Do abuso à ausência, curtas da Misa Produções exploram violência, abandono e afetos em Mato Grosso do Sul, com estreia neste sábado
A Misa Produções apresenta a estreia de dois curtas-metragens autorais que convidam o público a refletir sobre relações humanas, afetos e ausências. A animação “O Cravo e a Rosa” e o filme “Meu Pai Não Veio” chegam à primeira exibição em uma sessão especial dedicada ao cinema independente e a narrativas profundas.
A apresentação acontece no dia 24 de janeiro, às 17h30, no Centro Cultural José Octávio Guizzo, localizado na Rua 26 de Agosto, 453, Centro, com produção assinada por Isabelle Silva e Miya Miyashiro, que atuam como produtoras e diretoras dos curtas-metragens. Após essa primeira sessão fechada, os filmes também terão exibições abertas ao público no MIS (Museu da Imagem e do Som).
O primeiro curta, “O Cravo e a Rosa”, utiliza animação em 2D para reinterpretar uma cantiga popular e transformá-la em uma metáfora potente sobre relações abusivas, revelando gradualmente como a sedução inicial pode evoluir para a violência extrema e suas consequências trágicas sobre violência contra mulher.
O curta “Meu Pai Não Veio” acompanha o olhar de Alice, uma criança de oito anos que tenta compreender a ausência constante do pai após a separação dos pais, enfrentando promessas não cumpridas, silêncios prolongados e o impacto emocional do abandono, enquanto sua mãe tenta manter algum equilíbrio dentro de uma estrutura familiar fragilizada.
3º estado feminicida
Mato Grosso do Sul ocupa atualmente a terceira posição no ranking nacional de feminicídios, de acordo com dados que comparam os índices entre as Unidades da Federação. O estado aparece atrás apenas do Acre, que lidera com a maior taxa, e do Mato Grosso, que ocupa a segunda colocação. Os números reforçam que a violência contra a mulher não é um fenômeno isolado, mas uma realidade persistente tanto no Brasil quanto em MS, onde os casos seguem em patamares alarmantes.
Em 2026, o estado já registrou seu primeiro caso de feminicídio: Josefa dos Santos, de 44 anos, foi assassinada a tiros pelo marido, João Fernando Viegas, de 51, na aldeia Damakue, em Bela Vista. Após o crime, o autor tirou a própria vida, conforme informações da Polícia Civil. No ano anterior, 2025, foram contabilizados 39 casos de feminicídio em MS.
É diante desse cenário de violência recorrente que a Misa Produções desenvolveu a animação “O Cravo e a Rosa”, utilizando o audiovisual como ferramenta de denúncia, reflexão e conscientização social.
Para O Jornal O Estado, a animadora Miya Miyashiro, uma das responsáveis por O Cravo e a Rosa, destacou que o curta busca provocar uma reflexão urgente sobre a naturalização da violência contra a mulher em Mato Grosso do Sul.
“O Mato Grosso do Sul lidera o ranking nacional de feminicídio, e muitos desses crimes partem de quem deveria proteger. É urgente falar sobre a violência contra a mulher em um estado que acabou normalizando essas agressões”, conta Miya.
Abuso constante
Segundo ela, o filme dialoga diretamente com a realidade local, onde grande parte dos casos de feminicídio envolve parceiros ou ex-companheiros, reforçando a necessidade de ampliar o debate público sobre os sinais iniciais de relações abusivas.
“O filme convida o público a refletir sobre como comportamentos controladores e abusivos surgem de forma sutil, como um cravo que cresce sobre a rosa, tentando esconder a violência até que ela se torne explícita”.
Miya explica que a animação utiliza a cantiga popular como recurso simbólico para tratar um tema sensível de forma acessível. Ao ressignificar uma música associada ao universo infantil, o curta propõe uma leitura crítica sobre conflitos afetivos e relações abusivas, sem recorrer à violência explícita.
“Com a animação, a história ganha vida de uma forma sensível e delicada, sem aquela violência explícita, mas que mesmo assim nos traz a reflexão sobre relacionamentos que parecem ser bons, mas muitas vezes o companheiro cresce agressivo como o Cravo”.
Meu pai ainda não veio…
O registro de crianças sem o reconhecimento paterno segue como uma realidade expressiva no país. Em 2024, o Brasil contabilizou mais de 91 mil nascimentos em que o nome do pai não consta na certidão, conforme dados do sistema nacional de registros civis. O número evidencia um cenário recorrente de ausência paterna desde o nascimento, refletindo impactos sociais e emocionais que atravessam gerações.
Em MS, a ausência paterna nos registros civis segue em alta. Desde 2020, mais de 14 mil crianças foram registradas apenas com o nome da mãe, com números que se mantêm elevados ano após ano. Até maio deste ano, o Estado já ultrapassou a marca de mil registros sem o reconhecimento do pai, cenário que inspirou a Misa Produções a desenvolver o curta “Meu Pai Não Veio”, que aborda não apenas a falta no papel, mas também a ausência afetiva.
A diretora, Isabelle Silva, conta que o curta busca ampliar o debate sobre responsabilidade afetiva e os efeitos da ausência parental no desenvolvimento infantil. A narrativa dialoga com uma realidade recorrente no país, onde milhões de crianças crescem sem a presença paterna, seja pela falta de registro, de convivência ou de vínculo emocional, situação que pode gerar impactos duradouros na formação emocional e social.
“O abandono paterno deixa marcas profundas. Ele afeta a autoestima, a forma como a criança constrói vínculos e pode acompanhar essa pessoa por toda a vida. O filme nasceu da escuta de muitas histórias que parecem individuais, mas são coletivas. Queríamos mostrar essa ausência dentro de um espaço íntimo e universal ao mesmo tempo: a casa”, explica Isabelle.
Abandono emocional
A construção narrativa de Meu Pai Não Veio se apoia integralmente no olhar infantil para abordar o abandono emocional. A história acompanha Alice, permitindo que o público vivencie a ausência paterna a partir da sensibilidade da criança, revelando como a espera persiste mesmo diante das frustrações e do silêncio deixado pelo adulto.
“A gente acompanha tudo pelo ponto de vista da Alice. Mesmo quando fica claro que o pai não vai voltar, ela continua esperando. As crianças vivem essa expectativa de amor, não importa o quanto o outro falhe. Para elas, o essencial é se sentir amada”, revela a diretora.
O curta também explora o delicado contraste entre esperança e desilusão na vida de Alice. A narrativa mostra que, por mais que a mãe tente proteger a filha do abandono, certas experiências estão além do controle dos adultos, e o espectador acompanha a impotência silenciosa diante de situações que não podem ser evitadas.
“Queríamos que o público sentisse o que a mãe sente: você sabe que o abandono vai acontecer, mas não há o que fazer. Mesmo magoada, a criança continua amando, independente do que aconteça. É impossível impedir que ela espere e sinta, e o filme mostra justamente essa realidade”, finaliza Isabelle.
Os filmes contam ainda com a colaboração dos coloristas Caio Gomes e Thiago Espíndola. A direção de fotografia é assinada por Daniel Felipe, com João Gabriel Pelosi como assistente de fotografia.
ERRAMOS:
O espetáculo “Beije Seu Preto em Praça Pública”, capa do caderno de Artes & Lazer da edição de 21 de janeiro de 2026, teve uma informação incorreta publicada no texto. Informamos equivocadamente que a peça “Nasce do Desejo” é de Ligia Tristão Prieto. Na realidade, a autoria e a idealização do espetáculo são e sempre
foram do desejo de construção de Leonardo de Medeiros. E todas as etapas de criação são assinadas somente por pessoas negras.