Diversidade cultural é celebrada com o 1º Encontro de Arte e Cultura LGBTQIAPN+

Aurora Cecília (de
camisa escura) em roda
de conversa, uma das
atividades do encontro - Foto: Reprodução
Aurora Cecília (de camisa escura) em roda de conversa, uma das atividades do encontro - Foto: Reprodução

Evento reúne artistas, coletivos e representantes culturais que unem representatividade e homenagem

O município de Jardim, em Mato Grosso do Sul, receberá neste sábado (14), o IPÊ – 1º Encontro de Arte e Cultura LGBTQIAPN+. A ação surge como um espaço de valorização da produção artística da comunidade, promovendo o encontro entre artistas, ativistas, pesquisadores e o público em geral. O encontro será no IFMS (Instituto Federal de Mato Grosso do Sul), campus Jardim e na ONG Arte Viva.

A iniciativa, promovida pela ONG Arte Viva, busca fortalecer a visibilidade das expressões culturais da diversidade, além de estimular o diálogo sobre arte, identidade e direitos. A programação reúne diferentes linguagens artísticas e inclui mostra artístico-cultural, apresentações de voguing, performances drag, rodas de conversa, oficinas e ações voltadas à cidadania. A proposta é criar ambientes seguros de convivência, troca de experiências e reconhecimento da pluralidade cultural presente nas trajetórias LGBTQIAPN+.

Para o Jornal O Estado, a Coordenadora Executiva do IPÊ, Aurora Cecília Martim da Silva, contou que a ideia do encontro surgiu a partir de um projeto em conjunto com a artista visual Bruna Marcela. Entretanto, uma tragédia marcou a iniciativa, que se transformou em uma grande homenagem.

“Nós duas pensamos nesse projeto, mas ela acabou falecendo e não conseguimos executar. E aí eu criei o IPÊ como um ato de memória para ela. Os personagens, o registro visual, a identidade do projeto é tudo pensado nela. Temos uma galeria dentro do Ipê que se chama Bruna Marcela, que é voltada para artistas visuais”, explicou.

“O Ipê, para além dessa questão da necessidade de ter essas pautas no interior do Estado, ele vem como um ato de memória mesmo, de representatividade, dessas pessoas que muitas vezes são invisibilizadas, desses artistas que muitas vezes não são contratados. É um local onde florescemos juntos, onde as sementes germinarão junta e assim nós cresceremos enquanto artistas”, completou.

A artista visual Bruna
Marcela, que morreu em
2024, idealizou o projeto
junto com Aurora Cecília – Foto: Bruna Marcela/Arquivo pessoal

Voguing e performances drag

Entre os destaques da programação está o voguing, linguagem artística que surgiu nos bailes da comunidade LGBTQ+ negra e latina nos Estados Unidos e que hoje se tornou um importante símbolo de identidade, resistência e criatividade dentro da cultura queer global.

As performances drag também ocupam lugar central no encontro, reafirmando sua relevância histórica na construção de narrativas artísticas e políticas da comunidade LGBTQIAPN+.

Segundo Aurora, quando se fala de cultura LGBT, se está falando de pessoas que ainda podem não entender a própria identidade. “O festival vem para mostrar que além de fazermos parte de outros segmentos da arte e da cultura, nós também temos nossa própria identidade. Por exemplo, dentro da cultura LGBT a gente chama de tecnologia travesti, tudo aquilo que é feito com afeto, tudo aquilo que é feito de e para pessoas trans, e que são singulares, são métodos diferentes, a gente vê que são visões de mundo diferentes, então acho que o Ipê vem para mostrar que nós temos a nossa própria identidade enquanto coletivo, e mostrar isso para as pessoas também, para que elas não nos confundam com outras vertentes da cultura de rua, da cultura popular. A cultura LGBT também é cultura popular. E merece ser respeitada”, destaca.

Intercâmbio cultural

O IPÊ também promove o intercâmbio cultural entre artistas de diferentes regiões de Mato Grosso do Sul, fortalecendo redes de colaboração e ampliando o compartilhamento de saberes e experiências entre coletivos culturais do estado. A proposta valoriza a diversidade de expressões e reconhece a potência da arte como ferramenta de transformação social.

Outro objetivo do encontro é contribuir para a preservação das memórias, histórias e costumes da comunidade LGBTQIAPN+, reconhecendo essas narrativas como parte fundamental do patrimônio cultural contemporâneo. A iniciativa busca registrar e fortalecer essas experiências, garantindo que suas contribuições sejam respeitadas e integradas à memória cultural coletiva.

“O intercâmbio foi uma maneira de mostrar que todos são bem-vindos, que todas as histórias, todas as artes, todas as culturas, dentro da cultura LGBT, são bem-vindas. Mostrar que a realidade que um passa aqui não é diferente do que passa na capital, que o interior precisa de mais movimento, fortalecer essas redes de colaboração também editais. O Ipê, ele vem pra juntar todo mundo, para que todos possam florescer, crescer, se profissionalizar. E que não há rixa, não há uma competição. Nós precisamos andar em fraternidade. Sermos juntos sempre contra a realidade que nós vivenciamos. Que é o principal”, diz Aurora.

O projeto é realizado com recursos da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura), por meio do Edital de Chamamento Público nº 24/2024 – Fomento à Cultura Popular. A ação reforça o reconhecimento da cultura popular urbana e periférica como espaço legítimo de criação, resistência e pertencimento.

Mais do que um evento cultural, o IPÊ representa o florescimento das sementes plantadas pelas lutas sociais da comunidade LGBTQIAPN+, celebrando a arte, a diversidade e o direito à ocupação dos espaços culturais.

“Para além dessas ações que nós temos de intercâmbio, nós vamos falar também de patrimônio LGBT, reconhecer nossas características, nossas singularidades. Nós temos momentos de roda de conversa para entender nosso corpo, território, nosso corpo como principal agente das nossas realidades, da nossa arte. E, dentro dessas individualidades, mostrar a força do coletivo. Então, a gente vai falar também das ações estruturantes do município, do estado. Nós vamos falar das políticas públicas, da importância de conhecer nossos direitos e, assim, celebrar e mostrar para todos, para o estado todo — desde aquela maior cidade até aquela mais pequenininha — que todos são capazes, que a gente precisa se unir para que eventos como esse aconteçam e que a gente possa conscientizar a população, levar a informação para que a desinformação não atrapalhe o movimento, não desconfigure as lutas e as vivências de ninguém”, finaliza a coordenadora.

Serviço: O IPÊ – 1º Encontro de Arte e Cultura LGBTQIAPN+ será realizado neste sábado (14), no IFMS – Campus Jardim e ONG Arte Viva

 

Por Carolina Rampi

 

 

Confira as redes sociais do Estado Online no Facebook Instagram

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *