início à sua jornada.
Entretanto, ao chegar na igreja, o padre local se recusa a receber a cruz do fazendeiro, por considerar que a promessa foi feita em circunstâncias ‘pagãs’. O gesto de fé, inicialmente íntimo e genuíno, transforma-se em um embate público, revelando como dogmas, interesses e estruturas institucionais podem distorcer a espiritualidade e afastar-se do povo.
Nesta montagem, a encenação propõe uma reflexão direta sobre o que é Deus e sobre como a fé, quando apropriada por sistemas de controle, pode converter um fiel em herege.
Para o jornal O Estado, o produtor do espetáculo e diretor da escola, Daniel Smidt, explicou que a escolha de encenar o texto clássico de Dias Gomes de seu pelo retrato atual do sincretismo e intolerância religiosa.
“Nosso objetivo é democratizar o acesso: criamos uma montagem leve para quem nunca foi ao teatro, mas que preserva as camadas críticas para o espectador assíduo. É uma narrativa que entretém e provoca reflexão sobre como a fé ainda esbarra em estruturas rígidas de poder”
Métodos
A partir de uma linguagem dramática que preserva a leveza e momentos de humor característicos do texto, o espetáculo dialoga tanto com o público que busca entretenimento quanto com aqueles que desejam aprofundar-se nas camadas políticas, sociais e filosóficas da obra. Pequenos gestos e decisões cotidianas revelam-se capazes de desencadear grandes tragédias, questionando os limites entre devoção, intolerância e poder.
Retratado entre os anos 50 e 60, a escola precisou se aprofundar no contexto histórico abordado pela peça. “Essa pesquisa guiou o estudo de personagem para encontrarmos a mensagem exata que queríamos passar. O caminho foi unir essa investigação à construção de uma linguagem que respeita o texto, mas soa atual e clara para o espectador”, destacou Daniel.
Além disso, o grupo buscou retratar tanto a época em sua história quanto em suas referências estéticas. “Buscamos influências nordestinas e uma ambientação lúdica. O cenário se aproxima de uma capela dos anos 60, mas inserimos elementos de impacto, como a cruz de 3 metros, reforçando o peso do sacrifício do personagem. O figurino também dialoga com essa regionalidade, ajudando a situar o público no centro daquela atmosfera”.
Trabalho conjunto
O elenco principal conta com nada mais nada menos com 18 atores e atrizes: Yuri Azevedo, Yasmim França, Regina Monique, Mateus Amado, Gabriel Dio, Jean Bastos, Júlia Mota, Beatriz Bergler, Carol Okama, Rafaele Lucena, Renata Ramos, Eloá Nowak, Renato Passos, Bryan Souza, Ana Caroline, Smaile Kruki, Diego Amaral e André Castro.
Para Daniel, a variedade trouxe um olhar amplo para o texto, e contribuiu para a construção da peça. “Temos no elenco católicos, evangélicos, agnósticos e praticantes de religiões de matriz africana. Essa diversidade permitiu entender como a mensagem da obra impacta cada indivíduo, transformando essa mistura de crenças em uma força coletiva que dá muito mais verdade às cenas”.
Pensada para todo tipo de público, a montagem convida tanto espectadores experientes quanto aqueles que terão seu primeiro contato com o teatro a se encantarem com a arte do ‘aqui e agora’, reafirmando a potência do palco como espaço de reflexão, emoção e diálogo.
“Esperamos que o público compreenda que a pluralidade religiosa é a essência do Brasil. A fé é um pilar de esperança para o ser humano, e a intolerância cega, nos fazendo esquecer que somos todos semelhantes em busca de conforto. Queremos mostrar que religião não é “time de futebol”; o objetivo é que as pessoas saiam valorizando o respeito acima de qualquer dogma”, finaliza o produtor.
Serviço: A peça ‘O Pagador de Promessas’ será realizada neste domingo (18), às 19h, no Teatro Aracy Balabanian. Os ingressos custam R$ 30,00 e podem ser adquiridos no Sympla. Mais informações no perfil da escola, @adote_oficial.
Por Carolina Rampi
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